Pregador do Papa: Cristão deve ser «outro Cristo» e «outro Paráclito»

Comentário do Pe. Cantalamessa à liturgia do próximo domingo

| 866 visitas

ROMA, sexta-feira, 25 de abril de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – à Liturgia da Palavra do próximo domingo, VI de Páscoa.

VI Domingo de Páscoa

Atos 8, 5-8.14-17; 1 Pedro 3,15-18; João 14, 15-21

Ser paráclitos

No Evangelho Jesus fala aos discípulos sobre o Espírito usando o termo «Paráclito», que significa consolador, ou defensor, ou as duas coisas. No Antigo Testamento, Deus é o grande consolador de seu povo. Este «Deus da consolação» (Rm 15, 4) se «encarnou» em Jesus Cristo, que se define de fato como o primeiro consolador ou Paráclito (Jo 14, 15). O Espírito Santo, sendo aquele que continua a obra de Cristo e que leva a cumprimento as obras comuns da Trindade, não podia deixar de definir-se, também Ele, Consolador, «o Consolador que estará convosco para sempre», como Jesus o define. A Igreja inteira, depois da Páscoa, teve uma experiência viva e forte do Espírito como consolador, defensor, aliado, nas dificuldades externas e internas, nas perseguições, na vida de cada dia. Nos Atos dos Apóstolos lemos: «A Igreja se edificava e progredia no temor do Senhor e estava cheia da consolação (paráclesis!) do Espírito Santo» (9, 31).

Devemos agora tirar disso uma conseqüência prática para a vida. Temos de nos converter em paráclitos! Ainda que é certo que o cristão deve ser «outro Cristo», é igualmente certo que deve ser «outro Paráclito». O Espírito Santo não só nos consola, mas nos faz capazes de consolar os demais. A consolação verdadeira vem de Deus, que é o «Pai de toda consolação». Vem sobre quem está na aflição; mas não se detém aí; seu objetivo último se alcança quando quem experimentou a consolação se serve dela para consolar por sua vez o próximo, com a mesma consolação com a qual ele foi consolado por Deus. Não se conforma em repetir estéreis palavras de circunstância que deixam as coisas iguais («Ânimo, não te desalentes; verás que tudo sai bem!»), mas transmite o autêntico «consolo que dão as Escrituras», capaz de «manter viva nossa esperança» (Rm 15, 4). Assim se explicam os milagres que uma simples palavra ou um gesto, em clima de oração, são capazes de fazer à cabeceira de um enfermo. É Deus quem está consolando essa pessoa através de você!

Em certo sentido, o Espírito Santo precisa de nós para ser Paráclito. Ele quer consolar, defender, exortar; mas não tem boca, mãos, olhos para «dar corpo» a seu consolo. Ou melhor, tem nossas mãos, nossosolhos, nossa boca. A frase do Apóstolo aos cristãos de Tessalônica: «Confortai-vos mutuamente» (1Ts 5, 11), literalmente se deveria traduzir: «sede paráclitos uns dos outros». Se a consolação que recebemos do Espírito não passa de nós aos demais, se queremos retê-la de forma egoísta para nós, logo se corrompe. Daí o porquê de uma bela oração atribuída a São Francisco de Assis, que diz: «Que não busque tanto ser consolado como consolar, ser compreendido como compreender, ser amado como amar...».

À luz do que disse, não é difícil descobrir que existem hoje, ao nosso redor, paráclitos. São aqueles que se inclinam sobre os enfermos terminais, sobre os enfermos de aids, quem se preocupa em aliviar a solidão dos anciãos, os voluntários que dedicam seu tempo às visitas nos hospitais. Os que se dedicam às crianças vítimas de abuso de todo tipo, dentro e fora de casa. Terminamos esta reflexão como os primeiros versos da Seqüência de Pentecostes, na qual o Espírito Santo é invocado como o «consolador supremo»:

«Vinde, ó Pai dos pobres, vinde, autor de todos os dons, vinde, Luz dos corações. Consolador supremo, doce hóspede da alma, suave refrigério. Repouso no trabalho, brandura no ardor, consolo no pranto».