«Pontos Coração»: Uma ajuda «materna» às crianças abandonadas (II)

Fala seu fundador, padre Thierry de Roucy

| 1631 visitas

ROMA, terça-feira, 11 de maio de 2004 (ZENIT.org).- Entre as instituições que acolheram o convite de João Paulo II de sair em ajuda da infância maltratada encontra-se a obra católica «Pontos Coração», surgida em 1990.



Publicamos a segunda parte da entrevista concedida a Zenit pelo fundador desta associação privada de fiéis presente na África, Ásia, América e Europa, o padre Thierry de Roucy.

--Os jovens que participam dos «Pontos Coração» entregam a esta missão um ou dois anos de sua vida em algum bairro marginalizado do mundo. Quando terminam esta experiência, como continuam sem compromisso?

--Pe. T. de Roucy: Ao início, minha idéia era unicamente a de permitir que os jovens fizessem uma experiência de caridade limitada no tempo, como sucede com o serviço militar. Mas depois de três anos de existência de «Pontos Coração», um jovem que regressava da Colômbia veio ver-me e me disse: «Padre Thierry, quero viver esta experiência toda a minha vida». Então lhe respondi: «Mas isso não está previsto. Há muitas congregações religiosas ao serviço dos que sofrem nas quais você poderia consagrar-se de uma maneira definitiva. Tente conhecê-las…». Mas ele insistiu: «Eu quero viver no espírito de “Pontos Coração”. O que me atrai é esse carisma. Quero viver em uma disponibilidade total ao serviço de nossos próximos; quero viver a compaixão no seio de uma comunidade mista que se pareça a uma família… Creio que como religioso não é o mesmo». Depois me disse: «Padre, não preciso que o senhor me responda imediatamente. Reflita ante Deus e quando tiver uma resposta madura, diga-me». Então, refleti e propus-lhes iniciar os estudos para ser sacerdote, mais tarde veríamos. É o que fiz. Depois veio outro jovem com o mesmo pedido, e logo outro. Agora há cerca de sessenta jovens que decidiram consagrar sua vida em «Pontos Coração», dos quais, quinze de várias nacionalidades se consagraram definitivamente. Deste modo nasceu a «Fraternidade Molokai».

--Trata-se de uma consagração?

--Pe. T. Roulcy: «Pontos Coração» é uma associação privada de fiéis, da mesma forma que muitas das comunidades que hoje existem, e têm vários ramos. Os que se consagram na Fraternidade Molokai fazem promessas como leigos consagrados. Unido a «Pontos Coração», há também um ramo sacerdotal, uma associação pública de clérigos, que busca ser uma sociedade de vida apostólica.

--Então, a Igreja lhes reconheceu?

--Pe. T. de Roucy: A associação «Pontos Coração», enquanto tal, foi reconhecida na Quinta-feira Santa de 2000 por Dom Estanislao Estaban Karlic, arcebispo de Paraná (Argentina). Foi o primeiro arcebispo, junto ao cardeal Moreira Neves, a acolher-nos em sua diocese e não deixou nunca de seguir com interesse e afeto nosso desenvolvimento. Dom Karlic foi, entre outras coisas, presidente da Conferência Episcopal Argentina e um dos redatores do Catecismo da Igreja Católica. Seus conselhos, sua oração, seu amor à Igreja, sua profundidade teológica foram para nós um grande apoio…

--Onde se encontram hoje os «Pontos Coração» no mundo?

--Pe. T. de Roucy: Na América Latina e Ásia é onde há mais «Pontos Coração». Mas estamos também instalados na Europa do Leste, na Síria, no Líbano, em Senegal, na Itália e na França. Em vinte países fundamos, também, uma associação «Pontos Coração» que auxilia a equipe local: ocupa-se do recrutamento e da formação de «amigos das crianças».

Nossa última fundação aconteceu entre outubro-novembro de 2003 em Nova York, no Bronx. Vivemos em uma casa paroquial que a arquidiocese nos pôs à disposição. Para começar esta fundação, tivemos de enfrentar muitas provas. Dava-nos a impressão de que era o pior momento para abrir esta casa: por uma parte, a causa da guerra no Iraque, a França não era bem vista pelos americanos e, por outra, os problemas de pedofilia que afetaram a Igreja local não facilitam nossa missão de assistência à infância. Mas fomos recebidos de uma maneira extraordinária e, se nestes momentos tenho um motivo de consolo nos «Pontos Coração», este se deve ao que sucede em nosso «Ponto Coração» dos Estados Unidos. A Madre Teresa dizia que a cidade de Nova York era a cidade que mais necessidade tinha de compaixão. Estas palavras haviam-me infundido o desejo desde há muito tempo de fundar esta casa. Creio que Madre Teresa tinha razão. É mais difícil aceitar a solidão quando se vive em meio à grande cidade de Nova York que quando se é um pastor nos Andes, pois estamos constantemente em contato com outros seres humanos com os quais não conseguimos estabelecer uma relação. Em nossa paróquia, no Bronx, há um centro para enfermos de Aids. Com eles passamos bastante tempo. Há também uma casa de acolhida para famílias sem teto, com umas duzentas crianças. Ficam nela enquanto não encontram uma casa. Não podemos receber estas crianças em nossa casa, mas lhes recebemos, da mesma forma que as demais pessoas, nas instalações da paróquia. As pessoas vêm para falar, para tomar um café. Acontecem encontros incríveis.

--Se um jovem se interessa por participar dos «Pontos Coração, que tem de fazer?

--Pe. T. de Roucy: Depois de escrever-nos uma carta de petição, propomos-lhe que venha a encontrar-se conosco. Temos escritórios na França, na Itália, na Argentina, na Suíça, no Peru e no Brasil. Tratamos de começar com ele um primeiro trabalho de discernimento, e depois, durante um tempo que pode ir de seis meses a vários anos, segundo os países e as pessoas, pedimos aos jovens que sigam um certo número de fins de semana de formação, assim como um retiro de quinze dias. O que pedimos, sobretudo, a nossos voluntários, é que sejam coerentes consigo mesmos, não que tenham um doutorado em pedagogia ou psicologia. Pedimos-lhes que sejam equilibrados e felizes, que tenham uma esperança forte, e que tenham um grande desejo de rezar, ainda que não sejam pessoas de oração já formadas, assim como um grande desejo de viver em comunidade. Nossas comunidades são internacionais. É necessário que os jovens sejam suficientemente flexíveis para aprender a viver juntos (pois também terão que viver em espaços reduzidos) e que tenham um espírito de compaixão, o desejo de ajudar os demais.

Os que saem em missão vivem com freqüência com uma entrega e uma generosidade que permitem recobrar uma extraordinária confiança nos jovens de hoje. Estão dispostos a passar noites inteiras para cuidar de uma criança ou de um adulto agonizante, a ir aonde for preciso para buscar a ajuda necessária para um necessitado… No Haiti, nossos «amigos das crianças» foram excepcionais na hora de enfrentar a última crise. Há que ser muito sólidos, mas também muito realistas. «Pontos Coração» não tem nada a ver com uma ideologia, é uma escola de realidade.

--É dado acompanhamento aos jovens durante sua missão nos «Pontos Coração»?

--Pe. T. de Roucy: Sim, claro. Dei-me conta de que se puséssemos um responsável em cada «Ponto Coração», os jovens não cresciam da mesma forma. Por este motivo, um dos jovens é o responsável pela comunidade. Isto não significa que não possam recorrer regularmente a alguém em particular. A esta pessoa chamamos o «visitador». Os jovens lhe informam cada semana sobre sua comunidade e recorrem a ele quando há uma necessidade particular. Cada quatro meses, mais ou menos, o visitador passa um período de tempo na comunidade da qual se ocupa durante anos. Faz um balanço com os jovens, da mesma forma que com os responsáveis da Igreja local (com o núncio, o bispo, o pároco) e em certas ocasiões com a administração local. Se no lugar não há uma escritório de «Pontos Coração», o visitador encontra-se também com os possíveis candidatos e organiza sua formação. É um sistema bastante pesado desde muitos pontos de vista, mas me parece bem adequado.

Nos «Pontos Coração» há momentos difíceis. Penso, sobretudo, nos «Pontos Coração» de Europa do Leste, onde nossos vizinhos bebem muito, pois estão desesperados. Em ocasiões são violentos. Há pouco tempo, por exemplo, um jovem chegou ao «Ponto Coração» Catherine-de-Hueck, em Almaty (Cazaquistão), e disse; «Vou cometer suicídio». Antes que os «amigos das crianças» pudessem reagir, já havia cortado suas veias. Tiveram de levar-lhe ao hospital. Dias depois, um homem estuprava uma moça em uma das ruas pela qual passavam os «amigos das crianças». Conseguiram impedir-lhe que chegasse até o final de seu ato. Tudo isto é difícil. Há que saber enfrentar estas situações e falar para que não fiquem no interior da pessoa. Pessoas do lugar que aprendemos a conhecer estão disponíveis e têm a competência para ajudar os jovens.

--Que acontece quando os jovens regressam de sua missão?

--Pe. T. Roucy: A experiência dos «Pontos Coração» pode ser sumamente forte. Por este motivo, cremos que é importante não abandonar os jovens em seu regresso. Na França, propomos-lhes que passem um breve período de tempo em nossa casa central e repassamos com eles sua experiência. Organizamos também um fim de semana «de regresso». Se os jovens querem seguir vivendo ativamente o espírito desta associação, podem comprometer-se na Fraternidade São Maximiliano Kolbe, composta por antigos «amigos das crianças» e por pessoas que vivem esta espiritualidade. Entre os membros desta Fraternidade, há uma autêntica amizade, alimentada por encontros regulares, por um retiro anual, por atividades comuns, por uma semana de férias. Deste modo, se lhes ajuda a viver a compaixão ali onde estão, em seu trabalho, em sua família, etc. Enfim, seguimos estando disponíveis em todo momento para responder a suas necessidades.

Há que constatar que, se a maior parte dos «amigos das crianças» regressam ao trabalho que tinham antes de tê-lo deixado para ir de missão, ou para o que se haviam formado, uma boa porcentagem entram na vida consagrada ou no seminário.

--Como são financiados os «Pontos Coração»?

--Padre T. de Roucy: Antes de sair em missão, pedimos aos «amigos das crianças» que busquem padrinhos espirituais, que se comprometam a rezar um mistério do Rosário todos os dias por eles, e padrinhos financeiros, que doem uma quantia de dinheiro mensal, trimestral ou anual para permitir-lhes viver esta experiência. Em certo sentido, vivem-na com eles. Estes apadrinhamentos são complementados com outros donativos, que são sumamente úteis, em particular quando é necessário comprar casas. Praticamente não recebemos doações de governos ou de grandes instituições. Quase todos procedem de particulares. A Providência nos permitiu que o orçamento global fosse equilibrado. A cada casa se lhe designa um orçamento particular, segundo as necessidades. Em alguns países deixamos uma boa reserva, como na Colômbia, para que os jovens possam sair facilmente em caso de perigo. «Pontos Coração» trata de viver de maneira muito audaz, mas também com muita prudência.

--E amanhã?

--Pe. T. de Roucy: Curiosamente em «Pontos Coração» não fazemos grandes projetos e, quando fazemos, não tardam em modificar-se. Nosso maior desejo consiste em tratar de seguir, dia após dia, o Senhor que nos chama, em caminhar sobre as águas com confiança, em responder aos gritos que escutamos e, que em certas ocasiões não podem esperar, em não desalentar-nos ante as dificuldades que podemos encontrar, em assumir cada vez nossa responsabilidade ante os jovens que se comprometem no serviço à associação e ante o rebanho que Deus nos confia, um rebanho de pessoas feridas, que sofrem, mas também extraordinárias, com freqüência exemplares.

Quando começamos a associação, muitos me diziam que a palavra «compaixão» estava transtornada. Hoje mesmo lia um artigo no qual o jornalista dizia que a compaixão está em moda. Mais que convertida em uma palavra de moda, nós desejamos que a compaixão seja uma atitude vigorosa por todo lugar, pois me dou conta de que por toda parte é necessária: no campo da política, da economia, mas também da cultura, da ciência, e inclusive no mundo das organizações não-governamentais. Em definitivo, com o passar do tempo vejo como se vai ampliando nossa missão e a necessidade que temos de testemunhar o carisma que recebemos e de vivê-lo para além do mundo das favelas...

Mais informações em http://www.puntoscorazon.org.ar