Preparação próxima - Formar solidamente a consciência moral dos noivos para a livre e definitiva escolha do Matrimônio

A preparação dos jovens para o Matrimônio e para a vida familiar é necessária hoje mais do que nunca. (FC 66)

São Paulo, (Zenit.org) André Parreira | 1001 visitas

Em nossa coluna quinzenal vamos percorrendo o caminho da preparação para o Matrimônio e temos comentado o fundamental papel da família que, ao lado da paróquia, deve promover o ambiente que forme e estimule os adolescentes para a vida matrimonial, o que a Igreja chama de preparação remota.

Já citamos o grande investimento no planejamento estratégico para o sucesso da vida financeira e profissional e a ausência de planejamento para o êxito da vida familiar. Além de não receber a mesma atenção que os interesses perenes, o Matrimônio é tratado, até por alguns católicos praticantes, com desdém em comentários, piadas e ações que o reduzem a um martírio que deva ser adiado ao máximo. Talvez você também já tenha dito a um jovem: Vai primeiro curtir a vida e depois pensa em casamento! Comportamento assim deve ser preocupação para nós, pois também preocupa a Igreja que ao dizer que devido ao "fato duma "adolescência prolongada" e, portanto, duma mais longa permanência na família — fenômeno novo e preocupante —, o compromisso matrimonial dos jovens de hoje, é, não poucas vezes, excessivamente adiado." (PSM33)

Além disso, o documento Preparação para o Sacramento do Matrimônio - PSM cita também "as leis permissivas, com toda a força para forjar uma mentalidade que fere a família, em matéria de divórcio, aborto, liberdade sexual". É por isso que o cenário atual exige grande esforço em formação, ou melhor, evangelização para a real dimensão do Matrimônio. Por aí vemos a clara necessidade de apresentar aos noivos a contraposição entre as tendências da sociedade e o projeto de Deus para a família. Por isso, o Papa Francisco recomenda aos jovens que "tenham coragem de nadar contra a correnteza. Contra essa cultura do provisório"Para onde a correnteza está puxando o Matrimônio?

Com tamanho desafio, a Igreja se dispõe a oferecer outro fundamental espaço de formação para aqueles que caminham para o Matrimônio. Além da indispensável preparação remota fundamentada no dia a dia da família e envolvimento paroquial, um momento pedagogicamente estruturado deve fazer parte do itinerário dos noivos: a preparação próxima através dos encontros ou cursos de noivos organizados nas dioceses.

Contudo, o que temos encontrado em diversas paróquias, talvez por falta de uma ampla divulgação de sua existência e obrigatoriedade, são pessoas surpresas, às vésperas do casamento, com a exigência de frequentarem um "curso" de noivos.  A reação, às vezes, é imediata: “Pra quê isso?” Também não é raro encontrar sacerdotes que não compreendem a importância do momento e dizem: "não vamos complicar a vida do casal. Os noivos de hoje já sabem de tudo, os meios de comunicação apresentam tudo". Mas de que tudo estamos falando? A preparação próxima não é a repetição dos conceitos que circulam na mídia. É justamente o contrário, é momento de mostrar que existe uma maneira diferente de viver o Matrimônio como um sacramento, como caminho de santidade.

É uma maravilhosa oportunidade para os noivos, onde a eles deve ser dada "a possibilidade de verificar a maturidade dos valores humanos próprios da relação de amizade e de diálogo que caracterizam o noivado. Em vista do novo estado de vida que será vivida como casal, dê-se oportunidade para aprofundar a vida de fé e, sobretudo, aquilo que se refere ao conhecimento da sacramentalidade da Igreja. É esta uma etapa muito importante de evangelização, em que a fé deve incluir a dimensão pessoal e comunitária tanto dos noivos quanto de suas famílias. Nesse aprofundamento será também possível perceber as suas eventuais dificuldades em viver uma autêntica vida cristã." (PSM32)

Ou seja, não pode ser uma terapia de grupo ou um bate-papo descompromissado onde todas as opiniões são igualmente boas e cada um que siga a seus conceitos. Não teria sentido reunir os noivos para escutarem o mesmo que já escutam na sociedade cada vez mais pagã! 

Para que isso não ocorra, é necessário ter uma equipe de agentes fiéis ao Magistério da Igreja para que atuem nesta pastoral, pois"a segurança do conteúdo deve ser o centro e o objetivo essencial dos cursos, numa perspectiva que torne mais consciente a celebração do Matrimônio e tudo o que dele brota em relação à responsabilidade da família. As questões relativas à unidade e à indissolubilidade do Matrimônio, e aquilo que se refere ao significado da união e da procriação da vida conjugal e do seu ato específico, devem ser tratadas com fidelidade e diligência, segundo o ensinamento claro da Encíclica Humanae Vitae (cf. 11-12)."(PSM48)

Uma oportunidade como esta não deve ser apenas uma formalidade cumprida na correria. Não parece possível desenvolver algo de profundidade em cursos de poucas horas de duração, condensados em poucos dias e com os temas pronunciados em palestras cronometradas. E o que dizer sobre alguns encontros de noivos realizados em uma única manhã? E não sou eu quem diz, mas a Igreja afirma que "serão necessários encontros frequentes, num clima de diálogo, de amizade, de oração, com a participação de pastores e de catequistas.(PSM37)”   Dá pra desenvolver isso tudo em 3 horas de encontro?

Sabemos que muitas equipes fazem uma bela pastoral com o pouco tempo disponível. Mesmo condensados, muitos encontros tem sido determinantes na vida de noivos e têm ajudado a criarem famílias mais bem estruturadas. Mas podemos avançar. A experiência da preparação próxima em vários encontros permite aprofundamento e cria laços de referência entre os noivos e os casais agentes. Também não podemos esquecer que, por não ser imediatista e necessitar ser realizada meses antes da data do casamento, a preparação em vários encontros permite que o casal avalie o noivado com tranquilidade, fora da agitação dos preparativos finais.

Não posso deixar de dizer que sempre me persegue o comentário do Papa Francisco, já citado nesta coluna, de que metade dos casamentos é nulo. Em que parcela os nossos grupos da preparação próxima – encontros e cursos de noivos - contribuem com essa estatística?

Paz e bem!

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André Parreira (alparreira@gmail.com), da diocese de São João del-Rei-MG, é autor de livros sobre a preparação para o matrimônio e responsável no Brasil pelo DVD "Sim, Aceito!", lançado em parceria com a Pastoral Familiar da CNBB. Empresário, casado e pai de 6 filhos, colabora na formação de jovens e casais.