Preservar a criação, não desperdiçar comida, respeitar a pessoa

Audiência geral: o papa denuncia a "cultura do desperdício", na qual "é o dinheiro que manda", e apela por todas as pessoas e pela Terra que nos foi presenteada por Deus

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 1047 visitas

O papa Francisco cita São Francisco. Tal como o seu homônimo de Assis, o Santo Padre lançou durante a audiência geral de hoje um forte apelo à humanidade no Dia Mundial do Meio Ambiente, promovido pela Organização das Nações Unidas, em prol do cuidado da criação e do fim do desperdício e da destruição de alimentos.

A reflexão do papa partiu das primeiras páginas da bíblia, do livro do Gênesis, que "afirma que Deus colocou o homem e a mulher na terra para cultivá-la e guardá-la" (cf. 2,15). "Uma ordem" que Deus deu "não só no início da história, mas a cada um de nós", e que "faz parte do seu projeto" para "fazer o mundo crescer com responsabilidade, transformá-lo em um jardim, um lugar habitável para todos".

O próprio verbo "cultivar", destacou Bergoglio, "chama a atenção para o cuidado que o agricultor tem pela sua terra, para que ela dê frutos e os frutos sejam compartilhados". "Quanta atenção, paixão e dedicação", exclamou o Santo Padre. Mas nós estamos fazendo o mesmo? "Estamos mesmo cultivando e tomando conta da criação?" Ou "só estamos explorando e negligenciando?".

A tendência nossa, de cidadãos do mundo, é a de nos deixar guiar muitas vezes "pela arrogância de dominar, de possuir, manipular, explorar", observou o papa. O resultado é que não cuidamos da terra que Deus nos deu, "não a respeitamos, não a consideramos um dom gratuito a ser preservado. Estamos perdendo a atitude da admiração, da contemplação, de escutar a criação, e não conseguimos ler o que Bento XVI chama de ‘ritmo da história de amor de Deus com o homem’".

Esta "poluição" na relação entre o homem e a criação se propaga na relação entre o homem e o próprio homem. Porque "cultivar e tomar conta não inclui apenas a relação entre nós e o meio ambiente, mas também as relações humanas". Mais de um papa já falou, aliás, de "ecologia humana, intimamente ligada à ecologia ambiental".

O momento de crise que atravessamos, disse Francisco, "é visível no ambiente, mas acima de tudo é visível no homem", numa sociedade em que "a pessoa humana está em perigo". É urgente, portanto, uma “ecologia humana”, de acordo com o Sucessor de Pedro, porque a causa da crise "não é apenas uma questão de economia, mas de ética e de antropologia".

Apesar dos constantes apelos da Igreja, "o sistema continua como antes, porque o que domina são as dinâmicas de uma economia e de um sistema de finanças sem ética", acrescentou. A raiz de tudo isso é o que, em mais de uma ocasião, o papa denunciou como "fetichismo do dinheiro". Também na catequese desta manhã ele reiterou: "O que manda, hoje, não é o homem, é o dinheiro: o dinheiro, o dinheiro é que manda! Deus, nosso Pai, deu a tarefa de cuidar da terra não ao dinheiro, mas a nós, homens e mulheres! Somos nós que temos essa tarefa [...] Homens e mulheres são sacrificados aos ídolos do lucro e do consumo [...] Se um computador estraga, é uma tragédia, mas a pobreza, as necessidades, os dramas de tantas pessoas acabam virando ‘normalidade’" .

É a chamada "cultura do descartável", na qual, disse o papa, "se numa noite de inverno morre uma pessoa aqui na Via Ottaviano, isso não é notícia. Se em tantas partes do mundo há crianças que não têm nada para comer, isso não é notícia. Parece normal". Mas o mundo não pode continuar assim, insistiu ele, [não pode continuar] “considerando normal que moradores de rua morram de frio, ao mesmo tempo em que acha uma tragédia se a bolsa de valores de algumas cidades cair 10 pontos".

Devido a essa "cultura" contaminante, "nós, as pessoas, somos descartados, como se fôssemos sobras", observou o papa com veemência. "A vida humana, a pessoa humana, não é mais percebida como valor primário a ser respeitado e protegido, especialmente se é pobre ou deficiente, ou se ‘ainda não é útil’, como o nascituro, ou se ‘não serve mais’, como os idosos".
Não só isto: "Essa cultura do descartável nos tornou insensíveis até mesmo ao desperdício de alimentos, que são ainda esbanjados enquanto, em todas as partes do mundo, muitos indivíduos e famílias inteiras passam fome e sofrem desnutrição". Os "nossos avós eram muito cuidadosos para não jogar nada fora dos restos de comida", lembrou o papa; hoje, porém, o consumismo "nos acostumou ao supérfluo e ao desperdício diário de alimentos, de comida que, às vezes, não somos mais capazes de valorizar devidamente e que vai muito além de meros parâmetros econômicos". Temos que nos lembrar de que "o alimento que é jogado fora é como se fosse roubado da mesa dos pobres, dos famintos".

A exortação de Bergoglio não é apenas fruto de uma alma que sempre foi sensível à pobreza, mas é a tradução prática de um ensinamento que o próprio Jesus nos deixou. Conforme o relato do milagre da multiplicação dos pães, lido na Festa de Corpus Christi, "Jesus pede aos discípulos que não deixem nada ser desperdiçado: nenhum desperdício", reitera o papa. Esta passagem, explicou ele, "nos diz que quando o alimento é compartilhado de forma justa, solidária, ninguém fica privado e cada comunidade pode satisfazer as necessidades dos mais pobres".

"A ecologia humana e a ecologia ambiental caminham juntas", é a conclusão do pontífice. "Eu gostaria, por isso, que todos nós levássemos a sério o compromisso de respeitar e de preservar a criação de Deus, de estar sempre atentos a cada pessoa, de combater a cultura do desperdício e do descartável, para promover uma cultura da solidariedade e do encontro".