Por que Roland Joffé fez um filme sobre Josemaría Escrivá (2)

Entrevista com o diretor de cinema ante a estreia de "There Be Dragons"

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Por Jesús Colina 

ROMA, domingo, 9 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – Poucos esperavam que o diretor revelado para o cinema mundial em 1984 com “Os gritos do silêncio” / “Terra sangrenta” (vencedor de 3 prêmios Oscar em 1985) se lançasse na produção de um filme sobre São Josemaría Escrivá de Balaguer, que estreia neste semestre.

Na segunda parte de sua entrevista a ZENIT – a primeira parte encontra-se neste link de www.zenit.org –, Roland Joffé explica como decidiu produzir There Be Dragons (http://www.therebedragonsfilm.com), filme ambientado na guerra civil espanhola, no qual tem um papel protagonista o fundador do Opus Dei.

ZENIT: O senhor tinha ideias sobre o modo de apresentar a guerra civil espanhola ou sobre alguns personagens, como São Josemaría Escrivá?

Roland Joffé: Eu não sabia muito sobre Josemaría antes de que me pedissem para gravar o filme. Foi assim que aconteceu: um dia, um dos produtores do filme veio à Holanda para me convencer de que o fizesse. Trazia livros e materiais, incluído um DVD sobre Josemaría. Tivemos uma refeição muito agradável e, regressando a casa, a pé, pensava: “Não tenho vontade de fazer este filme. Tenho outro projeto ambientado na Índia e trabalhei muito para alcançá-lo”. Então eu pensava em rejeitá-lo.

Era uma noite de verão, de modo que saí ao jardim, com uma taça de vinho na mão, pus o DVD no leitor e me sentei diante do computador para escrever uma breve carta que dizia: “Querido X, muito obrigado. Aprecio que tenha empreendido toda esta viagem, mas penso que verdadeiramente você deveria buscar em outro lugar”.

Enquanto isso, o DVD continuava funcionando. Um momento da narração chamou minha atenção: Josemaría se dirigia a uma multidão, no Chile, talvez, ou na Argentina, não estou seguro do lugar, e uma jovem levanta a mão e diz: “Tenho uma pergunta, sou judia”. E Josemaría responde: “Sim, diga-me, por favor”.

Ela acrescenta: “Meu mais fervente desejo é me converter ao catolicismo”.

Josemaría: “É?”

Ela continua dizendo: “Mas sou menor de idade e meus pais não me permitem”.

Josemaría responde prontamente: “Seja muito boa com seus pais. Tenha paciência e reze. Não demonstre nenhum gesto de revolta. Está claro? Ame muito os seus pais [...] e jamais uma palavra de crítica a eles. Ame-os com toda alma. E demonstre-o com os fatos. De acordo? Será uma boa filha de Cristo se for uma boa filha de seus pais”.

Ao ver esse momento do vídeo, dizia-me: “Que momento maravilhoso! Que momento inesperado, e sobretudo vindo de uma organização da qual todo o mundo esperaria que dissesse o contrário”. Estava olhando para meu computador e dizia: “Espere um momento”. Desliguei o DVD. Deixei de escrever a carta. Pus o chapéu de diretor de cinema e escrevi uma cena, em que Josemaría aparece com um homem, a ponto de morrer, a quem já conhecia, que lhe diz que é judeu e que seu sonho era se converter.

Escrevi a cena do começo ao fim, sem deixar de pensar: “tenho realmente vontade de ver isso num filme. Mas não verei nunca, se não fizer o filme, verdade? Ou marcarei esta cena em outro filme?”

No lugar da primeira carta, escrevi: “Querido X, estou verdadeiramente interessado neste projeto, com a condição de dispor de toda a liberdade de criação para fazê-lo como quiser, e se você aceitar o fato de que não sou muito brilhante e que farei o melhor possível, mas que tenho de seguir minha própria verdade. Se você estiver de acordo, gostaria verdadeiramente de realizar este projeto”.

Isso é mais ou menos o que aconteceu. Eu não tinha nenhuma ideia preconcebida sobre Josemaría. Tinha escutado algo sobre ele, mas sobretudo foi essa passagem do DVD que suscitou meu interesse em realizar o filme. 

A guerra civil espanhola era também complicada de enfrentar. Teria sido fácil tomar partido, mas deste modo teria traído o eixo central da atitude com que queria contar a história. A história, como bem se sabe, é partidista, escrita pelos vencedores e reescrita pelos vencidos. Muitos acreditarão simplesmente no rumor ou na lenda que lhes parecerá mais agradável. E estou certo de que teremos de enfrentar certas opiniões sobre o que é ou era o Opus Dei, sobre quem era Josemaría e sobre o que foi realmente a guerra civil espanhola.

Quis mostrar o que aconteceu na Espanha durante a guerra civil sem espírito partidista. De fato, a Espanha viveu, em um período de tempo muito condensado, o que a Grã-Bretanha, por exemplo, experimentou e absorveu durante uma centena de anos: revolução industrial, ideologias de luta de classes, sem contar que a Espanha tinha perdido seu império e a estabilidade econômica. Para a sociedade espanhola, era muito fácil fraturar-se e, segundo a mentalidade da época, era muito fácil abraçar opiniões totalmente opostas e radicais sobre a justiça social, o papel da Igreja, etc. Ao final, segundo é próprio da natureza destas tensões sociais, as posições mais extremas começaram a colocar à margem as demais. Com a debilitação do centro, os dois pólos opostos começaram a se tornar mais fortes.

Na guerra civil espanhola, os dois lados tinham ideais e seu próprio senso da virtude. Como os movimentos políticos do resto da Europa, as pessoas dos dois lados da demarcação política começaram a diabolizar o outro campo. Mas as divisões, que na Europa se converteram em divisões nacionais, na Espanha foram fratricidas e deixaram cicatrizes psicológicas profundas e difíceis de cicatrizar. O que aconteceu na Espanha foi uma ferida que realmente rompeu famílias do modo mais doloroso e atroz. Um irmão tomou uma opção diferente do outro, mas isso significa que já não eram irmãos? Se isso significa que já não eram irmãos, se queremos matar nossos irmãos por causa daquilo em que acreditamos, então não teríamos de nos perguntar pelo valor de nossas opções?

ZENIT: Fazer este filme influenciou em certo sentido sua vida pessoal?

Roland Joffé: Deixe-me que explique. Não sou muito religioso, mas me pediram que escrevesse sobre um homem que era. Tive de tomar distância e me dizer: “quando escrevo sobre Josemaría, tenho de aceitar tal qual – de maneira total, honesta e sincera – tudo o que Josemaría me diz que teve valor para ele, aquilo a que consagrou sua vida, sua experiência religiosa. Tenho de me informar o máximo possível sobre sua experiência religiosa, sem preconceitos, honestamente, e me deixar interpelar.

Li muito sobre a experiência religiosa. Experimentei emoção e alegria ao descobrir quantos homens de ciência (em particular, físicos) viveram uma experiência profunda de Deus, e me comovi ao ver que a separação entre a ciência e a religião, que se converteu no pensamento dominante de nossa época, na realidade era falsa. Acabei por compreender que a grande descoberta da física moderna consiste em que nossa percepção da realidade se baseia em modelos fabricados pelo nosso cérebro e que, portanto, existem vários modelos de realidade. Muitos são insuficientes para explicar tudo, ainda que apropriados para explicar algumas coisas; propõem-nos uma nova maneira de compreender o que deveria ser a realidade ou as realidades e esta compreensão não exclui a ideia de Deus ou de uma dimensão espiritual do imenso universo em que moramos, mas nos mostra que a maneira como a ciência nos levou a redefinir e reinterpretar a realidade nos oferece também uma oportunidade para reinterpretar e redefinir o espiritual.

Não sei muito bem em que medida, nestes anos, afetou-me esta experiência. Creio que algo profundo precisa de tempo para revelar o que realmente é. Experimentei uma sensação muito particular ao gravar o filme: mais que uma experiência solitária, como tinha acreditado, trata-se de uma experiência muito interessante, em nada solitária. Poder pensar, de repente, “deixe de lado suas respostas fáceis e vive simplesmente com a pergunta”, foi para mim maravilhosamente convincente, e me permitiu me sentir muito, muito próximo deste processo de vida, de uma maneira que não acreditava ser possível. E agora não sei muito bem aonde isso vai me levar.