Reevangelizar a Irlanda

Entrevista com o arcebispo de Dublin, Dom Martin

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Por Dominic Baster

CIDADE DO VATICANO, domingo, 6 de julho de 2008 (ZENIT.org).- A fim de proclamar Cristo a uma nova geração de irlandeses que perdeu o Evangelho de vista, o arcebispo de Dublin, Dom Diarmuid Martin, pôs em andamento um importante impulso evangelizador.

O arcebispo convidou as 200 paróquias de Dublin a unirem-se em um programa comum de trabalho missionário e evangelizador para 2009. Coordenado pelo primeiro vigário de evangelização da arquidiocese, Pe. Ciaran O’Carroll, o projeto envolverá educação na fé, formação litúrgica e bíblica, chegar às pessoas jovens e trabalhar pela justiça e pela caridade.

Dom Martin declarou que uma das prioridades do novo departamento será a evangelização da família.

Nesta entrevista a Zenit, Dom Martin explica por que tornou-se necessária esta iniciativa, por que é tão importante seu êxito, e o que o catolicismo irlandês tem a oferecer ao mundo de hoje.

–Por que o senhor acha que esta iniciativa é necessária hoje?

–Arcebispo Martin: Creio que nossa santidade pode oferecer à sociedade contemporânea em 2008 uma nova maneira de viver. Precisamos levar ao nosso mundo a mensagem do amor de Jesus – é uma mensagem de verdade, justiça e amor.

Hoje, muitos dos que foram batizados como cristãos já não conhecem Jesus de verdade e sua forma de viver demonstra que a mensagem de Jesus só toca suas vidas de forma superficial.

Por um lado, creio que existe a sensação real de que a arquidiocese de Dublin é território de missão. Por outro, eu me senti profundamente animado pela forma como os leigos apareceram como colaboradores na hora de proporcionar cuidado pastoral, oferecendo voluntariamente, de forma generosa e sem competição seu carisma único à Igreja. Estão esperando ter a oportunidade de fazer mais e fazê-lo de forma diferente. Nisso vejo o Senhor que nos fala e desafia todos nós.

–Quais resultados tangíveis se esperam conseguir ao longo deste ano?

–Arcebispo: O primeiro elemento de qualquer forma de ministério é a conversão. A conversão não é um processo de um único momento. A formação na fé dura toda a vida.

Eu gostaria que se visitassem muitos lares da diocese no curso de 2008. Muitas paróquias já fazem isso e outras estão em processo de fazê-lo. Será possível entregar a cada lar uma cópia do Evangelho do ano – o Evangelho que será objeto de todas as nossas reflexões – que nos permitam que o Espírito abra nossos corações.

Muitos dos conselhos pastorais das paróquias estão planejando formas de associar-se à Igreja em comunidades mais pobres por todo o mundo, inspirados em um senso de justiça, no carinho e na fraternidade entre as Igrejas. Eu gostaria de ver novas formas com as quais a arquidiocese poderia dar um testemunho mais visível de sua fraternidade entre as Igrejas, talvez adaptando cada ano uma Igreja particular que precise de nosso apoio.

Como nos recorda o Papa Bento, «A Igreja... não pode e não deve permanecer passiva na luta pela justiça».

–Quais serão os elementos-chave da nova iniciativa?

–Arcebispo Martin: O departamento diocesano de evangelização proporcionará apoio técnico para o novo impulso missionário. Também ajudará a coordenar o trabalho de educação na fé, na animação litúrgica e bíblica, trabalho com os jovens, e nosso trabalho pela justiça e pela caridade.

A evangelização e a renovação, não só a renovação estrutural, mas a renovação na santidade, significa chegar ao maior número de pessoas possíveis em espírito missionário. Cada aspecto da vida diocesana e da administração diocesana se centrará neste programa. As equipes de sacerdotes, diáconos e leigos estão chamadas a trabalhar juntas para apoiar as comunidades paroquiais.

Temos uma situação estranha na Irlanda onde, apesar de muitos anos de educação religiosa nos colégios católicos, muitos jovens saem só com uma compreensão superficial da fé e um compromisso superficial com a fé. Diante das fortes tendências de secularização, sua fé se submete a uma grande tensão e são incapazes de entrar no debate entre fé e vida diária.

–O senhor identificou a evangelização da família como a prioridade-chave da nova iniciativa. Por que a família é tão importante na tarefa da evangelização?

–Arcebispo Martin: A família é a base fundamental para passar da fé da criança à do jovem. Quando a vida de fé das famílias é frágil, a evangelização perderá suas raízes. Quando as famílias delegam totalmente sua responsabilidade na formação de seus filhos na fé às escolas, estão perdendo de vista não só sua responsabilidade, mas também a graça especial do sacramento do matrimônio.

–Muitos disseram que a família tradicional está em declive na sociedade ocidental. O que o senhor pensa disso e como a Igreja pode defender as famílias?

–Arcebispo Martin: Hoje, todo debate sobre a família costuma gerar rapidamente um debate de problemas, de rupturas, de modelos alternativos. Raramente falamos do matrimônio e da família como recursos, tanto para a Igreja como para a sociedade.

Raramente escutamos o chamado dos cristãos a exercerem seu ministério em e através do sacramento do matrimônio, um sacramento que por natureza – como todos os sacramentos – está orientado à construção da Igreja.

A evangelização da família é uma prioridade em nossas atividades nas paróquias e na diocese. Os conselhos pastorais paroquiais, levando em conta seu caráter predominantemente leigo, oferecem uma plataforma de reflexão sobre a família como recurso para a sociedade e a Igreja. Juntos podemos trabalhar em desenvolver novos recursos para a catequese focada na família. Uma prioridade para nosso novo departamento diocesano para a evangelização terá de ser encontrar caminhos de apoio às famílias nesta tarefa.

–Que desafios concretos a evangelização da Irlanda enfrenta hoje?

–Arcebispo Martin: Eu comentei em varias ocasiões que os números de quem participa regularmente da Eucaristia em nossas dioceses estão baixando e muitos católicos batizados já não conhecem Jesus. Sua mensagem não toca suas vindas.

Nossa catequese foi talvez moralista demais, parecendo uma lista de regras de comportamento de vida, em vez de ser uma resposta à mensagem de Jesus – uma mensagem exigente, mas com as exigências do amor, que nos permite encontrar a profundidade de nosso significado.

Mas não podemos esquecer o fato de que, na Irlanda, a boa vontade da Igreja foi ferida por uma série de escândalos. Como comunidade eclesial, devemos estar atentos àqueles que sentem que foram feridos ou abandonados pela Igreja de alguma forma. A Igreja em Dublin deve voltar a ganhar a boa vontade de todos. Deve ser um lugar onde aconteçam as medidas necessárias para salvaguardar as crianças e as pessoas vulneráveis. As medidas para salvaguardar as crianças devem ser vistas como uma prioridade, não como uma carga. O Serviço Diocesano de Proteção da Criança trabalha com os conselhos pastorais paroquiais para proporcionar apoio e assistência nesta área.

–A Irlanda tem uma longa tradição de envio de missionários ao longo do mundo. A visão irlandesa do catolicismo ainda tem algo valioso para oferecer à Igreja?

–Arcebispo Martin: O compromisso claro dos irlandeses pelo mundo em desenvolvimento, que encontrou uma ótima expressão no aumento das ajudas ao exterior por parte do governo irlandês, deve muito à longa tradição de atividade missionária da Igreja. Graças a Deus, os temas de desenvolvimento são temas que ainda despertam paixão dentro da sociedade irlandesa.

À medida que a Irlanda continua mudando, e milhares de pessoas chegam aqui de todo o mundo para construir um novo lar para eles e suas famílias, o catolicismo irlandês tem muito a oferecer. Em nosso Festival dos Povos, celebrado na festa da Epifania de cada ano, acolho com satisfação a pessoas com seus capelães e líderes comunitários de muitos países da Europa e de mais longe.

Alegro-me de que a Igreja em Dublin tenha estado na vanguarda da acolhida e integração daqueles que chegaram recentemente. O futuro social, econômico e político da Irlanda, com os desafios específicos que os próximos anos trarão, requererá que trabalhemos juntos para construir uma sociedade não só de vizinhos anônimos, mas de pessoas de realidades diversas, comprometidas na construção de uma nova comunidade.