"Que a Igreja seja não apenas compreendida, mas amada"

Entrevista com Prof. Hermes Rodrigues Nery, autor do livro "A Igreja é viva e jovem" - Parte II

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 597 visitas

"A Igreja é viva e jovem", é o nome do livro de autoria do Prof. Hermes Rodrigues Nery, Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e do Movimento Legislação e Vida da Diocese de Taubaté.

O novo livro, que será lançado na JMJRio 2013, é prefaciado por Dom Antonio Augusto Dias Duarte, bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, com a apresentação de Dom Carmo João Rhoden, bispo da Diocese de Taubaté.

A obra, publicada pela editora Linotipo Digital, traz como subtítulo: "uma carta aos jovens do século 21 sobre a Igreja e a presença de Deus na história".

A um mundo repleto de “Forças hostis, cada vez mais sofisticadas e com amplo poder tecnológico”, que buscam “uma revolução cultural global que visa desconstruir a própria identidade do ser humano como pessoa” este livro procura mostrar “a necessidade de voltarmos a compreender o significado de ser cristão, para que a Igreja seja não apenas compreendida, mas amada”, disse em entrevista a ZENIT o Prof. Hermes.

Publicamos a seguir a íntegra da segunda parte da entrevista. A primeira parte pode ser lida clicando aqui.

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ZENIT - Para refutar os ateus, você apresenta em seu livro Deus como o protagonista da História...

Prof. Hermes Rodrigues Nery - Exato. E não somente com exemplos bíblicos, mas também com os da atualidade, comprovando o mistério da presença de Deus em nosso meio, hoje, e através da Igreja, como esta presença é viva e atuante. 

Os ateus falam de Deus como uma idéia-força ou uma grande projeção do desejo humano. Mas o relato bíblico o apresenta como Pessoa, alguém que toma iniciativa, que não é indiferente com a nossa sorte, que interpela e intervém.  Desde o início, como explica Bento XVI em seu livro Jesus de Nazaré, “o núcleo de toda a tentação (...) é colocar Deus de lado, o qual, junto às questões urgentes da nossa vida, aparece como algo secundário, se não mesmo supérfluo e incômodo”.

A brevidade dos fatos como estão contados no Gênesis fala do essencial, da coerência dos acontecimentos: colocado Deus de lado, o desterro foi inevitável. Mas não foi um ponto final. É justamente aqui que começa a história da salvação. E Deus será o primeiro a agir.

“Quem quiser entender a Escritura dentro do espírito no qual ela foi escrita terá de considerar o conteúdo e a unidade de toda a Escritura”, explica Ratzinger. Não compreendendo a pedagogia de Deus, os ateus partem para as generalizações e reducionismos.

Saramago questiona o porquê da predileção de Deus por Abel e mesmo depois de Caim ter matado o irmão, ficou sem entender o motivo pelo qual Deus lhe fez um sinal na testa para garantir proteção a ele, afirmando que com aquele sinal ninguém lhe tiraria a vida. Mais uma vez, a narrativa é concisa e confirma a máxima de S. Irineu: “a glória de Deus é o homem vivo!" 

A Sagrada Escritura mostra o modo de Deus se relacionar conosco. Com Noé, foi imperativo: “Faça a arca!, porque ele era justo e íntegro e estava com Deus. Para Noé, Deus não era secundário, por isso foi estabelecido com ele a aliança como um sinal de vida para todos. E novamente mantém a marca de Deus como presença, d’Aquele que É, sempre, o protagonista da História.

ZENIT - Você também constata que os jovens anseiam por Deus. A JMJ corresponde a este anseio? 

Prof. Hermes Rodrigues Nery - Sim. A Jornada Mundial da Juventude foi um dos grandes feitos do beato João Paulo II. Os jovens precisam deste momento de encontro, deste acontecimento. Pertenço a uma geração que foi tocada pela magnanimidade de João Paulo II, com quem comunguei na Missa de Natal, na basílica de São Pedro, na missa de Natal de 1993.

Na viagem de volta ao Brasil, li quase toda a encíclica Veritatis Splendor, que ganhei de presente. A partir de então fui um de tantos milhões de jovens que se consideraram filhos espirituais de João Paulo II. Ele foi para nós a referência do pai que precisávamos, numa época de ataques à família, como tão bem ele diagnosticou em sua lúcida encíclica Evangelium Vitae.

Cada Jornada Mundial da Juventude é um tributo de gratidão a este grande papa, a este homem santo que nos fixou no seio da Igreja, como uma agulha de imantação.  Eu mesmo não fui mais o mesmo depois do encontro pessoal com João Paulo II, que me levou a ter o encontro pessoal e definitivo com Jesus Cristo. Em 1993, eu tinha acabado de me formar na PUC-SP, e estava - como muitos jovens da minha geração - sem saber ao que me ater. E então João Paulo II mostrou-nos o caminho, verdade e vida que é Jesus Cristo. E hoje procuro seguir este caminho. 

Em conversa com muitos jovens no dia-a-dia, nas mais variadas situações, é evidente o fato de quantos andam à procura de presença de Deus no nosso tempo. Mesmo em meio a tantos apelos do imediatismo e do consumismo, os jovens têm percepção e aderem com entusiasmo àquilo que dá a eles um sentido de vida verdadeiramente humano.

Quando param para prestar atenção e não embarcam na primeira proposta que aparece, e quando conseguem fazer o discernimento, então compreendem o sentido de Deus, e não há mais portanto nenhum outro verdadeiro conhecimento que lhes dê um sentido à existência.

No meu livro, procuro fazer um percurso  deste histórico, de Deus como presença viva na história. E todos que tiveram o encontro pessoal com Deus e buscaram responder ao seu chamado, descobriram o verdadeiro sentido da vida. Abraão foi o primeiro a dar esta resposta e a conhecer “Aquele que tudo transcende e a tudo dá vida”. Ele deu consentimento ao chamado e tudo então aconteceu. Houve uma aliança e uma promessa, que até hoje se cumpre, o que comprova que a história da salvação permanece uma história em curso, ainda acontecendo em nossos dias, e cada um de nós somos chamados a participar desta história magna em que Deus é sempre protagonista.