Pregador do Papa: Eucaristia, memória e presença de Cristo ao mesmo tempo

Comentário do Pe. Cantalamessa na solenidade de Corpus Christi

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ROMA, sexta-feira, 8 de junho de 2007 (ZENIT.org) .- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap. -- pregador da Casa Pontifícia – sobre a liturgia da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).




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Fazei isto em memória de mim

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Gênesis 14, 18-20; Coríntios 11, 23-26; Lucas 9, 11b-17

Na segunda leitura desta solenidade, São Paulo nos apresenta o relato mais antigo da instituição da Eucaristia, escrito não mais de vinte anos depois do acontecimento. Procuremos descobrir algo novo do mistério eucarístico, servindo-nos do conceito de memória: «Fazei isto em memória de mim».

A memória é uma das faculdades mais misteriosas e grandiosas do espírito humano. Todas as coisas vistas, ouvidas, pensadas e realizadas desde a primeira infância se conservam neste seio imenso, dispostas a despertar-se e saltar à luz a uma reclamação exterior ou de nossa própria vontade. Sem memória deixaríamos de ser nós mesmos, perderíamos nossa identidade. Quem se vê atingido pela amnésia total, vaga perdido pelas ruas, sem saber como se chama nem onde vive.

A recordação, ao unir-se à mente, tem o poder de catalizar todo nosso mundo interior e encaminha-lo para seu objeto, especialmente se não se trata de uma coisa ou um fato, mas de uma pessoa viva. Quando uma mãe se lembra do filho que deu a luz poucos dias atrás e deixou em casa, tudo em seu interior voa para sua criatura, um ímpeto de ternura sai das entranhas maternas e vela talvez os olhos de pranto.

Não só o indivíduo, mas também o grupo humano -- família, clã, tribo, nação -- tem sua memória. A riqueza de um povo não se mede tanto pelas reservas de outro que conserva em seu recinto, mas pela memória que conserva em sua consciência coletiva. Precisamente compartilhar as mesmas lembranças é o que fundamenta a unidade do grupo. Para conservar vivas tais recordações, se vinculam a um lugar ou a uma festa. Os americanos têm o Memorial Day (o Dia da Memória), jornada em que recordam os soldados mortos de todas as guerras; os indianos, o Ghandi memorial, um parque verde em Nova Deli que deve recordar à nação o que ele foi e fez por ela. Também nós, os italianos, temos nossos memoriais: as festas civis recordam os eventos mais importantes de nossa história recente e a nossos homens mais ilustres se dedicaram ruas, praças, aeroportos...

Este riquíssimo fundo humano acerca da memória nos deveria ajudar a entender melhor o que é a Eucaristia para o povo cristão. É um memorial porque recorda o acontecimento ao qual toda a humanidade deve sua existência, como humanidade redimida: a morte do Senhor. Mas a Eucaristia tem algo que a distingue de diferencia outro memorial. É memória e presença por sua vez, e presença real, não só intencional; torna a pessoa realmente presente, ainda que esteja ocultada sob os sinais do pão e do vinho. O Memorial Day não pode fazer que os mortos voltem à vida, o Ghandi Memorial não pode conseguir que Ghandi viva. Isso, no entanto, é realizado, segundo a fé dos cristãos, no memorial eucarístico com relação a Cristo.

Contudo, além de todas as coisas belas que mencionamos da memória, devemos aludir também a um perigo inato nela. A memória pode-se transformar facilmente em estéril e paralisadora nostalgia. Isso acontece quando a pessoa se torna prisioneira das próprias lembranças. Ao contrário: nos projeta para diante; depois da consagração, o povo aclama: «Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!». Uma antífona atribuída a Santo Tomás de Aquino (O sacrum convivium) define a Eucaristia como o sagrado convite no qual «se recebe Cristo, celebra-se a memória de sua paixão, a alma se enche de graça e se nos dá a prenda da glória futura».

[Tradução realizada por Zenit]