Ratzinger sempre teve grande respeito pelas opiniões alheias

Em entrevista à ZENIT mons. Vitaliano fala sobre o pontificado, a renúncia e o conclave

Crato, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 992 visitas

“Tive a alegria de conhecer a Ratzinger pessoalmente e muito bem quando era cardeal”, disse à ZENIT Mons. Vitaliano Mattioli, que durante muitos anos trabalhou no Vaticano.

Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma, Itália, em 1938 e realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e na Escola Clássica Apollinaire de Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

Publicamos a seguir a entrevista:

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ZENIT: Qual foi a sua experiência com o Papa Bento XVI? Você o conheceu de perto?

Mons. Vitaliano: Tive a alegria de conhecer a Ratzinger pessoalmente e muito bem quando era cardeal e também, embora raramente, durante o seu pontificado. Além de ser uma pessoa muito culta, me deu a impressão de ser uma pessoa que vivia imersa em Deus e dessa sua experiência com Deus derivavam as suas qualidades humanas: humildade, respeito, sensibilidade, dedicação. Umas das coisas que me chamou muito a atenção foi a sua reserva e prudência ao falar sobre coisas da Igreja e o grande respeito que tinha pelas opiniões alheias. Escutava com atenção e em silêncio o interlocutor e depois respondia com calma e grande incisividade.

ZENIT: As suas encíclicas responderam realmente às necessidade da Igreja?

Mons. Vitaliano: Papa Bento escreveu somente três encíclicas: Deus caritas est (25 de dezembro de 2005), Spes Salvi (30 de Novembro de 2007) e Caritas in Veritate (29 de Junho 2009).

Nesses três textos focou as três maiores questões que angustiam o homem moderno. No mundo falta amor. O homem não se ama. O Papa indicou o remédio: somente retornando à fonte do amor, que é Deus, Deus é amor, que o homem pode saciar a sua grande exigência de amor. Somente quando o coração do homem for preenchido pelo amor de Deus, enchendo aquele vazio existencial, somente então poderá reinar a harmonia entre os homens. O retorno a Deus é indicado como a única solução e remédio para eliminar os males sociais.

Além do mais falta muita esperança no mundo, enquanto que se perdeu o significado da vida e o homem caminha sem um objetivo e sem uma meta. É a esperança em Deus, a recuperação da dimensão transcendente da existência humana, a certeza da ressurreição e do paraíso que podem dissipar as trevas do desânimo e da desconfiança.

A terceira encíclica, sobre a questão social, foi considerada uma pedra angular na doutrina social da Igreja. Vários Parlamentares a estudaram e a mesma ONU a aprofundou num congresso.

Ela mostra as soluções para sair da crise econômica que estamos enfrentando. O Papa aconselha passar da lógica da justiça, à lógica da gratuidade. Infelizmente essa voz ainda não foi plenamente ouvida.

ZENIT: A limpeza interna da Igreja, feita por este Papa, teve consequências positivas?

Mons. Vitaliano: A limpeza absoluta não pode existir neste mundo. O Papa tem se esforçado para colocar alguns remédios. Mas isso requer a colaboração de todos.

ZENIT: A Igreja de Cristo precisa ser reformada? Em que sentido?

Mons. Vitaliano: Diz-se que a Igreja deve sempre ser reformada, no sentido que caminhando neste mundo, corre o risco de se “sujar” e por isso tem que continuamente se purificar. Mas a verdadeira reforma na Igreja consiste em renovar o caminho para a santidade. Neste sentido por Igreja não se entende somente a Hierarquia ou a Cúria, mas a Igreja como sociedade dos cristãos, dos fiéis em Cristo. A Igreja poderá reformar-se somente quando esta exigência de moralidade e de santidade for vivida por todo o Povo dos fiéis em Cristo e não somente pela Igreja Magisterial. Até que os cristãos não se convençam de que a reforma deve começar antes de tudo por eles, a Igreja está numa situação de eterna reforma.

ZENIT: Como o senhor vê um ancião, Papa, com direito vitalício, renunciando ao papado por amor à Igreja?

Mons. Vitaliano: Continuar ou renunciar é uma escolha muito difícil; há várias razões seja para continuar (João Paulo II) seja para renunciar (Bento XVI). Além da emoção da surpresa, interpretei a decisão de Bento XVI como um ato de extrema humildade, profundo amor à Igreja, total desinteresse. A única coisa que deve ser feita é acolher com respeito e admiração a decisão tomada e continuar a rezar por Bento XVI para que o seu pontificado possa ainda trazer frutos e agora possa de outra forma contribuir para o bem da Igreja que tanto amou e pela qual consumiu todas as suas energias.

ZENIT: Na sua opinião, qual é a essência de qualquer poder?

Mons. Vitaliano: A essência de todo poder é o SERVIÇO. Papa Gregório Magno (590-604) denominou o Papa "Servus Servorum Dei”, o Servo dos servos de Deus, os servo dos cristãos. Acho que essa é a grande lição que Bento XVI deixa a todos aqueles que detêm um poder. O homem de poder não é o primeiro mas o último e o servo de todos.

ZENIT: Agora nesse momento de conclave, a oração realmente pode fazer a diferença? Mas, o Espírito Santo já não está lá entre os Cardeais? Para que que serve a oração?

Mons. Vitaliano: Com certeza o Espírito Santo existe e atua. As nossas orações não são para ‘estimular’ o Espírito Santo, mas para fazer, no caso do conclave, que os Cardeais abram o seu coração às sugestões do Espírito Santo e não procedam de acordo com a ótica humana.