Reflexões sobre a Ascensão de Cristo

Inspirações de uma pintura de Giuseppe Cesari

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Agnese Scavetta, MDR*

ROMA, sexta-feira, 18 de maio de 2012 (ZENIT.org) - Giuseppe Cesari, o Cavalier d’Arpino, chegou a Roma aos 14 anos em busca de fortuna, acompanhado da família, em 1582. 

Era filho de um pintor modesto de Arpino, pequeno povoado da província de Frosinone.  Apesar de não ter formação profissional, Giuseppe demonstrou logo seu grande talento natural. Trabalhou em Roma como moedor de pigmentos nos trabalhos do terceiro andar da oficina do Palácio Vaticano, sob a direção de Nicolo Circignani. Sua carreira foi rápida: aos 27 anos, já era membro da prestigiosa Academia de San Luca, da qual faziam parte os melhores artistas da época. No ateliê do Cavalier d’Arpino, trabalhou o jovem Caravaggio entre 1597 e 1598.

Em 1592, a eleição do papa Clemente VIII determinou para o Cavalier d’Arpinoo momento mais importante e fecundo da sua vida artística. Entre as diferentes tarefas que o pontífice confiou à direção do artista, estava a decoração da nave Clementina, a nova nave transversal que o papa mandou reconstruir na Basílica de São João de Latrão. O Cavalier d’Arpino dirigiu uma equipe de artistas que incluía Cesare Nebbia, Nogari e Pomarancio, que já tinham trabalhado para o papa Sisto V (1585-1590).


Nos afrescos do cruzeiro da nave está ilustrada de forma simples e compreensível a história da Basílica de Latrão, associada a atos do imperador romano Constantino, que concedeu a liberdade de culto aos cristãos com o edito de Milão de 313. Cada afresco está inserido em um quadro com um marco decorado em ouro. O Cavalier d’Arpino reservou para si mesmo a realização da pintura da Ascensão de Cristo sobre o monumental altar que custodia a relíquia da mesa do Cenáculo de Jerusalém.

O afresco da Ascensão está dentro de um esplêndido marco dourado, onde se alternam cabeças de serafins com a estrela de oito pontas, do escudo de Clemente VIII Aldobrandini. No afresco, Jesus se eleva ao céu em uma luz resplendorosa, rodeado por nuvens. Na parte de baixo estão os apóstolos: de olhos assombrados e consternados, eles contemplam a glória divina do Mestre. O corpo de Jesus refulge, sua túnica é cândida e luminosa. O artista evidencia os sinais da crucificação nas mãos, nos pés e no lado trespassado, marcas tangíveis que mostram que a nossa humanidade foi levada para o céu através de Jesus Cristo.

Dois anjos em vestes brancas recordam aos apóstolos as palavras “Homens da Galileia, por que olhais para o céu? Este Jesus que vos foi tirado e elevado ao céu virá da mesma maneira como o vistes partir” (At. 1,11). Reconhecemos a figura de Pedro com a túnica azul e as duas chaves na mão. Jesus, agora, mostrou a glória da sua divindade e os convida a confiar nele: “Recebi todo o poder no céu e na terra. Ide e tornai todos os povos meus discípulos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e os ensinando a cumprir tudo o que eu vos mandei. E eu estarei convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 18-20).

Enquanto o ciclo da história de Constantino evidencia o poder humano, o afresco da Ascensão ressalta que o poder do Filho de Deus é superior a todo poder. Jesus funda a sua Igreja, cuja liderança espiritual e autoridade moral também são reconhecidas pelos poderosos da terra, simbolizados por Constantino.

O Jesus do Cavalier d’Arpino, visto de baixo, mais do que ascender ao céu parece que vem até o espectador a partir do tímpano do monumental tabernáculo. Esta visão traz ao coração as palavras de Jesus: “Eu estarei convosco até o fim do mundo”. Como se realiza esta promessa? Na eucaristia, custodiada no tabernáculo e garantidora da presença de Jesus na igreja, até o final dos tempos.

*Missionária da Divina Revelação