Questão da ética na informação eclesiástica

O jornalista Fabrizio Mastrofini confronta o tema da infoética

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Por Mirko Testa

ROMA, terça-feira, 18 de maio de 2010 (ZENIT.org) - Faz sentido continuar discutindo sobre uma possível objetividade da informação? Ou é preferível que os jornalistas sigam a uma ética concreta na abordagem da comunicação? Com relação a esta segunda hipótese, ZENIT entrevistou Fabrizio Mastrofini, jornalista da Rádio Vaticano, que recentemente publicou o livro "Info-Etica. L'informazione e le sue logiche" (Infoética. A Informação e sua Lógica), pela editora italiana EDB.

Em seu livro, com prefácio do porta-voz vaticano, Pe. Federico Lombardi SJ, este jornalista, especializado em temas de informação religiosa e de comunicação, autor de outros livros sobre o assunto, parte da situação italiana para analisar a relação entre economia e meios, sugerindo algumas abordagens práticas para uma infoética aplicável ao mundo católico.

-Quais são as ideias fundamentais de seu livro?

Mastrofini: A ideia principal do livro é a que fala da ética da informação de modo concreto, a saber, do ponto de vista de quem está diariamente comprometido no trabalho da redação. Digo isto porque os textos de ética da comunicação e da informação que circulam são textos escritos por docentes universitários e não refletem outra coisa além do enfoque teórico. Ou se detêm, especialmente, no problema da objetividade da informação e não tanto no conceito de trabalho cotidiano, que é desenvolvido nas redações, onde se tomam as decisões sobre as notícias que devem entrar ou sair.

Então é necessário entender quais são os critérios de base a serem utilizados para essas decisões. A primeira pergunta é, então: quem são os donos dos diversos meios de comunicação? Por exemplo, hoje na Itália e também no estrangeiro, a tendência observada é que vai se consolidando cada vez mais pela inexistência de um editor puro, porque freqüentemente os proprietários dos meios de comunicação são sociedades ou companhias.

Neste caso, demonstra-se evidente que os jornais estão ao serviço de interesses econômicos e comerciais. Tanto é assim que, nos últimos relatórios, por exemplo da Fundação Rosselli, ou da Agacom, é dito normalmente "indústria da comunicação", porque podem por em circulação quase 100 mil milhões de euros por ano.

-Como se aplica este discurso à comunicação institucional da Igreja?

Mastrofini: A comunicação da Igreja deveria ter uma diferença. Substancialmente, qualquer comunicação que queira ter uma aproximação ética deve disfarçar-se, quer dizer, deve demonstrar sempre o seu ponto de vista, deve decidir claramente de que lado está e deve realizar uma nova forma de interação entre os remetentes e os destinatários da informação. Se aplicarmos o conceito de Povo de Deus à comunicação, poderemos facilmente entender como a comunicação deve envolver cada vez mais ao próprio público e interagir com ele. Para fazer isto, seria necessário um projeto. Este tipo de comunicação não pode ser improvisado. Também se encontram os recursos para fazê-lo, porque isto implica, também, na formação dos profissionais de comunicação.

- O desafio da web 2.0 pode tornar-se realidade?

Mastrofini: Deve ser uma revolução da comunicação. Se analisarmos a doutrina da Igreja nas comunicações sociais, encontramos que nos anos 50 começou o problema da opinião pública para o interior da Igreja. Os meios de comunicação de massa têm este objetivo que, talvez hoje, tem-se perdido um pouco. Hoje, adverte-se sempre mais acerca da necessidade por pessoas informadas e formadas. Deste ponto, tem origem um problema geral: ao invés de reclamarmos sobre os feitos dos meios de comunicação do mundo inteiro, de em certos momentos atacarem à Igreja ou passar-nos imagens distorcidas, por que nós procuramos entender como poder dar vida aos meios de comunicação eclesiásticos, para as fontes de informação de forma que os outros possam ter informação crível, realizados com métodos profissionais?

A Santa Sé, por exemplo, está presente no mundo digital, ou da informação geral, pela página oficial www.vatican.va, na qual se pode consultar a Sala de Imprensa, o jornal L'Osservatore Romano, o serviço de notícias do Serviço de Informação Vaticana, as transmissões do Centro Televisivo Vaticano e da Rádio Vaticano, mas também pela editora da casa, a Livraria Editora Vaticana, para isso às quais estão se agregando ramificações diferentes e iniciativas paralelas.

A pergunta é: por que devemos pensar que todo este patrimônio, todos estes recursos valem menos que o Wall Street Journal ou que o The New York Times? Por que razão temos que sofrer este complexo de inferioridade? O problema é que é se trata de um patrimônio enorme, que não está coordenado, não se trabalha em sinergia, de um modo organizado.

-Você acha quen nas grades curriculares dos cursos que preparam os futuros comunicadores da Igrejan as ciências sociais deveriam oferecer um maior respeito à teologia?

Mastrofini: Eu diria que o problema fundamental aqui é saber falar com os outros. Se souber falar ao próprio público interno, então sabe falar também como falar ao público externo. É necessário ser facilmente compreensível para todos. Em um comunicado de imprensa não se conta pela precisão teológica,mas por um núcleo, uma mensagem que é feita de um modo apropriado. Quer dizer, não há comunicadores improvisadores. A comunicação é uma arte refinada, que se aprende com os anos, que está nas mãos de pessoas preparadas. Devemos nos libertar dos relatórios acadêmicos e, pelo contrário, dar alma ao que fazemos. O público precisa de conteúdos.

-Em sua opinião, a Igreja tem seguido demais a pauta dos jornais na crise aberta dos escândalos de abusos sexuais por parte de alguns membros do clero?

Mastrofini: Respondo dizendo somente que a comunicação deve ser cuidadosamente planejada, porque vivemos em uma situação na qual se observa mais o fenômeno definido como  nós sempre vivemos em uma situação em qual observa o fenômeno definido mais como Teoria do Agendamento: os meios de comunicação com sua penetração, intromissão e força, podem condicionar as agendas de governo, das grandes instituições políticas e sociais, como também da Igreja. Isto porque os jornais, quando selecionam de um modo concentrado um argumento e nele insistem, podem entrar em prepotentemente no debate público, social e eclesiástico, levando com eles sua aproximação ou o ponto de vista. Perante este grande risco, uma comunicação bem organizada, bem congregada e bem programada deve saber como responder. Não persuadindo, mas propondo coisas novas. E isto também implica na capacidade de saber prevenir os eventos.