Refugiados: desafio para Igreja e sociedade

“Fechar as fronteiras não é a resposta”

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ROMA, terça-feira, 21 de junho de 2011 (ZENIT.org) - A figura do refugiado, de quem ontem se comemorou o dia mundial, interpela a Igreja e a sociedade, pois requer a busca e a implementação de soluções justas e de longa duração.

Esta foi a reflexão de Dom Antonio Maria Vegliò, presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, em uma entrevista concedida à Rádio Vaticano, na qual elogiou a ação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), do qual este ano se comemora o 60º aniversário de fundação.

“A própria existência desta organização internacional indica que a situação dos refugiados continua sem ser resolvida – observou o prelado. Na origem, o ACNUR havia sido criado com mandato trienal. No entanto, foi se renovando e há alguns anos se tornou uma organização permanente.”

Os problemas que ele enfrenta, explicou, “estão em contínua evolução e os desafios do seu mandato se tornam cada vez mais amplos”. Nascido para lidar com os 19 milhões de deslocados europeus antes de 1951, o ACNUR posteriormente estendeu seu mandato aos refugiados húngaros durante a revolução de 1956, e depois aos refugiados do mundo inteiro.

Por isso, “a Assembleia Geral das Nações Unidas ampliou seu rádio de ação a categorias de pessoas não protegidas, como os apátridas e as pessoas deslocadas por conflitos militares ou por violações dos direitos humanos”.

“Infelizmente, há novos desafios batendo à porta”, sublinhou o prelado, citando como exemplo “as pessoas que devem deixar seu próprio país por motivos climáticos” ou os chamados “refugiados urbanos”, pois um número cada vez maior de refugiados, atualmente quase a metade, se desloca às cidades, “onde as pessoas se tornam invisíveis e se mimetizam entre os outros, especialmente nos bairros pobres”.

Ação eclesial

Dom Vegliò recordou que a Igreja está presente entre os refugiados e os deslocados de muitas formas: “há sacerdotes e freiras que estão em contato direto com as pessoas nos campos de refugiados e às vezes o bispo atende o campo como uma verdadeira paróquia”; “diversas congregações religiosas trabalham diretamente, enquanto outras colaboram com o Serviço dos Jesuítas aos Refugiados (Jesuit Refugee Service)”; também são muito ativas as Cáritas, “tanto no âmbito diocesano como nacional”, bem como a Comissão Católica Internacional para as Migrações (ICMC - International Catholic Migration Commission), “especializada na reinstalação dos refugiados em terceiros países”, e que leva adiante também “diversos projetos socioeconômicos, como o microcrédito”.

Entre as principais preocupações do dicastério que ele preside, Dom Vegliò sublinhou a situação das crianças que vivem nos campos de refugiados, “muitas das quais não conhecem outra realidade porque nasceram e cresceram neles”.

A respeito disso, citou como exemplo a Tailândia, onde 150 mil pessoas vivem como refugiadas há 20 anos; o leste da República Democrática do Congo, “onde existem mais de 1,7 milhão de deslocados devido à guerra”; e o Sudão.

“Em Darfur, centenas de milhares de pessoas ainda vivem nos campos de refugiados e não é claro o destino de muitos do Norte que agora se encontram no Sul e vice-versa. Adotarão a nacionalidade da nova nação? Terão ainda o direito de ser cidadãos do Sudão? Além disso, o Sudão do Sul deverá enfrentar a volta de um altíssimo número de pessoas do Norte do país. O processo de sua integração representará um grande desafio.”

Acolhimento

“Um desafio notável – prosseguiu – se apresenta no Norte da África, especialmente na Tunísia, no Egito e na Líbia.”

“É uma tragédia que estas pessoas tenham de escapar em embarcações que frequentemente afundam e as fazem perder a vida – declarou. Hoje, com a disponibilidade de meios eletrônicos sofisticados, a União Europeia deveria ser capaz de velar por estas embarcações e alcançá-las para prestar-lhes assistência, antes de que se encontrem em dificuldade e acabem naufragando.”

“Fechar as fronteiras não é a resposta”, acrescentou.

Por sua vez, o alto comissário Antonio Guterres recordou que, ao analisar a situação dos refugiados, quase 44 milhões no mundo, existem dois fatores centrais a ter presentes.

“Antes de tudo, em 2010 tivemos o número mais alto de refugiados e de deslocados dos últimos 15 anos, e isso devido tanto às numerosas crises novas que surgiram como às velhas guerras que não encontram um fim – explicou. O segundo fator muito importante é que existe a impressão errônea de que é o mundo industrializado que acolhe a grande maioria desses refugiados, quando, no entanto, 80% deste número se encontra nos países em vidas de desenvolvimento.”

“A única política que pode ser realizada é a de manter as fronteiras abertas”, comentou.

Onde chegam embarcações com migrantes e refugiados, acrescentou, o procedimento deve ser a garantia do acesso a todos. “Quem tem direito de asilo deve ser acolhido, enquanto os demais podem ser devolvidos no respeito ao direito internacional.”