Pira olímpica ensina

Dom Walmor Oliveira de Azevedo fala sobre as Olimpíadas

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BELO HORIZONTE, sexta-feira, 3 de agosto de 2012 (ZENIT.org) - A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, fruto da imaginação do cineasta Danny Boyle, é uma produção gerada pela força da paixão. O cineasta ensina que sem paixão os projetos são pálidos, a força é reduzida e o pensamento é estreito, condicionando a inteligência a satisfazer-se com o que é mais comum.

O espetáculo planejado por Boyle, no cenário do Estádio Olímpico, foi uma recriação da história, incluindo homenagens a personagens importantes como Tim Berners-Lee - criador do “www” (World Wide Web), que possibilitou a comunicação em tempo real com a internet e mudou o mundo. Momentos de alta significação, passando pela literatura, música, cinema, incluindo de modo magistral a encenação da revolução industrial, a centralidade do direito das mulheres e dos trabalhadores. Não menos significativa a referência ao Sistema de Saúde como comprovação do compromisso político e organizacional com a dignidade cidadã de todos os membros daquela sociedade.

Tudo foi retratado de maneira artística, com incomensurável energia. Inesquecível a encenação da metalurgia com os seus operários e um círculo imitando ferro derretido, formado no centro do estádio. Esse círculo foi suspenso para juntar-se a grandes aros que deram forma ao símbolo olímpico.  O espetáculo, ainda mais iluminado com fogos de artifício, levou ao delírio o público presente, que aplaudiu a cena “de pé”. A música britânica foi retratada com uma sequência de sucessos dos anos 60 até a atualidade, relembrando bandas inesquecíveis e figuras emblemáticas.

A recriação da história mostra como é importante ter a consciência sobre a própria caminhada. É um exercício de retomada e valorização das próprias raízes capaz de gerar respostas contemporâneas no atendimento de necessidades e na abertura de novos horizontes. Essa genialidade da apresentação configurou, para além simplesmente do espetáculo visual, referência maior ao sentido de pátria, amor e cidadania, o cenário para a Parada dos Atletas com as seleções das 204 nações participantes dos jogos. O ápice foi o momento dedicado à pira olímpica, constituindo-se, pela força das imagens e pelo conceitual que o definiu, em lições da mais alta importância.

Enquanto a tocha vinha pelo Rio Tâmisa, para o mais esperado momento da cerimônia, todos perguntavam quem seria o escolhido que iria acender a pira olímpica no estádio. A pergunta, naturalmente, remetia-se ao modo tradicional de acendê-la. A inovação de Boyle se torna uma lição que aprendida conserta muita coisa, supera descompassos, lega a culturas e sociedades dinâmicas que podem ser o remédio para tudo o que desfigura funcionamentos, multiplica burocracias que atrasam metas, produz distanciamentos do sentido mais nobre da dignidade de cada pessoa. Não foi um famoso que acendeu a pira. Em vez disso, um grupo de atletas jovens, indicados por seniores, acendeu as 204 tochas que formaram a pira olímpica dando início oficial aos jogos. Um engenho que remete a um aprendizado fundamental para a vida.

Esse momento foi precedido pela dignidade de um medalhista que entrou no estádio com a tocha, indo ao encontro dos jovens atletas que, ao darem a volta olímpica, revezando entre si a chama, numa leveza admirável, explicitam em gestos, harmonia e cadência, a lição da reciprocidade. Essa é a maior força. Na verdade, é o remédio que cura o egoísmo, o apego que não permite o crescimento dos outros, o gosto patológico que atrasa avanços e dissemina deslealdades. Vale rever essas imagens que ensinam a reciprocidade como meio primeiro de sustentabilidade da espécie humana.

A cena que mostra a pira olímpica sendo acesa ensina que a reciprocidade é a competência necessária aos seres humanos para reciclar a sua própria energia vital.  É indicativo o olhar alegre dos atletas adultos dirigido aos jovens, esperança de um futuro marcado por novas conquistas e por inovações sustentadoras do progresso indispensável. Uma lição iluminada pela consciência da própria história para acionar inteligências e corações na direção corajosa de buscar o novo, eleger organização e funcionamentos que priorizem o apreço pela dignidade humana. A reciprocidade gera amor e comunhão necessários para tecer a paz, legar serenidade e alimentar a convicção da importância da solidariedade. É o que ensina o engenho inteligente e espetacular da pira olímpica.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte