Quarta pregação de Quaresma: «A letra mata, o Espírito vivifica»

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CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 14 de março de 2008 (ZENIT.org).- Na manhã desta sexta-feira, na Capela "Redemptoris Mater", com a presença de Bento XVI, o pregador da Casa Pontifícia, padre Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap. proferiu a quarta pregação de Quaresma.

«A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Hebreus 4, 12) é o tema das meditações. As primeiras três pregações podem-se ler em Zenit, 22, 29 de fevereiro e 7 de março.

Quarta pregação

A letra mata, o Espírito vivifica

A leitura espiritual da Bíblia

1. A Escritura divinamente inspirada

Na segunda carta a Timóteo há a célebre afirmação: “Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Tm 3, 16). A expressão que vem traduzida por “inspirada por Deus”, ou “divinamente inspirada”, na língua original é uma palavra única, theopneustos, que contém juntos os dois vocábulos: Deus (Theos) e Espírito (Pneuma). Tal palavra tem dois significados fundamentais: um muito familiar e outro nem tanto, mas não menos importante que o primeiro.

O significado mais familiar é o passivo, aquele projetado em toda a tradução moderna: a Escritura é “inspirada por Deus”. Uma outra passagem do Novo Testamento elucida esse significado: “Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (2 Pe 1, 21). É, portanto, a doutrina clássica da inspiração divina da Escritura, aquela que proclamamos como artigo de fé no Credo, quando dizemos que o Espírito Santo “falou por meio dos profetas”.

Podemos representar com imagens humanas este evento misterioso da inspiração: Deus “toca” com seu dedo divino – isto é, com a sua vivente energia que é o Espírito Santo – aquele ponto recôndito, onde o espírito humano se abre ao infinito e àquele toque – em si simples e instantâneo como é Deus que o produz – se difunde como uma vibração sonora em toda faculdade do homem – vontade, inteligência, sonho, coração –, traduzindo-se em conceitos, imagens, palavras.

O resultado que, de tal modo, se obtém é uma realidade teândrica, isto é, plenamente divina e plenamente humana: as duas coisas intimamente ligadas, ainda que não “confusas”. O Magistério da Igreja – encíclica “Providentissimus Deus”, de Leão XIII e “Divino afflante Spiritu”, de Pio XII – diz que os dois estados, divino e humano, em si mantêm-se intactos. Deus é o autor principal porque assume a responsabilidade por aquilo que está escrito, determinando o conteúdo com a ação do Espírito; todavia, o escritor sagrado é ainda assim autor, no sentido pleno da palavra, porque colaborou intrinsecamente na ação, mediante uma normal atividade humana, de que Deus se serviu como instrumento. Deus – diziam os Padres – é como o músico que, tocando, faz vibrar a corda da lira; o som é todo trabalho do músico, mas ele não existe sem a corda da lira.

Desta obra maravilhosa de Deus é projetado, normalmente, quase só um efeito: a infalibilidade bíblica, isto é, o fato da Bíblia não conter nenhum erro, se entendemos corretamente o “erro” como ausência de uma verdade possível humanamente, em um determinado contexto cultural, tendo em conta o gênero literário empregado, e, portanto, exigível da parte de quem escreve. Mas a inspiração bíblica baseia-se mais além da infalibilidade da palavra de Deus (que é algo de negativo); baseia sua inexorabilidade, sua força e validade divina naquilo que Agostinho chamava de mira profunditas, a maravilhosa profundidade [1].

Então somos preparados para descobrir agora outro significado da inspiração bíblica. Gramaticalmente, o particípio theopneustos é ativo, não passivo. A própria tradição soube colher em certo momento este significado ativo. A Escritura, disse Santo Ambrósio, é theopneustos­ não só porque é “inspirada por Deus”, mas porque “exala Deus”, porque transpira Deus! [2]

Falando da criação, Santo Agostinho diz que Deus não fez tudo e depois se foi, mas que então “vem a ela, permanece nela” [3]. Assim é com a palavra de Deus: vem de Deus, que permanece nela e ela n’Ele. Depois de ter inspirado a Escritura, o Espírito Santo é como que contido nela, a habita e a anima com seu sopro divino. Heidegger disse que “a palavra é a morada do Ser”, nós podemos dizer que a Palavra (com letra maiúscula) é a casa do Espírito.

A constituição conciliar “Dei Verbum” recolhe essa vertente da tradição quando diz que as Escrituras são “inspiradas como são por Deus (inspiração passiva!), e exaradas por escrito duma vez para sempre, continuam a dar-nos imutavelmente a palavra do próprio Deus, e fazem ouvir a voz do Espírito Santo através das palavras dos profetas e dos Apóstolos” (inspiração ativa!) [4].

2. Docentismo e ebionismo bíblico

Agora devemos tocar um problema muito delicado: como escutar as Escrituras de modo que elas realmente “emanem” para nós o Espírito que contêm. Dissemos que a Escritura é uma realidade teândrica, ou seja, divino-humana. A lei de toda realidade teândrica (como são, por exemplo, Cristo e a Igreja) é que não se pode descobrir nessa o divino se não se passa através do humano. Não se pode descobrir em Cristo a divindade, a não ser através de sua concreta humanidade.

Aqueles que, antigamente, caíram no docentismo, desprezando, de Cristo, o corpo e a especificidade humana como simples “aparência” (dokein), perderam sua realidade profunda, e, no lugar de um Deus vivente feito homem, difundiram sua distorcida idéia de Deus. Do mesmo modo, não se pode, na Escritura, descobrir o Espírito, a não ser passando através da letra, isto é, através do concreto revestimento humano que a palavra de Deus assume nos diversos livros e autores inspirados. Não se pode descobrir ali o significado divino, se não se parte do significado humano, da experiência do autor humano, Isaías, Jeremias, Lucas, Paulo, etc. Assim se vê a plena justificação do imenso esforço do estudo e da pesquisa entorno da Escritura.

Mas esse não é o único risco que a exegese bíblica corre. Diante da pessoa de Jesus, não havia apenas o perigo do docentismo, ou seja, de negligenciar o humano; havia também o perigo de permanecer nisso, de não ver nele o humano e não descobrir a dimensão divina do Filho de Deus. Havia, portanto, o perigo do ebionismo. Para os ebionitas (que eram judeus-cristãos), Jesus era, sim, um grande profeta, o maior profeta, mas não mais. Os Padres da Igreja os chamaram de “ebionitas” (ebionim, pobres) porque diziam que eram pobres de fé.

Isso ocorre diante da Escritura. Existe um ebionismo bíblico, isto é, a tendência a permanecer na literatura, considerando a Bíblia um livro excelente, o mais extraordinário livro humano, mas apenas isso. Infelizmente, nós vivemos o risco de reduzir a Escritura a uma só dimensão. A ruptura do equilíbrio, hoje, não tende ao docentismo, mas ao ebionismo.

A Bíblia vem explicada por muitos estudiosos voluntariamente apenas com o método histórico-crítico. Não falo dos estudiosos não-crentes, para os quais isso é normal, mas dos estudiosos que professam a fé. A secularização do sagrado em nenhum caso se revela tão aguda como na secularização do Livro sagrado. Ora, pretender compreender exaustivamente a Escritura, estudando-a apenas com o instrumental da análise histórico-filológica, é como pretender descobrir o mistério da presença real de Cristo na Eucaristia baseando-se unicamente na análise química da hóstia consagrada! A análise histórico-crítica, ainda que se deva fazer com o máximo de perfeição, não representa, na realidade, mais que o primeiro grau do conhecimento da Bíblia, aquele resguardado à literatura.

Jesus afirma solenemente no Evangelho que Abraão viu “o meu dia” (cf. Jo 8, 56), que Moisés “escreveu a meu respeito” (Jo 5, 46), que Isaías “teve a visão de sua glória e dele falou” (cf. Jo 12, 41), que os profetas e os salmos e toda a Escritura falam dele (cf. Lc 24, 27.44; Jo 5, 39), mas hoje em dia, uma certa exegese científica hesita em falar de Cristo, não o vê praticamente em nenhuma passagem do Antigo Testamento, ou há medo de dizer que o vê, por causa de desqualificar-se “cientificamente”.

O inconveniente muito sério de uma certa exegese exclusivamente científica é que essa muda completamente a conexão entre exegeta e a palavra de Deus. A Bíblia feita um objeto de estudo que o professor deve “controlar” e em frente ao qual, como se diz de um homem de ciência, deve permanecer “neutro”. Mas neste caso único não é permitido ficar “neutro” e não é dado “dominar” a matéria; é necessário especialmente deixar-se dominar por essa. Dizer de um estudioso da Escritura que ele “domina” a palavra da Deus, se se pensar bem, é que quase dizer uma blasfêmia.

A conseqüência de tudo isso é fechar e desprender-se da própria Escritura; essa torna a ser um livro «sigiloso», um livro «velado», porque – diz São Paulo – o véu foi desvelado em Cristo, quando da conversão ao Senhor (cf. 2 Cor 3, 15-16). Sucede com a Bíblia como a certos tipos de plantas que fecham suas folhas quando algum corpo estranho as toca, ou como certas conchas que se fecham e protegem a pérola que há dentro. A pérola da Escritura é Cristo.

Não se explicam de outro modo tantas crises de fé de estudiosos da Bíblia. Quando se sonda o porquê da pobreza e aridez espiritual que impera em tantos seminários e locais de formação, não se demora para descobrir que uma das causas principais é o modo como é ensinada neles a Escritura. A Igreja é viva e vive da leitura espiritual da Bíblia; quebrado este canal que alimenta a vida de piedade, zelo, fé, tudo resseca. Não se entende a liturgia que é toda construída sobre um uso espiritual da Escritura enquanto esta é vivida separada da formação pessoal e negada naquilo que se é ensinado hoje em primeiro lugar em classe.

3. O Espírito dá a vida

Um sinal de grande esperança é que a exigência de uma leitura espiritual e de fé da Escritura começa já a ser advertida justamente por alguns eminentes exegetas. Um deles escreveu: «É urgente que quantos estudam e interpretam a Escritura se interessem de novo pela exegese dos Padres, para redescobrir, além de seu método, o espírito que os animava, a alma profunda que inspira sua exegese; à sua escola devemos começar a interpretar a Escritura, não somente do ponto de vista histórico e crítico, mas igualmente na Igreja e pela Igreja» (I. de la Potterie). P. H. de Lubac, em sua monumental história de exegese medieval, colocou na luz a coerência, a solidez e a extraordinária fecundidade da exegese espiritual praticada pelos Padres antigos e medievais.

Diz então que os Padres não fizeram, neste campo, mais do que aplicar (com os instrumentos imperfeitos que tinham à disposição) o puro e simples ensinamento do Novo Testamento; não são, em outras palavras, os iniciadores, mas os continuadores de uma tradição que encontraram entre os fundadores João, Paulo e o próprio Jesus. Eles não só praticaram todo o tempo uma leitura espiritual das Escrituras, isto é, uma leitura em referência a Cristo, mas também deram a justificação de tal leitura, declarando que todas as Escrituras falam de Cristo (cf. Jo 5, 39), que nele era já «o Espírito de Cristo» que era a obra e se exprimia através dos profetas (cf. 1 Pd 1, 11), que tudo, no Antigo Testamento, é dito «por alegoria», isto é, em referência à Igreja (cf. Gal 4, 24), ou «por nossa admoestação» (1 Cor 10, 11).

Dizer, portanto, leitura «espiritual» da Bíblia não significa dizer leitura edificante, mística, subjetiva, ou, pior ainda, fantasiosa, em oposição à leitura científica que seria, ao contrário, objetiva. Essa, ao contrário, é a leitura mais objetiva que existe, seja porque se baseia sobre o Espírito de Deus, não sobre o espírito do homem. A leitura subjetiva da Escritura (aquela baseada no livre exame) é propagada justamente se é abandonada a leitura espiritual e lá onde tal leitura foi mais claramente abandonada.

A leitura espiritual é, portanto, algo bem preciso e objetivo; é a leitura feita sob a direção, ou à luz do Espírito Santo que inspirou a Escritura. Essa se baseia sobre um evento histórico e, isto é, sobre o ato redentor de Cristo que, com sua morte e ressurreição, cumpre o projeto de salvação, realiza todas as figuras e as profecias, revela todos os mistérios escondidos e oferece a verdadeira chave de leitura de toda Bíblia. O Apocalipse exprime tudo isso com a imagem do Cordeiro imolado que toma nas mãos o livro e rompe os sete selos (cf. Ap. 5, 1ss.).

Quem quisesse, depois dele, continuar a ler a Escritura prescindindo deste ato, assemelha-se a alguém que continua a ler uma partitura musical em clave de «fá», depois que o compositor introduziu na peça a clave de «sol»: cada nota daria, nesse ponto, um som falso e destoado. Ora, o Novo Testamento chama a clave nova «o Espírito», enquanto define a clave velha «a letra», dizendo que a letra mata, mas o Espírito vivifica (2 Cor 3, 6).

Contrapor entre si a «letra» e o «Espírito» não significa contrapor entre si o Antigo e Novo Testamento, de forma que o primeiro represente só a letra e o segundo só o Espírito. Significa, muito mais, contrapor entre si dois modos diversos de ler, seja o Antigo como o Novo Testamento: o modo que prescinde de Cristo e o modo que julga, ao invés, tudo à luz de Cristo. Por isso, a Igreja pode valorizar um e outro Testamento, porque ambos falam de Cristo.

4. Isto que o Espírito diz à Igreja

A leitura espiritual não se refere somente ao Antigo Testamento; em um sentido diverso refere-se também ao Novo Testamento; também esse deve ser lido espiritualmente. Ler espiritualmente o Novo Testamento significa lê-lo à luz do Espírito Santo doado em Pentecostes à Igreja para conduzi-la a toda a verdade, isto é, à plena compreensão e atuação do Evangelho.

O próprio Jesus explicou, por antecipação, a relação entre sua palavra e o Espírito que ele haveria de enviar (também não devemos pensar que o tenha feito necessariamente nos termos precisos que usa, a este respeito, o evangelho de João). O Espírito – lê-se em João – «ensinará e fará recordar» tudo o que Jesus disse (cf. Jo 14, 25 s.), isto é, fará compreender a fundo, em todas as suas implicações. Ele «não falará de si mesmo», ou seja, não dirá coisas novas em respeito àquelas ditas por Jesus, mas – como disse o próprio Jesus – tomará o que é meu e o revelará (Jo 16, 13-15).

Nisto é dado ver como a leitura espiritual integra e ultrapassa a leitura científica. A leitura científica conhece só uma direção que é a da história; explica, de fato, o que vem depois, à luz do que vem antes; explica o Novo Testamento à luz do Antigo que o precede, e explica a Igreja à luz do Novo Testamento. Boa parte do esforço crítico em torno da Escritura consiste em ilustrar as doutrinas do Evangelho à luz das tradições veterotestamentárias, das exegeses rabínicas etc.; consiste, em suma, na pesquisa nas fontes (Sobre este princípio é baseado o Kittel e tantos outros subsídios bíblicos).

A leitura espiritual reconhece plenamente a validade desta direção de pesquisa, mas a essa acrescenta uma outra inversa. Essa consiste em explicar o que vem antes à luz do que vem depois, a profecia à luz da realização, o Antigo Testamento à luz do Novo e o Novo Testamento à luz da Tradição da Igreja. Nisto a leitura espiritual da Bíblia encontra uma singular confirmação no princípio hermenêutico de Gadamer da «história dos efeitos» (Wirkungsgeschichte), segundo o qual para entender um texto é necessário ter em conta os efeitos que esse produziu na história, inserindo-se nesta história e dialogando com ela [5].

Só depois que Deus realizou seu plano, entende-se completamente o sentido do que o preparou e prefigurou. Se toda árvora, como disse Jesus, é reconhecida por seus frutos, também a palavra de Deus não pode ser conhecida plenamente, antes de ter visto os frutos que produziu. Estudar a Escritura à luz da Tradição é um pouco como conhecer a árvore por seus frutos. Por isso, Orígenes dizia que «o sentido espiritual é aquele que o Espírito dá à Igreja» [6]. Isso se identifica com a leitura eclesial ou igualmente com a própria Tradição, se entendemos por Tradição não só pelas declarações solenes do Magistério (que concernem, do restante, pouquíssimos textos bíblicos), mas também a experiência de doutrina e de santidade na qual a palavra de Deus é, como que, novamente encarnada e «explicada» no curso dos séculos, por obra do Espírito Santo.

Aquilo que ocorre não é, portanto, uma leitura espiritual que tome o posto da atual exegese científica, com um retorno mecânico à exegese dos Padres; é muito mais uma nova leitura espiritual correspondente ao enorme progresso registrado pelo estudo da «letra». Uma leitura, em suma, que tenha o modo e a fé dos Padres, ao mesmo tempo, a consistência e a seriedade da atual ciência bíblica.

5. O Espírito que sopra dos quatro ventos

Diante do monte de ossos áridos, o profeta Ezequiel ouve a pergunta: «Podem essas ossadas reviverem?» (Ez 37, 3). A mesma pergunta fazemo-nos nós hoje: poderá a exegese, árida pelo grande excesso de filologismo, reencontrar o ardor e a vida que tinha em outros momentos da história da Igreja? O Padre de Lubac, depois de ter estudado a grande história da exegese cristã, conclui muito tristemente, dizendo que faltam a nós, modernos, as condições para poder ressuscitar uma leitura espiritual como a dos Padres; falta-nos aquela fé cheia de ardor, aquele senso de plenitude e da unidade que tinham esses, para aquele que quer imitar hoje sua audácia haveria um risco quase de uma profanação, faltando-nos o espírito do qual procediam aquelas coisas [7].

Contudo, ele não fecha de todo a porta à esperança e diz que «se se quer reencontrar alguma coisa daquilo que foi nos primeiros séculos da Igreja a interpretação espiritual das Escrituras, necessita reproduzir, antes de tudo, um movimento espiritual» [8]. A distância de algum decênio, e com o concílio Vaticano II no meio, parece-me corresponder, nestas últimas palavras, uma profecia. Aquele «movimento espiritual» e aquele «ardor» começaram a se reproduzir, mas não porque o homem o houvesse programado ou previsto, mas porque o Espírito se pôs a soprar de novo, inesperadamente, dos quatro ventos sobre ossos áridos. Contemporaneamente ao reaparecimento dos carismas, assiste-se ao reaparecimento também da leitura espiritual da Bíblia e é, também isto, um fruto, dos mais saborosos, do Espírito.

Participando de encontros bíblicos e de oração, fico atônito ao escutar, às vezes, reflexões sobre a palavra de Deus totalmente análogas às que fazia a seu tempo Orígenes, Agostinho ou Gregório Magno, ainda que em uma linguagem mais simples. As palavras sobre tempo, sobre «tenda de Davi», sobre Jerusalém destruída e reedificada depois do exílio são aplicadas, com toda simplicidade e pertinência, à Igreja, a Maria, à própria comunidade ou à própria vida pessoal. Isto que se narra dos personagens do Antigo Testamento induz a pensar, por analogia ou por antítese, em Jesus e o que se narra de Jesus é aplicado e atualizado em referência à Igreja e ao crente por si só.

Muitas perplexidades nos confrontos da leitura espiritual da Bíblica nascem do não ter em conta a distinção entre explicação e aplicação. Na leitura espiritual, mais que pretender explicar o texto, atribuindo-lhe um sentido estranho às intenções do autor sagrado, trata-se, em geral, de aplicar ou atualizar o texto. É isto que vemos em ação já no Novo Testamento nos confrontos das palavras de Jesus. Às vezes se nota que, de uma mesma parábola de Cristo, são feitas aplicações diversas nos sinóticos, segundo as necessidades e os problemas da comunidade para a qual cada um escreve.

As aplicações dos Padres e as de hoje não têm, evidentemente, o caráter canônico destas aplicações originais, mas o processo que leva a esta é o mesmo e se baseia sobre o fato de que as palavras de Deus não são palavras mortas, «para conservar no óleo», diria Péguy; são palavras «vivas» e «ativas», capazes de libertar sentidos e virtualidades escondidas, em resposta a perguntas e situações novas. É uma conseqüência daquela que chamei «inspiração ativa» da Escritura, isto é, do fato que essa não é só «inspirada pelo Espírito», mas «transpira» também o Espírito e o transpira em continuação, se lida com fé. «A Escritura, disse São Gregório Magno, cum legentibus cresciti, cresce com aquele que a lê» [9]. Cresce, permanecendo intacta.

Termino com uma oração que senti em fazer uma vez para uma mulher, depois que foi lido o episódio de Elias que, saindo ao céu, deixa a Eliseu dois terços de seu espírito. É um exemplo de leitura espiritual no sentido que apenas expliquei: «Obrigado, Jesus, que seguindo para o céu não deixou somente dois terços de seu Espírito, mas todo seu Espírito! Obrigado por que não deixou para um único discípulo, mas para todos os homens!»

Notas

[1] Testi in H. de Lubac, Histoire de l’exégése médiévale, I,1, Paris,Aubier 1959, pp. 119 ss.

[2] S. Ambrogio, De Spiritu Sancto, III, 112.

[3] S. Agostino, Conf . IV, 12, 18.

[4] Dei Verbum, 21.

[5] cf. H.G. Gadamer, Wahrheit und Methode, Tbingen 1960.

[6] Origene, In Lev. hom. V, 5.

[7] H. de Lubac, Exégèse médiévale, II, 2, p. 79.

[8] H. de Lubac, Storia e spirito, Roma 1971, p. 587.
[9] S. Gregorio Magno, Commento morale a Giobbe, 20,1 (CC 143A, p. 1003).


[Traduzido do original em italiano por José Caetano e Alexandre Ribeiro]