Preparação Imediata ao matrimônio: "Conveniente preparação litúrgica que preveja mesmo a participação ativa dos nubentes"

"Cuidar-se-á de que os particulares da celebração matrimonial sejam caracterizados por um estilo de sobriedade, de simplicidade, de autenticidade. O tom de festa não deverá, de fato, ser prejudicado por excesso de pompa." (PSM71)

São Paulo, (Zenit.org) André Parreira | 899 visitas

Em nosso último artigo (Edição do Zenit de 31 de Janeiro de 2014), apresentamos o terceiro momento de formação dos noivos, a preparação imediata, que além de ser uma revisão das outras, deve se focar nos aspectos espiritual da formação e litúrgico da celebração.

E isso porque, embora seja uma festa, a celebração do Matrimônio é um ato litúrgico, um ato de fé orientado e certificado pela Igreja. Por isso, a celebração não pode ser ditada pelas conveniências dos cerimoniais que se preocupam, na maior parte das vezes, com a etiqueta social e com os melhores ângulos para fotos e filmagens.

É uma festa de fé, não de exibição ou de realização de sonhos cultivados sobre bases pagãs. E muitos sonhos, além de nada litúrgicos, são ainda caros e constituem barreiras que dificultam a realização do casamento.

Não é raro escutar casais, com anos de namoro, dizerem que ainda não podem se casar por não poder comprar o vestido de noiva, não poder contratar a filmagem tipo "Hollywood", não poder contratar uma festa com buffet e, até mesmo, não poder pagar a taxa cobrada ou não encontrar data disponível na igreja mais bonita da cidade.

Vários elementos que não fazem parte e são totalmente dispensáveis à liturgia do casamento acabaram se incorporaram ao "senso comum", sufocando a essência da celebração do Matrimônio. Não é por menos que o documento Preparação para o Sacramento do Matrimônio, base de nossa coluna, já orienta:Cuidar-se-á de que os particulares da celebração matrimonial sejam caracterizados por um estilo de sobriedade, de simplicidade, de autenticidade. O tom de festa não deverá, de fato, ser prejudicado por excesso de pompa. (PSM71)

Estilo de sobriedade? De simplicidade? Parece que o Vaticano está falando às paredes, pois não é isso que temos assistido em nossas igrejas.

Pelo contrário, é comum que os casais e suas famílias, até as mais piedosas,  se empenhem por dias ou meses nos preparativos da celebração. Mas não me refiro à escolha das leituras, músicas, penitência etc. Me refiro à escolha das roupas, ornamentação da igreja, ensaio da entrada (ou desfile!) das damas, pajens e padrinhos, cerimonial, fotografia, filmagem, bombons e.... parece não ter fim.

Com a proximidade do casamento, a lista de tarefas parece não diminuir e ainda há o famoso "making off" das fotos, a "prova" da maquiagem e cabelo e, no dia do casamento, o dia da noiva no salão!

No meio disso tudo, onde encontrar um espaço para a preparação espiritual?  Além de sufocar a celebração, a diversidade de "invenções" da indústria do casamento sufoca também os dias que o antecedem.

A celebração do sacramento precisa permitir que os noivos e todos que dela tomam parte, participem ativamente dela. A preparação imediata precisa trabalhar o rito matrimonial com os noivos, explicando cada uma de suas partes, uma vez que "os nubentes devem ser ajudados a tomar parte consciente e ativa na celebração nupcial, entendendo também o significado dos gestos e dos textos litúrgicos."(PSM52)

Uma vez esclarecidos da tamanha importância, estarão aptos a prepararem a celebração com mais consciência e evitarem a sua profanação. Por exemplo, na hora de escolherem leitores, não vão apenas homenagear um amigo ou parente, mas pesarão a recomendação da Igreja de que "a proclamação da Palavra de Deus seja feita por leitores idôneos e preparados." (PSM68)

Os noivos também precisam ser orientados sobre a escolha da igreja, para que conheçam a recomendação de que o Matrimônio seja celebrado na comunidade paroquial de um deles (o que também é regido pelo cânon 1115 do Código de Direito Canônico). Cientes que "é bom que toda a comunidade paroquial tome parte nesta celebração, à volta das famílias e dos amigos dos nubentes" (PSM54), não vão escolher uma igreja apenas pela sua beleza ou peso social. 

Várias outras recomendações devem ser dadas, como as relacionadas com as músicas e as testemunhas (conhecidas como padrinhos), mas não se pode esquecer da orientação sobre a confissão.

Será que nossos cursos/encontros de noivos se lembram de recomendar aos noivos que se confessem?  Principalmente em uma sociedade que pensa que alguns pecados foram abolidos. A Igreja afirma que "que os futuros esposos se disponham para a celebração do Matrimônio para que ela seja válida, digna e frutuosa, recebendo o sacramento da Penitência" (PSM53).

Notamos que a tarefa dos agentes que trabalham na preparação dos noivos é desafiadora também na etapa da preparação imediata. Nesta, com "encontros especiais, de modo intensivo" (PSM50), como nos pede a Igreja, quatro finalidades devem ser objetivadas:

"a) sintetizar o percurso do itinerário precedente, especialmente nos conteúdos doutrinais, morais e espirituais, preenchendo assim as eventuais carências da formação básica;

b) realizar experiências de oração (retiros espirituais, exercícios para nubentes) em que o encontro com o Senhor possa fazer descobrir a profundidade e a beleza da vida sobrenatural;

c) realizar uma conveniente preparação litúrgica que preveja mesmo a participação ativa dos nubentes, com cuidado especial no sacramento da Reconciliação;

d) valorizar, por um conhecimento mais aprofundado de cada um, os colóquios canonicamente previstos com o pároco." (PSM50).

De modo resumido, para preparem bem a celebração, deve conhecer a sua real dimensão.

Devemos, também nós, examinar nossa consciência e avaliar em que medida contribuímos com a paganização de uma das mais profundas celebrações da Igreja. Em que ponto achamos que tudo é normal?

Por experiência própria, comento da riqueza que foi, para minha esposa e eu, buscar uma celebração mais simples. Tivemos tempo de fazer adoração ao Santíssimo Sacramento e frequentar missa nos dias que o antecederam (como já fazíamos na época de namoro e noivado). Fizemos ainda uma novena a São José, buscamos a confissão e nos focamos no mistério do sacramento do Matrimônio.  A celebração foi bem preparada com um folheto para que todos a acompanhassem e as músicas foram religiosas relacionadas com cada momento da liturgia. Fotografia a cargo de um tio e uma filmagem sem grandes produções, para registrar o momento e gravar a homilia para que pudéssemos escutar novamente no futuro.

Precisamos todos acreditar, viver e propagar que a celebração do Matrimônio não é bem o que anda acontecendo por aí. Isso faz parte de nossa missão de católicos e, mais ainda, se estamos na pastoral com os noivos.

Paz e bem! 

André Parreira (alparreira@gmail.com), da diocese de São João del-Rei-MG, é autor de livros sobre a preparação para o Matrimônio e responsável no Brasil pelo DVD "Sim, Aceito!", lançado em parceria com a Pastoral Familiar da CNBB. Empresário, casado e pai de 6 filhos, colabora na formação de jovens e casais e é colunista colaborador de ZENIT.