Quaresma: Mensagem do arcebispo de Braga

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ROMA, segunda-feira, 7 de março de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos a mensagem que o arcebispo de Braga e primaz de Portugal, Dom Jorge Ortiga, divulgou para a Quaresma de 2011.

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Igreja, Casa da Palavra

A Quaresma é um tempo de particular intensidade litúrgica e espiritual na vida cristã. É a longa travessia do Deserto que nos leva a comer o maná da hospitalidade. É o caminho da Transfiguração que nos conduz ao suave odor da manhã de Páscoa. É o desafio a percorrer a via de Emaús segundo “os mesmos sentimentos de Jesus Cristo” (Fl 2,5). O tempo quaresmal “não é um rito do passado, mas encontro com Cristo que informa a existência do baptizado, doa-lhe a vida divina e chama-o a uma conversão sincera, iniciada e apoiada pela graça, que o leve, a alcançar a estatura adulta de Cristo” (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma 2011).

Ao longo dos domingos da quaresma somos convidados a antecipar o caminho de Emaús, a entrar na Casa da Palavra, e a montar a tenda que nos abre à intimidade com Deus. Não tenhamos receio de “entrar mais dentro da espessura, façamos uma tenda, uma pausa breve que antecipe a Páscoa e nos esclareça acerca do segredo e da glória de Deus inacessível na face do Cristo, ícone de Deus” (J. A. Mourão).

Qual o caminho a seguir?

“Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor – a festa mais jubilosa e solene de todo o Ano litúrgico – o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus?” (Bento XVI, Mensagem para Quaresma 2011).

Vivemos (d)a Palavra para encontrar a frescura narrativa e poética da Palavra incarnada, para construir caminhos de amizade com o Senhor da Vida e fazer da Igreja, Casa, onde a Palavra habita para ser acolhida, vivida e anunciada como libertação do humano ferido. É o lugar penitencial onde as cinzas reduzidas a pó exalam o perdão e a reconciliação de uma humanidade ávida da misericórdia infinita de Deus.

A Igreja, Casa da Palavra

Assumir o itinerário da Palavra, de modo particular no tempo quaresmal, exige, assim, de todos a responsabilidade de fazer da Igreja, universal e local, Casa da Palavra. «A Palavra de Deus tem uma sua casa no Novo Testamento: é a Igreja que tem o seu modelo na comunidade-mãe de Jerusalém, […] e que hoje […] continua a ser custódia, anunciadora e intérprete da Palavra. Lucas, nos Actos dos Apóstolos, traça-lhe a arquitectura baseada em quatro colunas ideais: Eram perseverantes no ensino dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fracção do pão e nas orações» (Plano Pastoral Arquidiocesano).

A Igreja diocesana só será Casa da Palavra se se deixar renovar continuamente pela acção do Espírito Santo; se gerar vida nova e corações disponíveis para a acolher amorosamente a luz da ressurreição do Filho do Homem; se gerar uma comunidade-lar onde as pessoas se sintam acolhidas e amadas com dignidade, nas suas dores e angústias, alegrias e esperanças; se festejar em torno da mesa eucarística e celebrar a presença do encontro renovador com o Senhor da Vida; se assumir o ensino apostólico, a comunhão fraterna, a partilha do pão e a oração como as colunas que sustentam toda a acção eclesial.

Mas para tudo isso será fundamental testemunhar de viva voz a atitude do cego de nascença: “Creio, Senhor” (Jo 9,38). É neste sentido que proponho o itinerário da Palavra como caminho de renovação espiritual de cada cristão e das comunidades cristãs da nossa Diocese, no sentido de assumirmos a fé como compromisso quotidiano rumo à beleza do mistério pascal.

- Primeira Semana: a Palavra no anúncio, na catequese e na homilia (Evangelho das Tentações);

- Segunda Semana: a Palavra na celebração Eucarística (Evangelho da Transfiguração);

- Terceira Semana: a Palavra na oração, e particularmente, na Lectio Divina (Evangelho da Samaritana);

- Quarta Semana: A Palavra como proposta para uma maior comunhão e solidariedade entre todos (Evangelho do Cego de Nascença);

- Quinta Semana: a Palavra geradora de vida e transfiguração na vida dos crentes e na pastoral (Evangelho da Ressurreição de Lázaro).

Igreja, Casa da Fraternidade

Vivendo assim nesta Casa, onde aprendemos a ser família, que dialoga e exercita o dom da gratuidade e da fraternidade, estaremos mais sensíveis ao jejum, à esmola e à oração. Uma pedagogia que se adquire na captação do Amor profundo de Deus pela humanidade. Um itinerário tradicional refrescado pela Palavra de Deus de cada domingo que poderá ajudar as comunidades cristãs e os movimentos apostólicos da nossa Diocese a crescerem na adesão a Cristo e à gratuidade do Reino.

Nesta correspondência ao Evangelho, peço, por isso, que a Quaresma intensifique o nosso sentido de partilha e fraternidade em tempos de emergência social.

Assim, o Contributo Penitencial da nossa Diocese reverterá em primeiro lugar a favor do Fundo Partilhar com Esperança. Agradeço, desde já, a todos os sacerdotes, leigos e comunidades que contribuíram generosamente para este fundo de apoio social. A segunda finalidade do nosso Contributo Penitencial irá para a Diocese de Luena, Angola, que já teve seminaristas entre nós, e nos disponibilizou um sacerdote, para reconstruir três igrejas paroquiais com alguns espaços para a acção catequética e social.

Igreja, Casa do Amor Voluntário

A vida e morte de Cristo aponta-nos o caminho da doação e do seguimento incondicional de Deus-Pai. Neste Ano Europeu do Voluntariado recordo que a Palavra vivida leva à entrega de si no amor ao próximo e suscita a alegria de servir as comunidades e as pessoas mais vulneráveis da nossa sociedade, nomeadamente crianças, idosos e pessoas portadoras de incapacidade física e mental. Pessoas estas que necessitam da visita amiga, da água da samaritana e da presença transfiguradora do amor inesgotável de Deus no amor humano.

Na Casa, Páscoa Feliz para Todos!

Será portanto oportuno fazer de cada coração humano uma casa cheia de ternura, de amizade e esperança para anunciar que Cristo está vivo e sempre pronto a libertar-nos da nossa auto-suficiência abrindo-nos ao amor do Pai e à reconciliação com os irmãos.

Caminhemos na Esperança rumo ao domingo de Páscoa, que anuncia a vitória de Cristo sobre a morte e a abertura de caminhos novos de justiça e de paz no mundo. Façamos com que a Boa-Nova do Reino ecoe até aos confins da terra e permaneça firme em nós a esperança do Ressuscitado. Seguindo a Cristo, façamos da nossa existência, e da Igreja, uma autêntica e renovada Casa habitada pela Palavra.

Braga, 3 de Março de 2011

D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz