Quaresma: o tempo do coração

Evangelho do primeiro domingo da quaresma

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ROMA, sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012 (ZENIT.org)

Gen 9,8-15
Deus disse a Noé e aos seus filhos: Eis que estabeleço a minha aliança covosco e com os vossos descendentes depois de vós, com todo ser vivente que está convosco, aves, gado e animais selvagens, com todos os animais que saíram da arca, com todos os animais da terra. Estabeleço a minha aliança convosco: nenhuma outra carne será destruída pelas águas do dilúvio, nem o dilúvio devastará mais a terra.

I Pd 3,18-22
Amados, Cristo morreu pelos pecados de uma vez por todas, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito.

Mc 1,12-15
Naquele tempo, o Espírito conduziu Jesus ao deserto e ele ali permaneceu durante quarenta dias, tentado por satanás. Vivia em meio às feras e os anjos o serviam. Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo: convertei-vos e crede no Evangelho.

Movido internamente pelo mesmo Espírito que conduziu Jesus, o crente batizado permanece quarenta dias no deserto com o Senhor, para se preparar para o dom da alegria pascal.

Profundamente necessitado de silêncio e de serenidade, ele anseia por uma Palavra verdadeira, que o reencaminhe rumo à harmonia consigo mesmo e com os outros e o faça amar a vida juntamente com eles, na certeza consoladora de que, para além da morte, contemplará o esplendor da face do Cristo Ressuscitado durante toda a eternidade: Ele é "o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim" (Ap 22:13). Ele é a realização pessoal da aliança que Deus fez com o homem, graças à qual toda pessoa é criada "à imagem e semelhança de Deus" (Gen 1,27).

A quaresma não é apenas um tempo do calendário, mas o tempo do coração, "o tempo completo" (Mc 1,15), como Jesus proclama hoje.

É o "kairós", o tempo pessoal e definitivo da abundância da vida (Jo 10,10), o tempo da alegria inalienável e própria de Jesus, que vem da auto-realização no amor e na obediência à vontade do Pai .

"O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo: convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15). É o anúncio de um caminho em direção à meta mais desejável que existe: a felicidade duradoura nesta vida, que se tornará bem-aventurança eterna na outra.

Que o tempo esteja completo é coisa cujo significado se assemelha ao anúncio do nascimento: nasce algo que já se trazia por dentro, e, se o acolhemos como um dom de amor a ser cuidado o tempo todo, a nossa vida não conhecerá mais a tristeza da solidão.

"A alegria é o sinal infalível da presença de Deus", afirmava Leon Bloy, querendo dizer que a sua fonte, que jorra sem parar no profundo do coração, é o encontro diário com o Senhor Jesus.

Temos aqui um testemunho importante sobre isto: um doente terminal de aids, na Casa Dom da Paz, das Missionárias da Caridade, pediu o batismo. Quando o padre pediu dele uma expressão de fé, o doente murmurou: "O que eu sei é que eu sou infeliz, e que as irmãs são muito felizes, mesmo quando eu as insulto e cuspo nelas. Ontem eu finalmente perguntei o motivo dessa felicidade. Elas me responderam: Jesus. Eu quero esse Jesus, para ser feliz também" (Cardeal Timothy Dolan, Homilia na Jornada de Oração pelo colégio cardinalício, 17 de fevereiro de 2012).

O ser humano é concebido como um ser-para-a-alegria, e isso fica provado quando vemos que todas as crianças são espontaneamente felizes diante da face da mãe. Eu poderia dizer que isso acontece por causa do fato ontológico de que elas já conhecem a face da mãe há nove meses, porque Deus Pai-Mãe, que em Cristo "os escolheu antes da criação do mundo" (Ef 1,4), olha para elas desde a concepção com o seu rosto inefável de amor radiante, e nunca voltará o olhar para nenhum outro lugar até que o vejamos diretamente "como ele é" (1 João 3:2): "alegria completa na tua presença, doçura sem fim à tua direita" (Salmo 16, 11).

Pe. Angelo del Favero

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O pe. Angelo del Favero, cardiologista, co-fundou em 1978 um dos primeiros Centros de Ajuda à Vida nos arredores da Catedral de Trento, na Itália. Tornou-se carmelita em 1987, ordenou-se sacerdote em 1991 e foi conselheiro espiritual no santuário de Tombetta, perto de Verona. Atualmente se dedica à espiritualidade da vida no convento carmelita de Bolzano, na paróquia de Nossa Senhora do Monte Carmelo.