Professor de grego e literatura do Papa Francisco em entrevista a ZENIT

Entrevista com Pe. Juan Carlos Scannone, SJ, assessor do Departamento de "Justiça e Solidariedade" do CELAM

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 818 visitas

Professor do Papa, de grego e literatura, nos anos de 1957, Pe. Juan Carlos Scannone, SJ, em entrevista concedida a ZENIT, nos revelou um pouquinho desse grande homem do começo do século XXI, Jorge Mario Bergoglio, nosso querido Papa Francisco.

 "Além de ser um leitor assíduo de ZENIT em espanhol”, disse-nos no começo da sua entrevista, Pe. Juan Carlos é professor emérito de filosofia na Faculdade de Filosofia de São Miguel, onde o Papa estudou, e atualmente dirige ali o Instituto de Pesquisas Filosóficas, bem como é assessor do Departamento de “Justiça e Solidariedade” do CELAM.

ZENIT: Desde quando você conheceu Jorge Mario Bergoglio e qual relação teve com ele?

Pe. Juan Carlos Scannone SI: conheço o Papa Francisco desde que era um seminarista da arquidiocese de Buenos Aires, acho que desde 1957, antes de entrar no noviciado jesuíta. Naquele então fui professor de grego e literatura, porque Jorge Mario já tinha completado o ensino médio, mas teve que fazer dois anos no Seminário Menor, para estudar latim, formando parte dos “latinistas”, jovens que tinham terminado o ensino médio mas não tinham cursado humanidades clássicas. Mais tarde, quando voltei dos meus estudos na Europa, em 1967, encontrei-o novamente como estudante de teologia na Faculdade de Teologia, morando na mesma casa religiosa, o Colégio Máximo de San José. Quando era mestre de noviços, ainda que morava em outra casa, me dirigia espiritualmente com ele. Depois, convivi com ele no mesmo Colégio Máximo, grande parte dos seis anos como Provincial (1973-1979) e outros seis anos como Reitor tanto desse Colégio como das Faculdades de Filosofia e Teologia de San Miguel (1979-1985). Ele era professor de teologia pastoral na Faculdade de Teologia, e eu, professor de teologia filosófica, na de Filosofia. Tinhamos uma relação diária e muito cordial.

ZENIT: Como Jorge Bergoglio dirigiu a Igreja em Buenos Aires? Quais as suas principais virtudes?

P. Juan Carlos Scannone SI: Apesar de San Miguel ser outra diocese, por testemunhos de outros e pelo domínio público, posso dizer que o seu governo foi, por um lado, muito pastoral, com especial atenção para o que ele chama de "povo fiel" e a sua piedade popular, especialmente com os pobres. E, por outro lado, um governo espiritual, que impactava os jovens sacerdotes. Apoiou abertamente os "sacerdotes de favelas", ou seja, aqueles que trabalham nas favelas, nos bairros pobres, e as visitava com frequência. Promovia a “conversão pastoral”, de que fala o Documento de Aparecida, de tal modo que buscava colocar a Igreja em estado de missão, promovendo entre os agentes de pastoral e pastores a ideia de não esperar os fieis nos tempos, mas de sair pelas ruas e praças, procurando a todos, sobretudo os mais excluídos. Promoveu fortemente o diálogo inter-religioso com o judaísmo e o islamismo, sendo a Argentina um dos não muitos lugares onde, graças à mediação da Igreja Católica, o Islamismo e o Judaísmo estão em diálogo fecundo. Seu estilo foi sempre espiritual, simples, austero, com traços inesperados de caridade pessoal, atendendo ao mesmo tempo a esfera pública e política, e as pessoas concretas.

ZENIT: Como os jesuítas de Buenos Aires estão vendo esses primeiros dias do pontificado do Papa Argentina?

P. Juan Carlos Scannone, SJ: Há uma grande alegria entre os jesuítas argentinos e muita esperança, acima de tudo, ao ver gestos simbólicos que o novo Papa está tendo, e suas primeiras decisões. Por outro lado, só o fato de que seja latino-americano  é como uma espécie de revolução na Igreja e um verdadeiro sinal dos tempos e das transformações atuais.

ZENIT: Você tem alguma recordação especial de Jorge Bergoglio como cardeal?

P. Juan Carlos Scannone SI: Tenho muitas recordações, mas gostaria de apresentar o testemunho de um amigo meu, que foi especialista em Aparecida.

Quando, antes da conferência, ele perguntou ao cardeal sobre qual seria o principal tema, este disse-lhe: "Cristo e os pobres." Acho que isso o pinta de corpo inteiro.

ZENIT: De todas as lutas que o Papa teve de enfrentar como cardeal, na Argentina, em sua opinião, qual tem sido a principal?

P. Juan Carlos Scannone, S.J.: Não é fácil responder a esta pergunta. Pelo menos pode-se dizer que, entre as grandes lutas que teve, tem duas que se relacionam com a missão atual da Companhia de acordo com as últimas Congregações Gerais, ou seja, “o serviço da fé e a promoção da justiça”. Porque teve que lutar tanto contra a pobreza injusta e a iniquidade na sua diocese, no país e América Latina, praticando pastoralmente de forma pública a opção preferencial pelos pobres, como também lutar em favor da evangelização, sobretudo dos jovens, porque ele estava preocupado com a ruptura da transmissão da fé na família, entre as gerações, já que essa transmissão quase espontânea acontecia antes, mas agora está se perdendo.