Pretende-se acabar com a verdadeira sede de Deus, afirma cardeal

Segundo Dom Eusébio Scheid, «busca-se, então, em Deus-objeto»

| 407 visitas

RIO DE JANEIRO, 3 de julho de 2007 (ZENIT.org).- Nosso mundo vive uma grande sede de Deus e uma sentida saudade de Deus, afirma o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro (Brasil). «Mas o problema da atual sede de Deus é que se pretende acabar com ela, quer-se saciá-la de modo definitivo», destaca Dom Eusébio Scheid.



Em mensagem aos fiéis de sua arquidiocese difundida esta terça-feira, o cardeal explica que, perante o ímpeto de saciar a sede de Deus --«que jamais é saciada», pois é uma «sede permanente»--, busca-se «um Deus-objeto, um tapa-buracos, um quebra-galhos».

«Cria-se uma religião de resultados, que solucione todas as crises, cure todas as doenças, resolva todos os problemas. Uma religião-terapia e não uma religião-aliança. Em vez de relacionar-se com Deus, como um amigo íntimo, um companheiro fiel, um pai extremoso, faz-se dele objeto de uso.»

De acordo com Dom Eusébio, «busca-se um deus feito pelo homem, que esteja sempre à disposição do homem. Criado à imagem de Deus, o ser humano quer agora criar seu deus, à sua imagem, invertendo as relações. Pretende possuir o mistério, delimitá-lo em suas categorias limitadas e mesquinhas, comprá-lo com suas posses, prendê-lo em suas instituições, usá-lo em seu favor. Por isso, a atual sede de Deus torna-se angustiante».

O arcebispo explica que «com a presunção de ser religiosa, a atual sede de Deus é falsa, porque não busca o Deus vivo. Ela esconde, na verdade, a máscara dos modismos fáceis, dos devocionismos baratos, das soluções apressadas».

Dom Eusébio afirma que «enquanto se procura Deus no poder e na grandeza, ele se esconde e se encontra na simplicidade e nos pequenos atos de amor de cada dia».

«Enquanto se busca saciar a atual sede de Deus com mega-shows, vendas de produtos religiosos, estéreis elucubrações filosóficas e teológicas, ele se esconde e se encontra na celebração, na promoção e na defesa da vida, em gestos de solidariedade.»

De acordo com o arcebispo do Rio de Janeiro, como a sede, também a saudade de Deus sempre acompanhou a história da humanidade.

«Trata-se, porém, de uma saudade que não se volta somente para o passado. A História de Israel, de Jesus de Nazaré e das primeiras comunidades cristãs, mostra que Javé-Abbá é um Deus que cumpre, fielmente, as promessas feitas.»

«Assim, de promessa em promessa, o povo e as pessoas vão aprendendo a se relacionar com Deus, no modo da aliança. Cada promessa cumprida torna-se motivo de nova esperança. Por isso, a verdadeira saudade, seja do povo judeu, seja dos cristãos, aponta, sobretudo, para o futuro», afirma.

Segundo Dom Eusébio, a memória do passado torna-se consciência do presente e esperança do futuro. «A saudade torna-se esperança. Não é, pois, uma saudade nostálgica que faz chorar por coisas, lugares, situações e pessoas perdidas».

«É uma saudade que, como a sede, atrai, fascina e provoca a ir adiante, a buscar sempre mais. Na verdade, é uma saudade de quem se deixa encontrar por Deus. Afinal, é ele quem vem ao nosso encontro, agora e sempre», afirma.