Reconstruir a confiança entre cristãos e hindus

Entrevista com Dom Sarat Chandra Nayak, bispo em Orissa

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BERHAMPUR, domingo, 26 de setembro de 2010 (ZENIT.org) - O principal desafio que a Igreja enfrenta na Índia não é a reconstrução dos edifícios destruídos pela violência anticatólica dos fundamentalistas hindus, mas restaurar a confiança inter-religiosa, segundo afirma o bispo de Orissa.

Dom Sarat Chandra Nayak está à frente da diocese de Berhampur, no estado de Orissa. Nessa região, só em 2008, cerca de 300 aldeias cristãs e 4 mil casas foram destruídas por fundamentalistas hindus.

Nesta entrevista concedida ao programa "Deus chora na terra", da Catholic Radio and Television Network (CRTN), em colaboração com Ajuda à Igreja que Sofre, o bispo fala da violência anticristã da região, dos fatores que agravam as relações entre hindus e católicos e da esperança que tem, apesar destas dificuldades.

Por que Orissa é um dos estados menos desenvolvidos da Índia?

Dom Nayak: As pessoas se dedicam à agricultura. A região costeira é cerca de 20% de toda a área geográfica e o resto é região montanhosa, onde vive a maioria das pessoas conhecidas como dalits.

De fato, cerca de 40% da população é dalit. Por quê? Os dalits estão lá porque, quando as castas mais altas ocuparam a terra fértil das regiões costeiras, não tiveram lugar ao seu lado, então tiveram de se transladar às selvas e às regiões mais altas, nas quais não há terra cultivável.

Qual é seu lema episcopal e por que o escolheu?

Dom Nayak: Meu lema é "Ser um servo feliz". As pessoas podem ser servas, mas podem não ser felizes. São forçadas e obrigadas a fazer coisas, mas eu gostaria de ser um servo feliz.

Antes, percebi que, quando sua cruz virou, estava escrito atrás Duc in Altum. O senhor também escolheu esta frase? Por quê?

Dom Nayak: Não a escolhi, eu a recebi assim; mas este também é meu ponto de vista e meu desejo.

Depois do convite de João Paulo II?

Dom Nayak: Sim.

Ele foi um modelo para o senhor?

Dom Nayak: Sim, tenho que dar 100% de mim. Como bispo, não estou aí para resolver todos os problemas, mas o que posso fazer é me doar 100%.

Excelência, o estado de Orissa se destaca, infelizmente, pela violência contra os cristãos. O senhor poderia nos dar uma ideia de por que existe esta violência contra os cristãos e de onde ela vem?

Dom Nayak: Por que esta violência? A fonte da violência vem certamente dos radicais hindus, não há dúvida sobre isso, ainda que hoje em dia apresente formas diversas.

As pessoas veem facetas diversas, que é o que torna essa violência complicada; não é vista somente como violência comunal, porque existem outros aspectos.

Por exemplo, razões econômicas: os comerciantes, os homens de negócios destas regiões altas, são, em sua maioria, da planície e são das castas mais altas. Sempre trabalharam com negócios. Agora, graças à educação, os dalits e os membros das tribos estão criando seus negócios e tornando-se empresários. Isso obstaculiza as pessoas de negócios do local, que são hindus. Assim, tentam criar problemas inflamando os sentimentos religiosos para danificar os negócios dos dalits e dos membros das tribos locais. Isso aconteceu em 2007.

A primeira distração e o primeiro ataque foi contra as lojas cristãs, as explosões. Então, há uma razão econômica.

Em toda Orissa, especialmente nessas preocupantes regiões, os homens de negócios vêm das castas mais altas.

Acho que é importante esclarecer que a maioria dos cristãos é dalit.

Dom Nayak: Sim, 60% dos cristãos são dalits; 38% deles podem pertencer às tribos e os demais são de outras castas.

Então, o primeiro ataque era econômico, porque os homens de negócios se sentiram ameaçados pelo crescente desenvolvimento da população dalit nos negócios. Existe também alguma razão política?

Dom Nayak: Sim, há uma razão política. Os dalits e os membros das tribos desta região representam 40% de toda a população de Orissa e quando se unem, tornam-se uma grande força política. Por isso, a casta mais alta tenta dividir estas duas comunidades. Então, há outra faceta; converte-se em uma luta entre os membros das tribos e os dalits.

Provocado por quem?

Dom Nayak: Por forasteiros, pessoas das castas mais altas cujos interesses estão em jogo quando esses dois grupos se unem.

Acho que é importante que falemos da nota do Conselho de Cristãos Indianos. Catalogaram parte desta violência. Foram analisados 92 incidentes de violência contra os cristãos. Por exemplo, 4 cristãos foram assassinados em espadas por uma multidão de cerca de mil nacionalistas hindus; 2 freiras foram estupradas em público e 1 sacerdote de um centro pastoral, o Pe. Thomas, foi gravemente espancado, desnudado e escarnecido.

A violência é muito dramática, além das casas queimadas, igrejas atacadas, conventos destruídos; há muita agressão.

Em dezembro de 2007, o ataque se dirigiu contra instituições e não contra as pessoas. Por quê? Porque os fundamentalistas hindus acreditavam que, devido aos nossos serviços - as escolas, a saúde, a "ajuda" social à população -, as pessoas se sentiam atraídas pelo cristianismo. Por isso aumenta em número.

Seu objetivo era destruir estas instituições através dos que prestam um serviço cristão às pessoas. Mas não se sentiram satisfeitos com isso; dessa vez, atacaram as pessoas, as instituições, para traumatizar, para criar medo e não continuar com seu ministério.

Não atacaram somente um sacerdote; houve ataques mortais contra 3 sacerdotes. Um deles foi o Pe. Thomas; outro era o tesoureiro da arquidiocese de Bubaneshwar, Pe. Bernard; e o Pe. Edward de Sambalpur, Rourkela.

E os mataram?

Dom Nayak: Não, mas os espancaram gravemente.

A tática que usam é o medo? Os cristãos estão abandonando a região? Eles têm medo pela sua fé? Estão abandonando sua fé?

Dom Nayak: Após atacar as pessoas, o ataque se dirigiu às aldeias, e nas aldeias destruíram casas; e nas casas que não destruíram, disseram aos cristãos que, ou se tornavam hindus, ou sua vida estaria em jogo e suas propriedades poderiam ser destruídas.

Dessa forma, são forçados a se converter e alguns deles cedem.

Eles se convertem?

Dom Nayak: Sim, há muitos casos, mais de mil. Agora não tenho o número exato, mas antes de vir para a Europa, mais de mil tinham se tornado hindus.

Se os cristãos são uma porcentagem pequena da população, por que os hindus se sentem ameaçados?

Dom Nayak: Há muitas razões pelas quais existe esta percepção de ameaça. Primeiro, porque ainda que os cristãos sejam apenas 2%, nosso serviço em termos de educação, serviços sociais, saúde, representa quase 20% - serviços que estamos oferecendo.

E eles dizem que esta é a razão do aumento de conversões na região, então este é um motivo; eles se veem ameaçados pelo aumento numérico. No entanto, quando se considera o total da população atual, depois de muitos anos, não se vê um aumento significativo da população cristã.

Permaneceu constante.

Dom Nayak: Sim, mais ou menos permaneceu constante, mas os hindus sempre insistem: conversão, conversão, conversão, e o medo se deve à experiência histórica com os britânicos.

Os britânicos vieram para fazer negócios, depois conquistaram a Índia e a governaram durante 200 anos; então aconteceu a cristianização e a conversão. Por isso, se o número de cristãos aumentar, eles podem assumir o controle da Índia.

E a conquistarão.

Dom Nayak: Sim, a conquistarão; e este é o medo - um medo infundado. Somos cristãos, somos indianos, não estrangeiros.

Sim, e também há uma ameaça, se entendi direito, no próprio sistema de castas?

Dom Nayak: Sim, este é um motivo: pelo domínio político.

O segundo motivo é o sistema de castas; o hinduísmo está fundido com o sistema de castas. Os hindus, aqueles que têm o domínio, os brâmanes, pensam que, sem o sistema de castas, seu domínio não continuaria; então, quando o cristianismo propaga o valor da igualdade para todos, eles se sentem ameaçados.

Eles têm medo?

Dom Nayak: Têm medo de perder seu poder e seu domínio sobre as pessoas.

Especialmente de que a maioria dos cristãos convertidos venha da casta mais baixa?

Dom Nayak: Dos dalits e dos membros das tribos; antes os utilizavam em seu próprio benefício, agora não podem utilizá-los, porque o cristianismo lhes dá direitos iguais e a educação lhes dá um "estímulo" econômico; então os das castas mais altas se sentem ameaçados e seu domínio parece prejudicado.

Se o cristianismo continua crescendo e se ensina aos cristãos que todos são iguais, isso é uma ameaça ao sistema de castas. Não acontecerá em algum momento que os dalits se perguntem por que são tratados de forma diferente?

Dom Nayak: Sim, é uma verdadeira ameaça ao sistema de castas. Por que deveria haver um sistema de castas, que faz que as pessoas tenham menos valor que uma vaca, menos que um animal? Os hindus tratam e respeitam as vacas como deuses, mas não respeitam os seres humanos; nem todos os hindus são assim, mas existem grupos que pensam ser os guardiões do hinduísmo.

Temos 84% de hindus na Índia; em Orissa, mais de 90%; e vivemos juntos, felizes, e nos respeitamos uns aos outros; eles entendem o valor e a dignidade humanos, mas há um pequeno grupo, que é o que domina.

Acho que talvez também seja importante indicar que é um grupo de extremistas fundamentalistas que esteve provocando esta violência - em muitos casos, os cristãos que eram perseguidos buscaram refúgio com famílias hindus e foram bem recebidos e acolhidos por essas famílias.

Esta é a alegria e a esperança dada a nós e aos que são perseguidos: ainda há esperança de viver juntos.

Perdemos muitos edifícios e vidas; podemos reconstruí-los, mas o que se perdeu foi a confiança, a confiança entre as pessoas de grupos e religiões diferentes.

Viveram juntos durante gerações inteiras e agora se questionam sobre aquela confiança e sobre como desenvolvê-la; este é o desafio para cada um de nós.

De fato, a Igreja Católica no estado de Orissa, devido à violência, ameaçou fechar uma das suas forças mais importantes, que são os colégios.

Os bispos sugeriram que, se a violência continuasse, fechariam os colégios.

O senhor poderia nos falar da importância dos colégios e da educação para esta região e o que isso significa?

Dom Nayak:

A educação é um dos serviços mais importantes que a Igreja oferece às pessoas. Ainda que sejam colégios cristãos, 90% dos estudantes são hindus e muçulmanos, motivo pelo qual o serviço é aceito e respeitado.

E por que fechar esses colégios? Porque, por um lado, nossos irmãos estão sofrendo, são perseguidos: sem casa e sem segurança. E, por outro, pedem que prestem um serviço sem ser solidários com as pessoas perseguidas.

Fechar estas escolas é uma forma de mostrar nossa solidariedade e também chamar a atenção sobre o fato de que não se pode dar por descontado nosso serviço.

-Em 2007, houve graves ataques; em 2008 também, e os extremistas prometeram mais. O senhor tem medo? Que medidas o senhor poderia adotar para tentar prevenir que estes extremistas levem a cabo mais ataques desse tipo?

Dom Nayak: Uma é aumentar a coexistência pacífica entre as pessoas de boa vontade. O nível local é muito importante, porque é nele que as pessoas vivem e, se estão juntas, são as pessoas que vêm de fora as que instigam e dividem as demais. Se as pessoas dos lugares permanecem unidas, os de fora não poderão entrar.

Por isso, construir a solidariedade no âmbito local entre grupos diversos de religiões diferentes será o primeiro passo; e construir a confiança perdida, para recordar, novamente, que podemos viver juntos como vivemos antes. Esta será a primeira prioridade.

Em segundo lugar, certamente, é preciso ter um diálogo com esses extremistas, esses fundamentalistas, porque suas ideias sobre a Igreja são muito estreitas e errôneas.

Essa ideia de que a Igreja dominará e tomará o controle da Índia é uma impressão muito incorreta: se houve más conversões e se estenderam, o número de cristãos deveria ter ido além do esperado, mas não é esse o caso. O censo oficial mostra que o número se estabilizou. Nosso número cresce inclusive menos que o de outros grupos, então não há ameaça.

Não faz parte da fé hinduísta (devido à questão da reencarnação) que, se alguém é um dalit, é porque não viveu uma fé adequada na vida anterior e por isso tem a posição que merece? E que, se vive uma boa vida, talvez na próxima encarnação pertença a uma casta mais alta? Qual é o papel desta crença, com relação à Igreja Católica? Ao tentar melhorar a situação social da pessoa, a Igreja estaria obstaculizando ou criando uma confusão na tradição hinduísta? O senhor concorda com isso?

Dom Nayak: Não concordo. Depois de tudo, não acredito na reencarnação, porque a vida humana é muito valiosa. É uma imagem do próprio Deus. Uma pessoa não pode reencarnar sendo um cachorro.

Quando o ser humano é criado, ele recebe esta oportunidade. Você escolhe: fazer o que tem de fazer agora ou não fazer jamais.

Após a morte, você já não terá nada a fazer. Agora você pode escolher: acreditar, aceitar, viver uma boa vida; sua recompensa é o céu ou o inferno.

Estas são duas coisas que temos em nossa fé cristã: que você não se transformará em um cachorro ou em um animal; não acreditamos nisso. Mas, já que esses amigos pensam que estão na tradição hinduísta da reencarnação, se acreditam nisso, deveriam viver isso.

Alguns deles, no entanto, não veem sua responsabilidade; se pensam que no passado fizeram boas obras e que é por isso que agora estão numa posição melhor, não correm o risco de perder essa posição melhor, se fizeram más ações? Assim, acho que não acreditam nisso, porque se acreditassem, teriam mais cuidado com as más ações...

Poderiam retroceder.

Dom Nayak: Poderiam retroceder, e é por isso que acho que sua fé não segue essa luz.

Eles acreditam de forma conceitual, mas na verdade não creem; estão ocupado só com o agora, com o que lhes convém, com o que lhes interessa economicamente, socialmente e com o domínio político que querem conservar. Assim, esta é a razão: a razão econômica, política e religiosa - e também a casta. Todas essas coisas complicaram esta situação.

Qual é sua esperança para o futuro das relações dos cristãos no estado de Orissa?

Dom Nayak: As relações dos cristãos com os demais grupos, sobretudo os hindus, se restabelecerão porque já se levantaram vozes que veem as coisas boas que a Igreja e os cristãos estão fazendo, e que agora sofrem de maneira inocente.

Por um lado, segundo a minha fé, nosso sofrimento nunca se perderá. A semente dos mártires, o sangue dos mártires é semente de fé. Acredito nisso e isso certamente nos fará reviver; a fé cristã e a Igreja cumprirão seu chamado a ser sacramento de salvação em Orissa, em Kandhamal.

Então esses são os cordeiros?

Dom Nayak: Sim, não é nada novo. Os cristãos sofreram, não é nada novo. É assim desde o começo do cristianismo, desde o começo da Igreja. A Igreja nasce do lado transpassado de Cristo.

A salvação do mundo não virá da nossa palavra ou do nosso serviço, mas dando a própria vida, e isso por meio do sofrimento.

É dessa forma que o senhor motiva seus fiéis (dizendo que parte da nossa vida como cristãos é a aceitação e a consciência de que também temos de carregar a cruz de Cristo)?

Dom Nayak: Sim, não há outro caminho para os cristãos, a não ser a cruz. É assim: matando ou morrendo, os cristãos não matarão. Jesus nos ensinou: deixem-se matar. Se a minha morte salva as pessoas, estou preparado.

* * *

Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para "Deus Chora na Terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network, (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.

Mais informação em www.aisbrasil.org.br, www.fundacao-ais.pt