Que o sacerdote morto na Turquia não seja assassinado «pela segunda vez»

Apelo do diretor de «AsiaNews», o sacerdote Bernardo Cervellera

| 858 visitas

ROMA, quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006 (ZENIT.org).- Há risco de que o padre Andrea Santoro seja assassinado «pela segunda vez» se for diluído ou inutilizado «o sentido de seu martírio», alerta o padre Bernardo Cervellera, diretor da agência especializada no meio asiático «AsiaNews» (do Pontifício Instituto de Missões Estrangeiras, PIME).



Em um editorial difundido na quarta-feira, o missionário do PIME considera que «a morte do padre Andrea Santoro», assassinado no domingo passado «pelas costas enquanto orava» em sua igreja dedicada a Santa Maria em Trabzon (cidade turca do Mar Negro), «era quase de se prever».

O padre Santoro, de 60 anos, era sacerdote «Fidei donum» da diocese de Roma na Turquia. Os sacerdotes diocesanos «fidei donum» (dom da fé) são aqueles enviados pelas dioceses mais antigas às igrejas jovens de outros continentes como missionários.

Cada vez que «se cria tensão entre o mundo islâmico e o mundo ocidental, quem paga são sempre os cristãos», reflete o padre Cervellera --também foi diretor da agência «Fides» da Congregação vaticana para a Evangelização dos Povos--.

«Eles --ainda que pertençam a uma comunidade mais antiga que o islã-- são sempre apresentados como o braço do Ocidente» e também «oferecem uma característica importante para quem quer golpeá-los: estão indefesos, inermes, inclusive manifestam amor por seus perseguidores. São a vítima precisa», denuncia.

Por isso, em sua opinião, «era quase previsível que na tempestade islâmica causada pela publicação das charges sobre Maomé algum cristão pagasse».

E ainda que Ankara já prendeu um jovem como suposto autor deste crime, «detrás da mão assassina há uma conivência maior --considera o missionário--. Está sobretudo a dos governos que sopram o fogo do escândalo islâmico. As violências na Síria, Líbano, Irã, Iraque, Afeganistão, é difícil pensar que tenham ocorrido sem o apoio, o respaldo, a satisfação de Damasco e Teerã».

«Nosso temor agora é que o padre Andrea corra o risco de ser assassinado uma segunda vez, diluindo ou fazendo inútil o sentido de seu martírio», reconhece.

Voz de alarme: um martírio inutilizado?
Nesta linha o missionário do PIME aponta o «primeiro passo que o governo turco deu e todos aqueles que quiseram minimizar» a morte do sacerdote, «dizendo que foi causada só por um jovem desequilibrado e que o elemento religioso não é importante».

De todas as formas, o padre Cervellera recorda que foi o próprio jovem quem confessou na terça-feira que o impulsionou o ódio suscitado pelas charges de Maomé publicadas na imprensa ocidental. E nesta mesma quinta-feira «AsiaNews» informa amplamente do perfil do detido e de que as reconstruções da imprensa turca evidenciam os vínculos daquele com ambientes do extremismo religioso.

Ainda dizendo que não implique o elemento religioso, «Ankara pôs guardas e vigilância em todas as igrejas e os locais religiosos do país», informa o padre Cervellera, que não esquece que «personalidades do governo italiano declararam aos meios de comunicação que a “Turquia é um país muito secularizado e não se deve ver no assassinato do sacerdote um gesto anticristão”».

E o missionário descreve outro passo para com a «inutilização» desta morte na atitude do Parlamento Europeu, «que desejoso de englobar a Turquia na comunidade econômica, faz pedidos sobre a liberdade de mercado, mas se esquece de reclamar plena liberdade religiosa a um país que --“muito leigo”-- não permite às igrejas cristãs terem seminários, escolas, possuir casas ou igrejas, sem garantir estabilidade a pessoas e comunidades que viviam na Turquia muitos séculos antes que o islã».

«Um passo mais para matar o testemunho do padre Andrea é dado por quem o transforma em um profeta do multiculturalismo e do diálogo a priori, temerosos de afirmar a clara e bela identidade cristã deste sacerdote», denuncia.

E enfatiza em como Bento XVI recordou na audiência da quarta-feira «a alma sacerdotal» do padre Andrea e seu «comovedor testemunho de amor a Cristo e a sua Igreja».

«Com efeito, ao ler as reflexões do sacerdote --constata-- se percebe que foi à Turquia não impulsionado pelo “diálogo” simplesmente, ou pelo desejo de fazer o bem aos pobres e desamparados, mas pelo desejo de fazer reviver a Igreja, corpo de Cristo. É daí que nasce também todo seu compromisso para com os pobres e as prostitutas, seu diálogo com o islã, mas também com o judaísmo».

O padre Cervellera dá aos leitores um parágrafo --enviado a «AsiaNews»-- escrito pelo sacerdote assassinado, que explica o que é o diálogo: «Europa e Oriente Médio (inclusive a Turquia), cristianismo e islã devem falar de si mesmos, de sua própria história passada e recente, do modo de conceber o homem e a mulher, da própria fé. Devem confrontar-se acerca da imagem que têm de Deus, da religião, de cada indivíduo, da sociedade, acerca de como conjugam o poder de Deus e os poderes do Estado, os deveres do homem ante Deus e os direitos que Deus, por graça, conferiu à consciência humana».

Umas palavras surpreendentes por sua atualidade, diz o padre Cervellera, pois por um lado está «uma Europa que se esquece de si, da própria tradição, desrespeitosa da própria história e superficial no olhar às outras religiões».

E por outro lado está «um islã que não sabe falar de si, nem olha para si, ao indivíduo, à mulher, aos poderes de Deus e do Estado, e segue deixando sobre o outro, sobre os outros, as culpas de seu próprio atraso», acrescenta.

Adverte o padre Cervellera que «se Ocidente quer verdadeiramente derrotar o fundamentalismo, deve trabalhar para exigir dos países islâmicos plena liberdade de ação e de palavra aos cristãos e às demais religiões».

«O mesmo devem fazer os países do Oriente --sugere--, se quiserem a sério testemunhar que o islã é uma religião da paz e da tolerância».

«O padre Andrea Santoro havia oferecido sua carne para que “Cristo habitasse na Turquia”, como disse uma vez. Em sua morte, Cristo viveu na Turquia até o sacrifício da cruz. Por isto, como expressou também o Papa, o martírio do padre Andrea contribuirá “à causa do diálogo entre as religiões e da paz entre os povos”», conclui o diretor de «AsiaNews».