Qual é a relação que existe entre a Verdade e a prática da caridade?

Empenho social e Doutrina Social

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de Mons. Giampaolo Crepaldi

ROMA, sábado, 12 de novembro, 2011 (ZENIT.org) - Gostaria de chamar a atenção sobre um aspecto muito importante do conhecimento e da utilização da Doutrina Social da Igreja e sobre o envolvimento social e político dos católicos. Refiro-me à falta de consciência da dimensão social dos princípios da doutrina cristã. Eu acho que muitos católicos seriamente engajados na sua comunidade sejam certamente capazes de dizer por que a Doutrina Social da Igreja considere mais importante a pessoa do funcionário do que o produto do trabalho, mas talvez não sejam tão capazes de dizer por que o dogma da Trindade seja de fundamental importância também para a construção da cidade terrena, bem como da celestial.

O nosso observatório já falou sobre estas questões, que consideramos fundamentais. Por exemplo, no passado nós escrevemos sobre a importância dos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé, a fim de um uso correto da Doutrina Social da Igreja. Eu mesmo falei com uma nota publicada seja no nosso site que está no "Boletim da Doutrina Social da Igreja", sobre "A doutrina social da Igreja no contexto da Doutrina Cristã". Dentro dos Relatórios Anuais sobre a Doutrina Social da Igreja no Mundo, publicados pelo nosso Observatório, a análise do Magistério de Bento XVI centra-se sempre sobre estas questões doutrinárias, considerando-as fundamentais para definir corretamente a questão social. Seria uma grave amputação da Doutrina Social da Igreja esquecer esses fundamentos dogmáticos e projetar-se diretamente nas assim chamadas "coisas para fazer". No entanto, talvez, justamente é isso que ocorre, mesmo em escolas e sessões de formação na Doutrina Social da Igreja.

Esta atenção para os aspectos dogmáticos e doutrinários e as suas consequências sociais, é também muito importante no discernimento com relação às outras religiões. Se estes são colocados de lado e negligenciados, então acaba que também o católico acredita que todas as religiões sejam igualmente capazes de levar a humanização, a justiça, a paz, o respeito pela pessoa e de estabelecer uma vida social saudável. Se acreditar em um Deus que é três pessoas é o mesmo que acreditar em um Deus que não o é, então não faz diferença para a construção da sociedade ser um cristão ou ser de outra religião monoteísta.

Como exemplo, gostaria de trazer aqui o caso do dogma da Trindade, ou seja, no fato de que a Igreja Católica crê num Deus que é apenas uma substância em três pessoas e do monoteísmo, ou seja, na crença em um só Deus.

Se seguirmos o pensamento de Joseph Ratzinger, observamos que a Trindade nos diz que originária não é só a unidade, mas também a multiplicidade; que uma pessoa como unidade única não existe porque está sempre dirigida a; que existe, além da substância, o plano da relação, que deve ser considerado um verdadeiro e próprio plano do ser. Da mesma forma como a pessoa é feita à imagem de Deus, também a pessoa vive junto desta unidade e multiplicidade, originariamente e contemporaneamente. Este aspecto dogmático e doutrinal da fé cristã nos diz portanto que não acontece que nós primeiro sejamos aquilo que sejamos e depois nos relacionamos com os outros comunitariamente. A realidade é que o nosso ser individual é por si mesmo aberto à comunhão, é já uma relação dentro de si mesmo e com os outros. 

Agora, pensemos na sociedade e nos perguntemos: a sociabilidade relacional entre as pessoas se reforça mais por meio de uma semelhante religião ou por meio de uma religião na qual Deus é só unidade e não multiplicidade? Eu diria que a resposta é bastante evidente. Uma sociedade tem maiores possibilidades de que seja coesa e unida partindo daquela concepção religiosa, mais do que da outra. Um Deus que seja também Trinitário não é menos Uno, mas sim é mais Uno, porque aqui se trata da unidade do Espírito, que é absolutamente mais profunda justamente porque tal. Dois esposos, ainda que distantes fisicamente entre eles, estão infinitamente mais unidos do que duas pedras juntas uma da outra. Na comunhão espiritual é possível unir-se ao outro sem renunciar de ser si mesmo, e mais, tornando-se maiormente si mesmo na medida que se une ao outro. Estas simples observações tomadas da nossa experiência quotidiana nos fazem compreender que um Deus em Três pessoas é mais Uno e fornece à sociedade um exemplo de íntima e profunda unidade relacional que a sociedade, nos seus níveis infinitamente inferiores, experimenta no matrimônio, na família, na comunhão de um grupo, de uma nação e na inteira comunidade universal vista como uma só família. O monoteísmo, em quanto tal, trouxe grandes benefícios à sociedade, mas nem todos os monoteístas são iguais. O monoteísmo trinitário é capaz de trazer benefícios ainda maiores.

Aqui não é o lugar para examinar outros dogmas da religião católica, basta um exemplo. A encarnação, a epifania, a morte na Cruz, a Ressurreição, Pentecostes, a Vida Eterna, o Juízo Final ... são aspectos dogmáticos e doutrinais que são de fundamental importância para a organização deste mundo e para a doutrina social da Igreja . Abrir um lugar para Deus no mundo, diz Bento XVI, requer evitar negligenciar este elo fundamental entre os aspectos dogmáticos e a construção da cidade terrena. Em outras palavras, não deve ser esquecido, mas estudado e aprofundado o primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja.

* Arcebispo de Trieste