Psicologia católica e abusos sexuais por parte do clero (I)

Entrevista com Gerard van den Aardweg

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Por Genevieve Pollock

HAARLEM, segunda-feira, 3 de maio de 2010 (ZENIT.org).- O comportamento pedófilo - como no caso de abusos sexuais de crianças por parte do clero - não se pode equiparar com a homossexualidade, mas pesquisas revelam que ambos tampouco estão desconectados, diz um psicoterapeuta católico.

Gerard van den Aardweg trabalha como terapeuta há quase 50 anos em sua pátria, Holanda. Especializou-se em casos de homossexualismo e de problemas conjugais. Ministrou conferências no mundo todo e escreveu diversos livros sobre homossexualidade e pedofilia, assim como a relação destes temas com outros: a atração homoerótica no sacerdócio, a Humanae Vitae e os efeitos da paternidade homossexual.

Os livros publicados por ele incluem Battle for Normality: Self-Therapy of Homosexuality e On the Origins and Treatment of Homosexuality.

Van den Aardweg foi membro do Comitê Científico Assessor da Associação Nacional para a Pesquisa e Terapia da Homossexualidade, desde que a organização foi fundada em 1992. É também o editor europeu da revista Empirical Journal of Same-Sex Sexual Behavior.

Nesta entrevista concedida a Zenit, fala das formas em que os meios de comunicação podem estar distorcendo os fatos sobre o abuso sexual de menores e os dados empíricos acerca da pedofilia e da homossexualidade.

-Por que houve um estouro de casos de abusos sexuais de menores por parte do clero?

-Van den Aardweg: O estouro de notícias está na atenção dos meios de comunicação sobre o tema. Não devemos confiar nos meios de comunicação nessa matéria, sobretudo nos jornais e nos canais de TV de tendência esquerdista e liberal, porque exploram esses escândalos para sua própria agenda.

Sem dúvida, o escândalo dos abusos sexuais de menores por parte de sacerdotes e religiosos se produziu, no passado, com demasiada frequência, e mais do que muitos pensaram ou acreditaram, e ainda ocorre. No entanto, a situação melhora claramente, e o pico dos abusos se situa aproximadamente entre 1965 e 1990, quer dizer, há 20 anos. Isso não é surpreendente, porque a revolução sexual no mundo secular não se deteve na porta da Igreja. No entanto, isso não quer dizer que esse comportamento fosse típico dos sacerdotes, ou que ocorrem com maior frequência nas paróquias e nos institutos educativos católicos que em outros lugares. 

Sem nenhuma intenção de comprovar sua validez, as acusações, maduras ou não, emitem-se indistintamente, como se fossem verdade provada, em um tom agressivo de "justa indignação", frequentemente comentadas de uma maneira hostil à Igreja. Dias após dia se enfatiza a mesma mensagem.

Parece um condicionamento da opinião pública. A associação entre "sacerdote católico" e "abusador de crianças" reforça-se na mente do leitor e do ouvinte e, implicitamente, também a associação entre a "doutrina moral católica sobre a sexualidade" e a "hipocrisia".

-Até que ponto é confiável a informação divulgada atualmente pelos meios de comunicação sobre os abusos a menores na Igreja?

-Van den Aardweg: É verdade que muitos casos graves foram minimizados ou encobertos no passado. Por outro lado, o quadro negro atual dos meios de comunicação está bastante exagerado, uma parte das acusações tem mais caráter de rumores que de fatos concretos. Na Holanda, fazem-se acusações sobre acontecimentos que teriam acontecido há mais de meio século - a maioria das pessoas esperaria todo esse tempo se tivesse sofrido uma injustiça grave?

E não se faz distinção entre os atos de abusos graves, como os de sacerdotes ou religiosos que coagiram física ou psicologicamente uma criança vulnerável em uma relação sexual durante um período longo de tempo, o que frequentemente tem profundos efeitos na vítima, e um contato ocasional ou um intento que não deixa esses rastros.

Como exemplo dessa última categoria, um sacerdote muito popular que ensinava em uma escola secundária tentou impor-se sexualmente em várias ocasiões a uma série de adolescentes, mas simplesmente não o levaram a sério, alguns inclusive lhe deram um tapa na cara quando ele chegou a ser demasiado molesto, e era objeto de piadas.

Em um estudo britânico com jovens adolescentes, 35% deles disseram que tinha sido solicitado por um adulto homossexual (membro da família, professor, líder juvenil, etc) e que só 2% deles tinha acedido.

Este é também um aspecto do problema. O comportamento do professor-sacerdote que acabo de mencionar, obviamente, foi muito reprovável, mas não pode ser igualado com o de um sacerdote ou religioso em um internato que faz o papel de pai carinhoso com uma criança de uma lar destruído, e que logo abusa de sua posição de poder para fazer que seu afeto dependa de que o menino realize seus desejos sujos. 

Na Holanda, um ou dois internatos tinha má fama neste sentido. É evidente que alguns membros da direção não eram bons (e tendiam a atrair outros de sua laia), mas em muitos - provavelmente a maior parte - dos demais, as moléstias sexuais foram a exceção.

-O senhor menciona a relação entre as pessoas com tendências homossexuais e as pessoas que abusam de crianças. Alguns líderes da Igreja foram criticados por fazer essa relação. Como psicólogo, o que diz a respeito?

-Van den Aardweg: Os dados sobre as tendências de abuso sexual por sacerdotes nos EUA, onde este tipo de escândalo foi melhor investigado, indicam que 14% das queixas se referiam a crianças até 11 anos de idade, e 51% afetavam pré-adolescentes, e 35% adolescentes entre 15-17 anos de idade. Poderíamos dizer que aproximadamente 20% das reclamações em geral afetava crianças, ou, se quisermos ser mais liberais em nossa definição; podemos estimar que um terço dos casos tecnicamente implicam comportamento pedófilo. De qualquer modo, não são a maioria.

Para os países europeus, as estatísticas não estão ainda disponíveis, mas toda informação parcial de que dispomos aponta a um padrão similar. Ademais, este modelo se confirma para outros grupos de abusadores de crianças do mesmo sexo e adolescentes, em outras palavras, para os professores, líderes juvenis, ou os funcionários dos institutos educativos.

Agora, a sedução e o abuso de meninos adolescentes não costume ser o negócio dos pedófilos. Os pedófilos, em geral, já não se interessam pelas crianças depois que essas entram na fase da puberdade e desenvolvem seus primeiros traços masculinos; é o corpo e a psique infantil o que os atrai.

Suponhamos que também na Europa, ao redor de 20% ou mais - o que não é muito provável - das vítimas de abuso sexual por parte de sacerdotes estivesse claramente abaixo da idade da adolescência e que todos esses sacerdotes abusadores fossem realmente pederastas. Inclusive então, a maior parte dos crimes deve ser atribuída a sacerdotes e religiosos que não eram "pedófilos", mas de fato a pessoas com uma orientação homossexual ordinária.

Isso não é surpreendente. Porque é um fato universal que muitos homossexuais autoidentificados centram-se nos adolescentes - o termo é efebófilos - e, se manifestam seus sentimentos, muitos deles sentem a tentação de seduzir um adolescente se a ocasião se apresenta.

-O senhor disse que sua impressão é que só uns poucos sacerdotes são pedófilos homossexuais, quer dizer, dirigem-se a meninos entre 8 e 11 anos de idade. Como se contam esses poucos homens na estimativa dos cerca de 20% dos casos de abusos sexual de meninos?

-Van den Aardweg: Voltando à relação entre a homossexualidade "normal" e a pedofilia homossexual, muitos homens que se identificam como homossexuais ativos em ocasiões podem também ter-se interessado por um menino que ainda é criança ou pré-adolescente. Aproximadamente uma quarta parte dos homens homossexuais ativos informou de relações sexuais com meninos de 16 anos e de menor idade, incluindo com meninos púberes. Quase a metade dos homens homossexuais ativos, segundo um estudo, informou sobre algum interesse por jovens de apenas 12 anos de idade. Esta porcentagem se pode supor também para os sacerdotes homossexuais ativos.

Esta é uma área nebulosa, também porque, por razões compreensíveis, os homens que se centram principalmente nos adolescentes - os homossexuais tecnicamente efebófilos - não gostam de admitir que, em ocasiões, podem ter sentimentos por meninos ainda mais jovens.

Se o tabu sobre este tipo de relação fosse menos rígido, eu esperaria muito mais comportamento "no limite da pedofilia" e claramente pedófilo por parte dos homens que se interessam pelos adolescentes.

Isso é o que sugerem também as declarações de uma organização oficial gay conhecida como Dutch COC (Clube de Cultura e Ócio). Em 1980 proclamou que, "ao reconhecer a afinidade entre a homossexualidade e a pedofilia, o COC fez muito possivelmente que seja mais fácil para os adultos homossexuais tornarem-se mais sensíveis aos desejos eróticos dos membros mais jovens de seu sexo, ampliando assim a identidade gay". Portanto, afirmava, "a liberação da pedofilia deve ser considerado um assunto gay", e a idade de consentimento deve ser abolida".

[A segunda parte desta entrevista será publicada amanhã]