Preparai o caminho do Senhor...

O tempo do Advento: reflexão de Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro

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RIO DE JANEIRO, segunda-feira, 3 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) - Com muita alegria, neste domingo a Liturgia da Igreja inicia o “Tempo do Advento”, iniciando um novo “ano litúrgico”, ou seja, o ciclo de celebrações no qual a Liturgia nos insere na vivência dos mistérios principais da vida do Senhor: encarnação, paixão, morte e ressurreição. Nesse contexto, cada cristão é chamado a mergulhar na essência do que cada “tempo litúrgico” evidencia para assim poder contemplar de modo sempre mais palpável as ações da liturgia e vivenciá-las de modo concreto na vida. Dentro do novo ano litúrgico agora iniciado teremos a oportunidade de celebrar em Julho próximo a nossa Jornada Mundial da Juventude. Será também o momento de aprofundarmos a fé neste ano especial.

O tempo do advento, como início do ano litúrgico, é o momento da preparação para a celebração do grande mistério divino que é o Natal do Senhor Jesus Cristo. É o tempo da espera, o tempo de “preparar o caminho do Senhor”. Essa “preparação” nos faz vivenciar uma dupla expectativa, a saber, uma que nos põe em evidência a necessidade de “vigiar e orar”, a fim de que estejamos prontos para a chegada do Senhor que virá no fim dos tempos, mas também, nos evidencia a expectativa do povo de Deus da antiga Aliança, que ardentemente punha-se no aguardo do “Emmanuel”, o “Messias”, o “Deus conosco”.

Iniciando a vivência deste tempo litúrgico de expectativa pela vinda do Senhor que é o Advento, convido a que observemos neste momento qual o nosso papel nesta preparação para a sua vinda não somente no que toca a nós mesmos em particular, mas também no tocante ao contexto no qual estamos inseridos. O tempo do Advento trata-se também de um momento em que somos chamados à missão profética de anunciar o Messias no mundo de hoje, pois Aquele que veio e virá, é também O que vem a cada coração que o acolhe. Por isso este tempo é de preparação de sua renovada acolhida nos corações, tanto dos que já O conhecem, como também dos que ainda não o conhecem verdadeiramente. Infelizmente hoje, mesmo em nosso ocidente cristão, existem muitos que nunca ouviram falar de Cristo ou não O encontraram em suas vidas e história. Nesse contexto, voltemos o nosso olhar para a juventude como depositária da nossa esperança de evangelização no hoje e na esperança dessa missão no “amanhã”.

Os jovens do nosso tempo, assim como todos os cristãos, são chamados a ter diante dos olhos uma figura exemplo de anúncio da vinda do Senhor, o qual encarnando e vivenciando com afinco sua missão de anunciar o Messias, constituiu-se como o “precursor”: João Batista.

A vigilância na fé, na oração e na penitência faz de João Batista um significativo exemplo desta preparação da vinda do Senhor a que os jovens são chamados tanto a aderir quanto a realizar. Assim como João Batista, cada jovem é chamado a pregar no mundo de hoje a conversão, que se inicia de dentro para fora, tratando-se de uma adesão pessoal e verdadeira à pessoa de Cristo, que nos convida a tomar parte na sua amizade que liberta e que nos realiza verdadeiramente. Entretanto, essa verdadeira alegria se traduz na mudança de vida, de costumes, de práticas. Hoje, com pesar, vemos situações e realidades que nos afastam do que somos em essência, ou seja, criados “à imagem de semelhança de Deus”, e ofuscando assim a nossa relação com o Senhor. Uma ilustração bastante significativa desse apelo à conversão é a cor “roxa” com a qual a liturgia se reveste neste tempo litúrgico. Ela nos evoca que necessitamos de uma conversão do coração, das práticas; necessitamos “arrependermo-nos e crer no Evangelho”. Advento é tempo de esperança!

Neste tempo litúrgico, chamados a empreender a missão de João Batista, cada jovem é chamado a manter-se vigilante na fé, na oração, e em uma abertura atenta e disponível para reconhecer os “sinais” da vinda do Senhor em todos os momentos e circunstâncias da vida tanto acerca do hoje quanto acerca do “fim dos tempos”, pois a nossa sociedade se preocupa demasiadamente com a dimensão previdente relativa ao amanhã: empreende os meios necessários para que se possa conhecer hoje “como será o amanhã”, mas esquece-se de vigiar para que a sua chegada não a tome “de assalto”. Nesta perspectiva, o exacerbado tecnicismo da atualidade insere, sobretudo os jovens, sentinelas do amanhã, na incumbência de promover o progresso observando e perscrutando o futuro com os desafios a vencer.

Vivenciar o tempo do Advento significa acolher e reconhecer o Senhor, que continuamente vem ficar conosco e segui-Lo como aquele em quem está a fonte da vida, da felicidade, do progresso, da ciência, Aquele em cuja luz contemplamos a luz (cf. Sl 35,10).

Nessa dimensão de acolhimento e reconhecimento do “Senhor que vem”, a liturgia deste I Domingo nos chama à vivência de uma Igreja sem fronteiras, que se caracteriza pela desvinculação dos paradigmas que impedem que o anúncio do Evangelho seja efetivamente realizado. “Os dias que virão, nos quais o Senhor realizará sua promessa de bens futuros” (cf. Jr 33,14), começa aqui e agora, e evocam a necessidade de desvincular-se do particularismo para abrir-se à totalidade do Evangelho, o qual, congregando num só povo todos os povos, raças e nações, empreende uma efetiva humanização do homem por meio da conversão do coração, mudança de costumes, e realização do agir fundamentado no princípio da caridade cristã e universal.

É assim que a Igreja se prepara para a vinda do Senhor, perfazendo na sociedade atual uma antecipação das realidades perenes do Reino dos Céus. Nessa missão, a juventude é chamada a ser promotora desse modo autêntico e eficaz de espera do Senhor, de preparação da sua vinda.

Caríssimos jovens, não tenham medo de empreender na vida de vocês uma resposta concreta ao chamado a ser profeta e anunciar a chegada de Jesus, o Messias, Aquele que renova os nossos corações e a nossa sociedade. Sejam a voz que clama no deserto dos nossos tempos (cf  Jo 1,23 ) e testemunhem com as celebrações deste singular tempo litúrgico de graça, que é o advento, a alegre expectativa pela contemplação do Senhor que vem, o “Emmanuel”, o “Deus conosco”.

† Orani João Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ