Prescindir da fé traz graves consequências, diz arcebispo

Para D. Walmor de Azevedo, partir da perspectiva de Deus não é estreitamento

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BELO HORIZONTE, sexta-feira, 6 de novembro de 2009 (ZENIT.org).- Abrir mão da fé nas discussões que orientam os rumos da sociedade pode acarretar o “assoreamento das fontes éticas que disponibilizam à racionalidade lucidez e equilíbrio próprios”, afirma o arcebispo de Belo Horizonte (Brasil).

Em artigo enviado a ZENIT hoje, Dom Walmor Oliveira de Azevedo assinala que o saber sobre a fé é um “grande desafio no mundo contemporâneo de cenários marcados pela multiplicidade, rapidez, utilidade”, onde se estabelece “um grande confronto entre fé e razão”.

Trata-se de um confronto que se explicita de muitas maneiras nas diferentes circunstâncias da vida contemporânea. “Dos exageros da indiferença e do fanatismo fundamentalista, passando pelas reivindicações do direito de respeito à própria escolha religiosa, até o entendimento de que é preciso exilar a religião, sua confessionalidade, para não ferir a integridade da laicidade do Estado”.

“A compreensão sobre a laicidade do Estado está atribuindo a este a posse, por si, de uma fonte ética capaz de alimentar e sustentar o seu compromisso primeiro, pela política, o de realizar a justiça”, afirma Dom Walmor.

Ora –prossegue o arcebispo–, “os ordenamentos públicos, mais do que uma simples técnica na busca do equilíbrio econômico e superação das vergonhosas exclusões sociais, devem ser resultados da razão prática no entendimento da justiça”.

Segundo o prelado, a compreensão e a garantia da justiça “sofrem injunções vindas, incontestavelmente, da cegueira ética derivada do interesse e do poder”.

“A natureza específica da fé, experiência do encontro com o Deus Vivo, abre horizontes novos e específicos que ultrapassam o âmbito da própria razão e tem força purificadora.”

“Partir da perspectiva de Deus não é estreitamento, como se pode verificar no entendimento de aspectos da laicidade do Estado”, destaca.

O atual clima cultural relativista traz consequências que “são desastrosas para a vida quando se desclassifica o patrimônio da fé. Ou quando ele é igualado em lei geral de religiões”. 

“Ou, ainda, quando se pretende um tipo de nivelamento nos direitos de professar a fé pela proibição, em âmbitos públicos, da singularidade de seus gestos, ritos e símbolos.”

Segundo Dom Walmor, “não se pode fazer padronizações superficiais, quando se trata da tradição e das raízes católicas que permanecem na arte, linguagem e estilo de vida, com um lastro histórico de promoção e sustentação da vida”.

“É arriscado, na avalanche das discussões travadas no areópago do mundo deste tempo, prescindir da fé. O risco é o assoreamento das fontes éticas que disponibilizam à racionalidade lucidez e equilíbrio próprios.”

“Será sempre grande o comprometimento da fraternidade universal”, afirma o arcebispo de Belo Horizonte. “A economia, referência em torno da qual o conjunto da vida e a política gravitam, não tem força moral regulatória própria. Tem apenas para os números e para a produtividade”.

Dom Walmor considera que os sistemas econômicos, sociais e políticos não podem prescindir da fé, “sob pena de não conseguirem assegurar a justiça que prometem e têm o dever de realizar na vida dos cidadãos e das sociedades”.

(Alexandre Ribeiro)