Pio X: um Papa incompreendido

Uma Jornada de estudo oferece uma visão mais completa deste Papa ainda pouco conhecido

Roma, (Zenit.org) Deborah Castellano Lubov | 641 visitas

O Papa Pio X (1835-1914) foi um verdadeiro reformador da Igreja, mas seus esforços têm sido muitas vezes mal interpretados: esta é a opinião do padre Bernard Ardura, presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas.

Quinta-feira passada houve um dia de estudo organizado pelo Comitê e intitulado “São Pio X: um Papa reformado ante os desafios do novo século. ZENIT esteve no evento e conversou com o Padre Ardura.

***

ZENIT: Poderia explicar-nos o seu papel no Comitê e como surgiu a ideia de um estudo dedicado a Pio X?

Padre Bernard: Eu sou o presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Tomamos o cuidado de tratar todos os aspectos históricos que têm a ver com a história da Igreja. Este ano é o centenário da morte do Papa Pio X; ele morreu durante a noite de 21 de Agosto de 1914, três semanas após o início da Primeira Guerra Mundial e depois de onze anos de papado. Como pontífice, foi um reformador importantíssimo, mas, dentre suas atividades reformadoras, também teve de intervir em assuntos relacionados à doutrina religiosa, porque naquela época a Igreja enfrentava um movimento difícil chamado modernismo. Sua condenação do modernismo ofuscou as partes positivas de seu papado: é lembrado como um Papa de condenação, mas a verdade é que foi um grande reformador, um grande inovador. Embora tendo condenado o modernismo, Pio X foi muito moderno, como evidenciado pelas suas reformas.

ZENIT: Poderia citar-nos algum exemplo de reforma de São Pio X?

Padre Bernard: Ele reformou a Cúria Romana, a mesma Cúria criada em 1538 e que ainda hoje existe. Pio X foi mais consciente do que os seus antecessores de que o pontificado tinha que seguir em frente e não podia andar pra trás. Então, ele teve em seu ministério esta ideia chave de que a missão da Igreja é espiritual e que deve inspirar a vida do mundo, também renovando o mundo. Portanto, todas as atividades de Pio X foram reformadoras, dado que ele se esforçou para promover uma vida cristã baseada na paz.

Uma outra contribuição importante foi aquela relacionada com os sacramentos, especialmente a Comunhão. Avançou na ideia de que os menores, já com sete anos, podiam receber a sua primeira Sagrada Comunhão, embora se, naquele momento das suas vidas, não estivessem plenamente conscientes da doutrina da Igreja. Foi adiante também na ideia de que os adultos deveriam comungar com mais frequência. Anteriormente, a opinião geral era de que um cristão deveria se confessar antes de receber a comunhão, mas Pio X, sempre sugerindo a confissão regularmente, apresentou a ideia de comungar com mais frequência, até mesmo diariamente.

Até as suas reformas litúrgicas, como as relativas à música sacra, foram importantes. E pela primeira vez, pediu que fosse promulgado um claro código de Direito Canônico. Assim se fez e este código teve um efeito duradouro após a sua morte.

Portanto, hoje nós temos a oportunidade de estudar estas reformas e estes progressos, que foram importantes não só para renovar a Igreja, mas também pela capacidade da Igreja de inspirar a vida cristã.

ZENIT: O senhor observa semelhanças entre Pio X e o Papa Francisco?

Padre Bernard: Definitivamente, existem semelhanças. Mas não podemos esquecer que há todo um século entre os dois. Portanto, os contextos são muito diferentes. No entanto, é verdade que tanto o Papa Pio X como o Papa Francisco prestam uma especial atenção à qualidade de vida dos cristãos - tanto leigos, quanto sacerdotes e bispos - porque essa qualidade de vida é necessária, a fim de dar testemunho do Evangelho. Por esta razão, estes dois papas compartilham a ideia de que, se algo pode ser reformado, então deve ser reformado.

ZENIT: Por que você acha que Pio X tenha sido mal interpretado?

Padre Bernard: Ele foi mal interpretado, assim como quase todos os seus trabalhos e as suas reformas não receberam o devido crédito por causa da questão do modernismo. Assim, com a sua condenação do modernismo, ele foi considerado por muitos como o Papa que não entendia nada, mas isso não era verdade.

ZENIT: Para aqueles que não estão familiarizados com este conceito, poderia explicar-nos o que é o modernismo?

Padre Bernard: É um erro filosófico que relativiza um pouco de tudo e, do ponto de vista doutrinal, torna-se uma questão delicada. Por exemplo, ideias diferentes foram expressas por meio do contexto cultural daquele tempo. Mas hoje, não podemos relativizar a doutrina com essas ideias diferentes.

A Igreja em que acreditamos é inspirada pelo Espírito Santo, em um contexto que não nos é dado por uma causa acidental, mas, em um contexto que contém a essência dos ensinamentos que nos dá o Espírito Santo. Portanto, não temos que relativizar estas realidades que são fundamentais, caso contrário, corremos o risco de pôr em dúvida tudo aquilo em que acreditamos.

ZENIT: Que tipo de reforma, que Pio X tenha apoiado, você acha que tenha sido a mais importante e a mais necessária para a Igreja de hoje?

Padre Bernard: A reforma da conversão do coração, uma reforma interior. Devemos lembrar o que Jesus disse: se o sal perde o seu sabor, então torna-se inútil. Como uma luz, somos testemunhas do Evangelho e, portanto, como evidenciado pelos esforços e mensagens de Pio X, temos constantemente a necessidade de reforma. (Trad.TS)