Ravasi: sabedoria e beleza, pérola preciosas e coisas novas

Homilia do presidente do dicastério para a cultura, por ocasião da admissão dos novos membros da Pontifícia Academia de Belas Artes e Letras

Roma, (Zenit.org) Giuseppe Ruscconi | 523 visitas

A oportunidade parecia fecunda para a reflexão. E foi mesmo. Quatro dias depois da santa missa presidida em Santa Maria in Camposanto (e da homilia sobre "os verbos dos mártires"), o cardeal biblista voltou sua atenção agora aos “homens ilustres” reunidos na “academia por excelência das belas artes e letras”, reconhecida pelo papa Paulo III em 1542.

O ponto de partida do sermão foi a leitura de uma passagem do Eclesiástico, livro sapiencial que era considerado como a recopilação da essência da cultura judaica. Eram tempos, notou o prefeito emérito da Biblioteca Ambrosiana, em que "havia paixão, admiração" pela cultura, sentimentos que hoje "não se percebem muito no tocante à inteligência e à sabedoria". Os "homens ilustres" do Eclesiástico eram capazes de conduzir o povo, de distribuir sabedoria, de inventar melodias, de compor canções poéticas; e viviam em paz interior. Aqui, o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura observou que a tradução latina de São Jerônimo adicionava outra virtude aos textos hebraico e grego: "Eram homens dedicados à busca da beleza".

Todo artista, disse Ravasi, "sente-se propenso ao mistério da beleza, que sempre tem dois lados: o da dor e o da felicidade, penetrando, em ambos os casos, no íntimo, e trespassando o coração". Se a beleza é, por um lado, a celebração da harmonia, ela é também, por outro lado, "o canto da tragédia". Aliás, "se não fosse a dor, dois terços da literatura não existiriam, como toda a obra de Dostoiévski". A beleza, por isso, é grande quando sabe exaltar também a ferida, aquela ferida que sangra.

Referindo-se ao evangelho de Mateus (13, 45: “O reino dos céus é também semelhante a um mercador em busca de pérolas preciosas; ao encontrar uma pérola de grande valor, ele vai, vende tudo o que tem e a compra”; e 13,52: “Todo escriba que se torna discípulo do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”), o cardeal Ravasi afirmou que os artistas receberam a pérola como presente e não precisam comprá-la. É a inspiração, que tem em si um caráter sagrado semelhante ao da Palavra de Deus.

"Em alguns aspectos, a linguagem da arte tem uma gramática semelhante à da fé e à do amor". Pode parecer curioso que o escriba da parábola extraia do tesouro primeiro as coisas novas e depois as coisas antigas. É um caso, no entanto, semelhante “ao das árvores”, que "têm o tronco e as raízes muitas vezes seculares, mas que, a cada primavera, mostram a novidade das folhas sempre novas e sempre diferentes". As coisas novas são extraídas do tesouro antes porque "são o sinal da criatividade"; entretanto, "a beleza e a novidade se apoiam na tradição" sempre válida. Como disse Bernardo de Chartres, ou talvez João de Salisbury: "Nós somos anões sobre os ombros de gigantes"; e os anões, enfatizou Ravasi, enxergam mais longe que os gigantes.

Passou-se, depois, para a admissão solene de dez novos membros na Pontifícia Academia dos Virtuosos, presidida pelo professor Vitaliano Tiberia: três arquitetos, um pintor, três escultores e três escritores e poetas. Seus nomes, alguns bastante famosos na Itália, são: Lorenzo Bartolini Salimbeni, Mario Botta, Maria Antonietta Crippa, Pedro Cano, Giuseppe Ducrot, Mimmo Paladino, Ugo Riva, Laura Bosio, Vincenzo Cerami e Luca Doninelli. Todos prometeram, no rito de admissão, servir à fé católica.

Como o patrono da Academia é São José, a celebração deveria ter acontecido em 19 de março. Mas, naquele dia -quem é que não se lembra?-, acontecia na Praça de São Pedro o solene início do pontificado do papa Francisco, rico de emoções para a mente e para o coração.