Pílula abortiva (RU 486): um delito solitário

Pelo prof. Giuseppe Noia*

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ROMA, domingo, 11 de julho de 2010 (ZENIT.org) - Um dos teoremas mais difundidos e radicados no mundo médico e na cultura popular é de pensar que o aborto voluntário possa ser menos traumático quando praticado nas primeiras semanas de gravidez, submetendo assim a prática do aborto ao critério da "proporcionalidade traumática": quanto menor for o embrião, mais seguro e mais aceitável é o aborto, com menores consequências para a mulher.

Assistimos, ao longo das últimas duas décadas, também no campo dos exames pré-natais, a uma corrida vertiginosa pelo diagnóstico antecipado: biópsia dos vilos corais (10-12 semanas) em substituição à amniocentese, a análise do líquido retronucal, a coleta tríplice; expressões de uma postura de antecipação que culmina na "síndrome do feto perfeito".

Tal síndrome não está descrita nos manuais médicos, mas hoje é já conhecida por todos: é caracterizada pela necessidade compulsiva de exames diagnósticos cada vez mais precoces; é o "teorema da proporcionalidade traumática" aplicado, a idéia de que o diagnóstico precoce de uma anomalia possibilite uma decisão mais precoce e, em caso de má-formação, uma opção pelo aborto menos traumática do ponto de vista físico e psíquico.

É obvio que, do ponto de vista fisiológico, a interrupção precoce de uma gravidez envolve riscos menores. Mas quando falamos de seres humanos, a segurança não pode ser avaliada unicamente com base em critérios fisiológicos ou biológicos: a saúde psíquica da mulher é reconhecida por todos como sendo de extrema importância, e pela sua salvaguarda invoca-se o direito à interrupção de uma gravidez após os 90 dias.

Pergunto-me então: como se pode ainda aceitar, em especial no âmbito da prática médica, o conceito de "proporcionalidade traumática" quando toda a literatura científica evidencia os conflitos psicológicos pós-abortivos, quando a elaboração do luto (mesmo de abortos precoces e espontâneos) é causa de depressão e angústias profundas, de perda de libido, de infertilidade e até perda da capacidade de engravidar novamente, quando em nossos estudos as mulheres nos confidenciam que o sentimento de perda de um filho não é proporcional ao seu peso em gramas ou seu tamanho em centímetros?

O grau de sofrimento experimentado pelas mulheres após um aborto, com efeito, nada mais é que a demonstração empírica de uma evidência profunda que o mundo médico se recusar a enxergar, ou da qual não avalia a real gravidade: que se pode interromper uma gravidez biológica, mas não se pode eliminar a gravidez psíquica. Definitivamente, o vínculo com o próprio filho não é eliminado com a eliminação do embrião.

A pílula RU486 reduz a prática abortiva a uma mera questão de precocidade e segurança, promovendo uma concepção de aborto "faça-você-mesma"; um aborto privado, por mais seguro que possa ser (na verdade, em 13% dos casos faz-se necessária uma intervenção cirúrgica para evacuação do feto), soma solidão a solidão. Enquanto num aborto cirúrgico a interrupção da gravidez é delegada a um terceiro, no aborto químico com a RU468 é a mãe quem administra o veneno que matará seu próprio filho.

Os efeitos fisiológicos são semelhantes aos de um aborto cirúrgico executado com anestesia: contrações, expulsão do feto e dos restos placentários, hemorragia; mas com a RU468, a mulher enfrenta isso tudo sozinha, sem qualquer assistência - e o máximo da responsabilidade psicológica!

Destaco estas profundas contradições científicas, éticas e humanas num momento em que se promove o uso extensivo do aborto farmacológico na sociedade italiana, já duramente atingida por um mal-estar que evidencia, a cada dia com mais frequência, doenças da alma e da psique, das quais, lamentavelmente, os protagonistas são muitas vezes mãe e filho - díade preciosa que a cultura pseudo-científica parece querer separar e dividir.

*Giuseppe Noia é professor de ginecologia, obstetrícia e cirurgia fetal invasiva na Universidade Católica do Sagrado Coração de Roma. É autor de diversos livros e artigos, entre os quais "Terapias fetais invasivas" e "Terapias fetais"; é também co-autor de "O filho terminal".