Por que Lourdes continua atraindo multidões?

Uma jornalista e escritora compartilha seus pensamentos sobre Lourdes

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COLUMBUS, OHIO, sexta-feira, 12 de setembro de 2008 (ZENIT.org).- O mundo de hoje poderia aprender muito com a vidente Bernadete Soubirous de Lourdes, afirma a autora de um novo livro sobre as aparições marianas à menina francesa.

Elizabeth Ficocelli, jornalista e autora de «Lourdes: Font of Faith, Hope and Charity» (Lourdes: Fonte de Fé, Esperança e Caridade - Paulist Press), confessa sua esperança de que Bento XVI apresente ao mundo o exemplo da santa quando visite Lourdes, de 13 a 15 de setembro.

Nesta entrevista concedida à Zenit, Ficocelli comenta os motivos pelos quais continua aumentando a popularidade desse lugar de peregrinação, sua própria experiência em Lourdes e o que espera que Bento XVI destaque durante sua visita.

– O que atrai em Lourdes, especialmente para aqueles que a visitam provenientes do exterior?

– Ficocelli: Há muitos fatores que atraem as pessoas a Lourdes, inclusive atravessando oceanos e continentes. Certamente, mantém-se a esperança de milagres físicos, como ocorreu desde os primeiros dias das aparições. Isso se evidencia no número de peregrinos com doenças e deficiências físicas que visitam a capela a cada ano desde todas as partes do mundo – mais de 70 mil – e nos 100 mil voluntários que viajam com eles para assisti-los durante sua peregrinação.

Menos visíveis, mas não por isso menos importantes, são os peregrinos que vão a Lourdes esperando uma cura mental e emocional. Isso pode incluir a cura da depressão, do distúrbio bipolar e dos vícios de todo tipo.

As pessoas também se sentem atraídas por Lourdes por causa de motivos espirituais. Alguns vão para agradecer favores que lhes foram concedidos. Outros vão por respeito a Nossa Senhora e às mensagens de oração e penitência que Ela comunicou na gruta.

Muitos peregrinos de Lourdes – incluindo a mim mesma – viram-se surpreendidos pela conversão espiritual que experimentam no santuário durante momentos comoventes, como a participação das procissões ou a realização de uma confissão profunda e sentida.

– Você teve acesso sem precedentes a alguns dos personagens-chave em Lourdes. Como aconteceu isso e em que ajudou o seu livro?

– Ficocelli: Devo agradecer a Deus por cada aspecto deste livro, desde o convite a escrevê-lo até minha experiência de peregrinação e o acesso sem precedentes. Estive em Lourdes com personagens-chave. Marlene Watkins, a quem antes mencionei, foi a primeira porta importante que Deus me abriu. Esta «veterana» de Lourdes me apresentou ao Pe. Regis-Marie de La Teyssonniere, uma fonte inestimável.

O Pe. Regis-Marie foi padre geral em Lourdes durante 10 anos. É um dos principais especialistas, escritor e conferencista das aparições, ficando atrás apenas do grande teólogo mariano, o Pe. René Laurentin.

Felizmente para mim, o Pe. Regis-Marie falava inglês. Ele se ofereceu amavelmente para revisar meu manuscrito para evitar qualquer inexatidão no relato da história das aparições que pode ter-se arrastado nos numerosos livros sobre Lourdes. O padre também me conseguiu entrevistas com algumas figuras importantes do santuário, inclusive o bispo de Tarbes e Lourdes, Dom Jacques Terrier, o Pe. Patrick-Louis Desprez, capelão geral, o Dr. Patrick Theiller, diretor médico, Gabriel Barbry, antigo presidente da hospitalidade, Philippe Tardy-Joubert, coordenador da Conferência da Hospitalidade Internacional, o Pe. Raymond Zambelli, reitor, Pierre Adias, diretor de comunicação, numerosos capelães, voluntários e outros.

Estas fascinantes entrevistas me permitiram apresentar um ponto de vista único do santuário hoje e sua importância para o futuro. Pude explorar para meus leitores especialmente o complexo processo de autentificação dos milagres de Lourdes; a poderosa conversão espiritual que acontece diariamente nos confessionários, como testemunham os capelães que lá realizam seu apostolado; a rede inigualável de voluntários no santuário e o notável efeito em todos os peregrinos; as lembranças pessoais das testemunhas das visitas históricas do Papa João Paulo II a Lourdes; e como o santuário está qualificado e preparado para ajudar os esforços da Igreja universal na evangelização do mundo.

– Que falsas idéias você encontrou sobre o santuário ao pesquisar para seu livro?

– Ficocelli: Existem aqueles católicos que quiseram catalogar Lourdes como «espiritualidade pré-Vaticano II»; em outras palavras, algo pitoresco e que talvez pareça superstição, mas na realidade não tem relevância para o mundo moderno.

Senti que nada poderia estar mais distante da verdade. Minha experiência na hora de pesquisar e escrever este livro me convenceu de que Lourdes é um importante centro do catolicismo, um lugar onde nossa fé é viva, vibrante e atraente para as pessoas de qualquer idade, estilo de vida e, inclusive, crença religiosa.

Por exemplo, se o seu conceito de Lourdes é o de um lugar para pequenas senhoras idosas que manuseiam rosários, ficará surpreso diante da grande presença de jovens que visitam e trabalham no santuário. Lourdes é um ímã para os jovens do mundo inteiro. Podem se identificar de verdade com Bernadette Soubirous, que tinha 14 anos na época das aparições. Bernadete é um ícone para os jovens católicos, que também podem ser poderosos instrumentos para mudar o mundo quando dizem «sim» a Deus. Os jovens não só são bem-vindos ao santuário, mas também são necessários, porque muitos dos postos de voluntários requerem da força física, do vigor e da exuberância característicos dos jovens.

Em segundo lugar, Lourdes não é um fenômeno meramente católico. É verdade que a grande maioria dos peregrinos é católica. Mas o santuário também atrai protestantes, muçulmanos e budistas – inclusive o próprio Dalai Lama –, que consideram Lourdes como um importante centro espiritual para o mundo de hoje. Inclusive se sabe que ateus vão ao santuário, a maioria por curiosidade, tentando compreender a poderosa atração desse tipo de lugares. Muitas pessoas se converteram por sua experiência positiva em Lourdes.

Finalmente, Lourdes tem uma grande relevância, não só para o hoje, mas também para o futuro da nossa Igreja. Não é, insiste Dom Jacques Terrier, um museu histórico para comemorar um evento do passado, mas sim um santuário vivo que continua levando as pessoas a uma espiritualidade mais profunda. É por isso que trabalhei incessantemente com os líderes das organizações de peregrinação de toda a Europa para discernir as áreas específicas nas quais Lourdes pode oferecer à Igreja universal idéias e experiências. Estas áreas incluem a missão da Igreja com relação aos doentes, às pessoas com deficiência, aos jovens, à paz, a Maria, à promoção da Eucaristia, ao serviço aos demais, aos marginalizados, às nações, e em relação também com a unidade dos cristãos e o diálogo inter-religioso.