“Permanecer na Terra Santa é um dever, antes mesmo de um direito”

Entrevista com o Pe. Pierbattista Pizzaballa, custódio da Terra Santa

| 1058 visitas

ROMA, sexta-feira, 29 de outubro de 2010 (ZENIT.org) – O barulho do conflito entre israelenses e palestinos faz passar em silêncio a vida da comunidade cristã na Terra Santa e seus problemas. E, contudo, a presença cristã nestes lugares é um dever com o passado, presente e futuro.

Assim afirma o Pe. Pierbattista Pizzaballa, custódio da Terra Santa, oferecendo nesta entrevista concedida a ZENIT um panorama sobre a condição real desses cristãos que ainda moram na terra de Jesus.

ZENIT: As condições dos cristãos nos países de maioria muçulmana foram apresentadas em mais de uma sede, mas sua situação no Estado judaico é pouco conhecida. O senhor poderia falar-nos das condições dos cristãos, sobretudo quanto à liberdade religiosa, liberdade de consciência e direitos políticos?

Padre Pizzaballa: Quando se fala da Terra Santa, é comum certa confusão. Na Terra Santa há duas entidades políticas: Israel e a Autonomia Palestina, que estão em conflito, um aspecto que torna as coisas ainda mais complicadas. Portanto, a situação dos cristãos em Israel, onde há uma maioria judaica, seguida de outra minoria muçulmana e, depois, da minoria cristã, é uma coisa; e a situação dentro da Autonomia Palestina, onde há uma enorme maioria muçulmana, tem outra dinâmica. Seria necessário, por isso, distinguir muito bem estes dois âmbitos.

Em Israel, o cristão tem sérios problemas de identidade. Não há um problema social ou econômico, há problemas em todos os países, mas digamos que do ponto de vista da vida econômico e social, os cristãos não encontram graves problemas. O verdadeiro problema para um cristão é o de ser cidadão em Israel mas não ser judeu, o de ser árabe, porém não muçulmano. Não há discriminações do ponto de vista da lei, mas de fato há desigualdade de tratamento, de aproximação que afeta de forma particular a minoria cristã. Repito, não porque a lei prevê, mas porque de fato, na vida social, uma minoria não é visível e frequentemente não é levada em consideração; e para “ser vista” deve ser duplamente mais valente que as demais. Naturalmente, também existe o problema político: que relação devem ter as minorias com um Estado que se define como judeu? Este é um aspecto. Junto a ele, está a influência da difícil relação entre judaísmo e cristianismo. Há um preconceito profundo que nasce e que se desenvolve ao longo dos séculos no judaísmo para com o cristianismo, por razões que são conhecidas e que em Israel são tangíveis.

São diversas as situações na Autonomia Palestina, na qual influencia todo o conflito palestino-israelense. Aqui há uma maioria islâmica; porém, estão convivendo cada vez menos com cristãos porque estão cada vez menos inseridos nas áreas que eram tradicionalmente cristãs; refiro-me sobretudo em Belém, onde hoje vive uma reduzida minoria cristã, menos de 10%. Infelizmente, o conflito entre palestinos e israelenses está assumindo também um caráter religioso. Algumas vezes, surge a ideia de que, para ser bom patriota, é preciso ser muçulmano. Não é assim, porque dentro da parte cristã existem pessoas de relevo, ainda que cada vez menos. Há formas de integração, logicamente. Os israelenses estão inseridos em alguns lugares, estão também dentro da Autonomia Palestina. Os cristãos, portanto, em sua pequena proporção e divisão, sentem-se saturados dessa situação. É uma realidade mais complexa e que, do ponto de vista humano, provoca muitas preocupações.

ZENIT: Que efeito teria sobre os não- judeus o juramento de lealdade ao Estado judaico proposto por Benjamin Netanyahu?

Padre Pizzaballa: Diante todo o Estado de Israel foi definido desde sempre como Estado judaico e democrático, bem como a posição das minorias a este nível, que não foram totalmente esclarecidas. Agora, Israel pretende, como uma prova de força, dar vida a esta lei, que levantou muitas críticas, tanto dentro como fora de Israel, não apenas entre as minorias muçulmanas e cristãs, mas dentro do próprio componente judaico-israelense, recebendo acusações muito graves de fascismo. É uma lei injusta, porque o Oriente Médio, e depois neste conjunto tão intricado de identidades, cria um mal-estar muito forte e também injusto, porque é uma injustiça forçar uma pessoa que não é judia a viver os princípios judaicos.

ZENIT: Na segunda coletiva de imprensa, o senhor afirmou: “Os tempos do Sínodo não são os tempos dos jornalistas”. Mas se o Syn’odos não são um “caminhar juntos” até os objetivos planejados e a realização do bem a fazer hoje e não deixá-lo para amanhã, não ficaria tudo numa reunião coletiva catártica, por mais saudável que possa ser?

Padre Pizzaballa: É verdade que os tempos da Igreja deveriam ser mais rápidos. Mas não são os tempos da vida social, porque na sociedade há mudanças muito rápidas que a Igreja demora para digerir. Há também problemas dentro delas, dinâmicas da vida da igreja, não há dúvida alguma disso. Existe uma cerca distância entre o território e as autoridades da igreja, isso também é verdade. Mas não devemos nos deixar abater, ter uma visão crítica ou receosa para com nós mesmos. Apesar de nossos problemas, devemos olhar também para o bem que a Igreja consegue fazer por meio de suas instituições, por meio das escolas, de tantas obras, mas sobretudo por meio de tantos pastores, leigos que se comprometem, que põem a mão na massa e que não esperam que sejam indicados por parte de não se sabe quem, mas que, com paixão e amor, dedicam-se ao território e às pessoas que estão no território. Estas pessoas não fazem barulho, mas são as que constroem a Igreja. O Papa usou uma expressão muito bonita no início do Sínodo: é a “fé dos simples” que torna a Igreja forte e grande. É verdade que em certos âmbitos de autoridade da Igreja fazem comentários, discussões e custa depois passar para a implementação, também porque a estrutura da Igreja é muito complexa, mas também devemos olhar para a pátria, para o que surge, o que nasce, e depois colocar-nos também numa perspectiva de fé: não serão nossos programas que salvarão a Igreja, mas, antes de tudo, a obra de Deus, por meio da oração, da vida e da paixão de tantas pessoas.

ZENIT: Uma das questões mais urgentes para os cristãos do Oriente Médio são as peregrinações, que afetam principalmente os cristãos árabes. Nos discursos que chegaram à imprensa, não parece que foi falado disso durante o Sínodo. Não seria oportuno que os bispos do Oriente Médio unissem suas vozes para lançar um apelo aos governos da região?

Padre Pizzaballa: No Sínodo não foi falado diretamente da peregrinação aos Lugares Santos a partir dos países árabes. Foi falado indiretamente no convite de fazer todo o possível para alcançar a paz no Oriente Médio. Esta também é uma perspectiva, certamente. Devemos dizer que, com Israel, os Lugares Santos gozam de uma liberdade irrepreensível, mas também é verdade que o conflito palestino-israelense, além do conflito de Israel com os países árabes, acabou de fato o que tradicionalmente estava aberto a todas as comunidades cristãs do Oriente Médio e que olhavam para a Terra Santa como uma fonte espiritual. Esta é uma ferida profunda que permanece e pela qual devemos trabalhar como Igreja – ainda que talvez não tenhamos tanto poder – e insistir diante a comunidade internacional para que este aspecto seja presente e para que estas fronteiras caiam o quanto antes, também as barreiras psicológicas por ambas as partes.

ZENIT: O cristianismo não é um acontecimento abstrato; aconteceu em tempos concretos e a martirizada Terra Santa é seu espaço sagrado concreto. O senhor afirmou em sua intervenção que “habitar este espaço é a nossa vocação”. Como a Igreja universal pode ajudar os cristãos da Terra Santa a viver e que mudança se espera após este Sínodo?

Padre Pizzaballa: Morar nos Lugares Santos é um dever antes ainda que um direito de todo cristão, cada um de forma distinta. A Igreja universal deve habitar nestes lugares com a peregrinação, vindo à Terra Santa; a comunidade cristã, vivendo nestes lugares, que recordam onde Jesus nasceu, morreu e ressuscitou, vivendo e rezando, batizando os próprios filhos, casando-se, enterrando os mortos. Portanto, nossa vocação como cristãos é precisamente a de olhar para o alto. Não queremos ser testemunhas do sepulcro vazio de Cristo: ecce locus ubi posuerunt eum (“Eis o lugar onde o colocaram”), dizer isso significa também olhar para o alto. A mensagem de Cristo não é um tornar-se devoto do Santo Sepulcro, mas é um sinal de esperança, porque Cristo ressuscitou e nossa contribuição deve ser esta. Há problemas, incompreensões, opressões, mas não nos curvemos, olhemos para frente. Porque Cristo redimiu o mundo e nós somos testemunhas dele.

ZENIT: A presença franciscana na Terra Santa é plurissecular. Começou com o capítulo geral de 1217 e foi considerada como “a pérola de todas as províncias”. Quais são os pontos fortes do significado de sua presença,  que mudanças impõem os sinais dos tempos atuais e o que o Sínodo acrescenta para o Oriente Médio?

Padre Pizzaballa: A missão da Custódia franciscana da Terra Santa é sempre esta: cuidar dos Santos Lugares –as pedras da memória – e das pedras vivas – a comunidade cristã. Estar nos lugares hoje não é popular, porque se fala muito de comunidade, de assembleia, enquanto marcar o território tem uma importância que sobretudo no Oriente Médio é crucial. Portanto, é preciso estar nestes lugares mesmo que não vá ninguém, mesmo estando isolados, ou que não seja gratificante. Simplesmente estar ali e celebrar sua memória antes de tudo com o coração. E depois, estar com a comunidade cristã, com as pedras vivas, porque a sociedade está mudando, os jovens mudam, têm novas esperanças, novas exigências, há um forte impulso à secularização também no Oriente Médio e, com o crescimento do nível econômico, há um distanciamento, porque se tem menos necessidade da ajuda social da Igreja, enquanto, por outro lado, sempre se pede uma ajuda cultural, também uma ajuda espiritual e de presença muito forte. Neste sentido mudará nossa missão, mas continuará sendo fundamental.