Pregação dos exercícios espirituais inacianos (2)

Como melhorar a pregação sagrada: coluna do Pe. Antonio Rivero, L.C., Doutor e professor de Teologia e Oratória no seminário Mater Ecclesiae de São Paulo

São Paulo, (Zenit.org) Pe. Antonio Rivero, L.C. | 1180 visitas

Continuemos explicando a pregação dos Exercícios Espirituais inacianos. No artigo anterior vimos o que são e a sua finalidade, o modo de fazê-los e a duração, e como vivê-los.

Hoje vamos dar mais alguns passos. Veremos quais são os temas que o pregador sagrado tem que tratar nos Exercícios Espirituais, se queremos chamá-los de Exercícios Inacianos.

Primeiro, uma anotação preliminar. Para obter o resultado e a finalidade desejadas, Santo Inácio usa só umas poucas palavras, mas estas são selecionadas para produzir uma profunda impressão na mente e, se são seriamente meditadas pelo exercitante e fomentadas na sua alma, logo chegarão a ser poderosos pensamentos e se converterão numa fonte de grande iluminação espiritual e consequentemente de sinceras e enérgicas resoluções da vontade. Porém, ainda que o método de Santo Inácio deixa os exercitantes pensar por si mesmos, o autor não pretende que eles devam fazê-lo sem guia. Ele coloca o “Livro dos Exercícios” nas mãos de um diretor – nosso pregador -, e coloca nas suas mãos o exercitante, com o qual deveria reunir-se ao final do dia para repassar juntos os afetos, as consolações e desolações do coração do exercitante. Ele lhe ensina como guiar uma alma na eleição do estado de vida e na tarefa de auto-reforma. As anotações, que são a chave para os "Exercícios", destinam-se mais especialmente para o diretor. A maioria delas - a segunda, sexta, sétima, oitava, nona, décima, décima segunda, décima terceira, décima quarta, décima quinta, décima sétima, décima oitava, um total de doze de vinte – estão escritas para “aquele que dá os Exercícios”. A décima quinta o aconselha a proceder com grande discrição, para não interferir entre o Criador e a criatura, e a abster-se, especialmente no caso de um retiro de eleição, de qualquer sugestão relativa à determinação que deve tomar, ainda quando fosse, falando estritamente, para o melhor. Este conselho mostra o quão falsamente algumas críticas dos Exercícios os representam como levando indevida influência para conduzir a vontade, com o objetivo de escravizá-la ou paralizá-la. Nada disso. Pelo contrário, o diretor, respeita a liberdade da alma, uma liberdade já regularizada pela autoridade da Igreja, da qual ele é o representante.

Segundo, vejamos os temas que devem ser meditados durante as semanas ou dias dos Exercícios.

TEMAS DA PRIMEIRA SEMANA

Na primeira semana – ou no primeiro dia, se os Exercícios são de três dias; ou nos três primeiros dias se são de oito dias – o pregador oferece meditações sobre o Princípio e Fundamento da nossa vida, ou falado de outra forma, o Plano de Deus para o homem:  de onde viemos, para onde vamos e para que estamos na terra, e qual foi a resposta do homem a esse plano de Deus. Sempre com textos bíblicos, logicamente. Nessa meditação mental procura-se pensar com a mente nessa verdade; essa verdade é baixada ao coração para ser sentida e amada, e depois convida-se a vontade para que aceite essa verdade na liberdade e amor com todas as suas conseguências. As três faculdades do homem colocadas em ação durante a meditação: mente, coração e vontade.

Essa verdade do Princípio e Fundamento se resume assim: Deus nos criou, por isso viemos Dele, e nos criou para Ele, por isso vamos a Ele, e estamos na terra para conhecê-lo, amá-lo e serví-lo com amor e livremente, para fazer a sua Santíssima Vontade onde Ele quer – como leigo, como consagrado, como sacerdote -, ser felizes e alcançar a salvação eterna. Este é o plano de Deus para todo homem.

Nessa semana também se medita na resposta do homem, o pecado, ou seja, a desobediência a Deus para seguir o seu próprio plano egoísta. O pregador meditará com o exercitante na realidade do pecado e nas suas conseguências, e no que a tradição da Igreja chamou as verdades eternas ou os novíssimos: morte, juízo, purgatório, inferno e céu. Termina essa semana contemplando a misericórdia de Deus em Cristo Jesus que nos espera e que nos perdoa. Por isso, ao final desta primeira fase ou semana, é muito aconselhável que o dirigido faça uma boa confissão geral, de toda a vida (se é a primeira vez que faz Exercícios), ou do ano. Seria sintoma de que os Exercícios Espirituais estão tendo um efeito positivo e sanante na alma do exercitante.

Continuaremos...

(Tradução Thácio Siqueira)