Quem viu primeiro Cristo ressuscitado? Maria Madalena ou a Virgem Maria?

Explica, Pe Rafael Maria, especialista em Mariologia

Recife, (Zenit.org) Pe. Rafael Maria, osb | 1479 visitas

Na nossa Tese de doutorado em Teologia com especialização em Mariologia junto a Faculdade Teológica Marianum de Roma com o título: «O fundamento teológico do culto a Sancta Maria Gaudiorum (Nossa Senhora dos Prazeres). História, liturgia, tradição e arte, 2 Vol. Nonsolocopia,Roma 2008», procuramos dar um sentido teológico a um culto mariano tão escaço na liturgia católica no período pascal. 

Nas mais variadas formas os santos Padres, Papas, Teólogos, Historiadores, Poetas e Autores eclesiásticos, defenderam a pia tradição de que Cristo, antes de aparecer a qualquer pessoa na terra depois de sua ressurreição, quis visitar sua Mãe. Muitos são os argumentos e teses que estes autores propuseram, havendo até controvérsias no século XX (Cf. G. M. ROSCHINI, Intorno all’apparizione di Gesù risorto alla sua SS. Madre, in Palestra del Clero 19 (1940) 235-246). São conscientes de que a fonte mais apta a desenvolve-la é a Tradição, pois a Sagrada Escritura nada nos oferece sobre esta pia tradição. Podemos encontrar sustento nesta teoria, pois foi assim que a evolução dos dogmas marianos começaram, exceto o da Maternidade divina de Maria. Não quero dizer que o tema da Aparição de Cristo ressuscitado a sua Mãe, que vem no intuito de consolá-la, tema central da invocação à Sancta Maria Gaudiorum, entre no esquema de um futuro dogma mariano, embora alguns autores já a definam como “certeza plena”, mas que seguindo o pensamento do Papa Pio XII, com relação ao dogma da Assunção de Maria, nos estimula a elementos importantes para fundamentar tal invocação quando diz: “ ... os santos Padres e os grandes Doutores nas homilias e nos discursos dirigidos ao povo (...) não se limitaram como primeira fonte a doutrina; mas falaram desta como coisa conhecida e aceita pelos fiéis; as esclareceram melhor; sublinharam e aprofundaram o sentido e o objeto, declarando especial aquilo que muitas vezes os livros litúrgicos havia somente ligeiramente indicado… (PIO XII, Costituzione Apostólica Munificentissimus Deus nº 20). Assim sendo, a devoção e culto a Nossa Senhora dos Prazeres celebrada na Segunda-feira da Segunda Semana da Páscoa segue esta característica assinalada pelo papa.

O professor Aristides Serra, orientador do nosso trabalho científico, apresenta no volume Dimensioni mariane del mistero pasquale cerca de cinquenta autores (50), que dão testemunho do “Et prima vidit”, e que nos motivou a buscar ainda mais testemunhos e acrescentamos agora mais de duzentas (200), sem contar com mais de quatrocentos e cinquenta (450) imagens no campo pictórico, xilográfico, vitrais, baixo-relevo. Devemos também levar em consideração os onze (11) testemunhos dos Formulários litúrgicos datados do séc. XVI ao XX, assim como as diversas expressões da piedade popular, ainda viva nos nossos dias, a “lex vivendi”, de modo particular na Itália e na Espanha.

Tal intenção é de demonstrar o valor histórico e teológico em que a devoção a Nossa Senhora dos
Prazeres ou da Alegria pascal (NSP) está fundamentada.

SÍNTESE TEOLÓGICA DO SENSUS FIDELIUM

Alguns pontos de relevo devem ser apresentados, a fim de encontrar uma visão de conjunto do pensamento dos Autores de ontem e de hoje, em relação à pia tradição da participação de Maria na alegria da ressurreição. 

Podemos apresentar um certo esquema ou divisão dos autores que compuseram a participação de Maria na ressurreição do Filho. Uma parte já apresentamos no primeiro capítulo da Tese no Aspecto Patrístico. Continuando, podemos ainda dizer do seguinte modo: tanto no Oriente quanto no Ocidente cristão, existe uma variação na reflexão, com uma dinâmica própria e segura, que os Autores do séc. IV ao séc. XXI nos oferecem em favor de uma aparição/encontro de Cristo ressuscitado a sua Mãe, é qualquer coisa que merece ser valorizado. Embora os 200 Autores apresentados não sejam unânimes sobre onde, como e de que forma, Jesus após sua ressurreição se mostrou a sua Mãe, são unânimes em afirmar que deve ter havido um encontro consolador com o Filho. São de comum acordo na função desta manifestação: consolar e alegrar Aquela que participara de sua encarnação, paixão e morte. Difere portanto das aparições a Madalena, as Mulheres e aos discípulos, pois estes não acreditaram e precisavam ser confirmados na fé.

É um argumento subtil, pois o esquema proposto pelos Evangelistas (cf. Mc, 16, 1-8; Mt, 28, 1-20; Lc 24, 1-12 e Jo 20, 1-18), parece não dar espaço à maternidade ou a uma relação familiar durante a sepultura e a ressurreição de Jesus. É um qualquer de contradição diante do que o próprio Jesus viveu e os próprios Evangelistas tão bem evidenciaram em alguns momentos da vida de Jesus com relação à sua sensibilidade ao aspecto familiar. Tomemos por exemplo a ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5, 22-24.35-43; Mt 9, 18s; Lc 8, 41s), a ressurreição do filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 11-17), a filha da Sírio-Fenícia que é libertada do demônio (cf. Mc 7, 24-30; Mt 15, 21-39), a cura de um jovem (cf. Mc 9, 14-29; Mt 17, 14-21) a ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11, 1-45).

Os Autores procuraram de alguma forma entender ou esclarecer que Cristo oferecendo a sua Mãe
o primeiro encontro ou lhe aparecendo após a ressurreição, não danifica a função materna de Maria de Nazaré nos acontecimentos salvíficos operados por Ele. A alegria/consolação de Maria nos conduz ao aprofundamento na fundamentação bíblica da consolação, que tal alegria proveniente da ação do Espírito Santo conduz a Igreja na provação a viver aqui e agora a consolação e a alegria de esperar no Senhor, como Maria, imagem da Igreja, segundo a interpretação de Sedúlio. O centro do acontecimento não é Maria, mas Cristo, pois o seu júbilo pascal e definitivo depende exclusivamente do Filho, como nos indica ainda hoje a liturgia da Igreja: «Ó Deus, que vos dignastes alegrar o mundo com a ressurreição de vosso Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, fazei que, pela intercessão Virgem Maria sua Mãe, cheguemos as alegrias da vida eterna». Nossa Senhora dos Prazeres, rogai por nós!

Pe. Rafael Maria é diplomado em “Cultura Teológica Espiritual” pela Pontifícia Faculdade
Teológica Teresianum – Roma e doutor em “Mariologia” pela Pontifícia Faculdade Teológica
Marianum-Roma. Leciona um «Curso de Mariologia» via internet cf. www.cursoscatolicos.com.br. Para maiores informações: d.rafaelmariaosb@hotmail.com