Reino Unido: a morte ao vivo

Documentário sobre os momentos finais de um paciente terminal

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Por Paul De Maeyer

ROMA, segunda-feira, 16 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Foi exibida na semana passada num canal público da televisão britânica, a BBC One, a segunda parte do documentário “Inside The Human Body” (Por dentro do corpo humano), chamada de “First to Last” (Do primeiro ao último). O objetivo é mostrar os “inumeráveis pequenos milagres” realizados pelo corpo humano para nos manter vivos, do nascimento até a morte. O telespectador verá desde um “dramático” parto na água até os últimos momentos de Gerald, um homem de 84 anos de idade, morto em decorrência de um tumor no último 1º de janeiro.

 “Há quem considere errado mostrar a morte humana pela televisão, prescindindo das circunstâncias”, disse à revista Radio Times o apresentador da série, Michael Mosley (The Telegraph, 26 de abril). “Eu respeito esse ponto de vista, mas acho que há motivos para filmar uma pacífica morte natural. Essa visão é compartilhada por muitas pessoas que trabalham em contato direto com moribundos”.

A série foi defendida também por um porta-voz da BBC. “A morte é uma parte importante da experiência humana. Mostrar a morte de Gerald é fundamental para entender o que acontece com o corpo humano quando ele não é mais capaz de funcionar adequadamente”, explicou, acrescentando que “a BBC não evita os temas difíceis como este, mas trata deles de uma forma sensível e adequada”.

Contrário à iniciativa, porém, mostrou-se o diretor do movimento para a campanha anti-eutanásia Care Not Killing, Peter Saunders. “Deveríamos receber com satisfação um documentário da BBC sobre a morte natural, mas consideramos que o momento da morte é muito privado e pessoal, e pode ser contado com sensibilidade sem ser mostrado na televisão”.

Ainda mais polêmico é outro documentário da BBC, previsto para estrear neste verão, que mostrará os últimos momentos da vida de um homem de 71 anos, que viajou à Suíça para se submeter a um suicídio assistido na associação Dignitas. Chamado apenas de Peter, o homem sofria de uma grave doença degenerativa, a esclerose lateral amiotrófica, ou SLA. O objetivo do documentário, segundo o porta-voz da BBC, é “suscitar um debate construtivo” sobre o suicídio assistido.

Declarou-se a favor do documentário a diretora do grupo Dignity in Dying, Sarah Wootton: “Eu acho irresponsável não discutir este assunto e adiá-lo” (London Evening Standard, 15 de abril). O ator Sir Patrick Stewart (o capitão Jean-Luc Picard da série Star Trek), que sofre do coração, também se declara a favor da “morte assistida”, dizendo que “deveria ser um direito” (Agence France-Press, 17 de abril).

O que preocupa particularmente os opositores do chamado “direito de morrer” é que o programa, chamado “Choosing to Die” (A escolha de morrer), é apresentado pelo escritor Sir Terry Pratchett. O autor da série “Discworld”, diagnosticado com Alzheimer, é um importante partidário da morte assistida.

Por sua vez, o doutor Saunders não escondeu sua irritação com a BBC, acusando a emissora de se comportar como “uma instigadora da legalização do suicídio assistido” (The Telegraph, 15 de abril). “É deplorável que a morte de um homem seja mostrada na tela, mas, além disso, nós estamos preocupados porque este documentário não vai ser imparcial. É conhecida a postura de Sir Terry Pratchett. Então temos medo que ele mostre os supostos prós da morte assistida sem falar dos contras”.

Segundo Saunders, há um desequilíbrio “extraordinário” a favor do suicídio assistido por parte da rede BBC. “Serão seis programas realizados em três anos por pessoas que apoiam uma mudança na lei (sobre o suicídio assistido) ou que são favoráveis a essa posição”, destacou (The Telegraph, 26 de abril).

Palavras fortes também foram escritas por Amanda Platell no Daily Mail (16 de abril), definindo a BBC como “patologicamente liberal” e acusando-a de produzir “um documentário para o lobby pró-eutanásia, ofendendo muitíssimos britânicos que acreditam na sacralidade da vida”. Para Platell, “o próprio fato de Sir Terry ser o apresentador já é uma forma de chantagem moral”.

Não é a primeira vez que uma rede britânica retransmite um documentário que exibe a morte de um doente de SLA que optou pela eutanásia. Em dezembro de 2008, a Sky Television estreou no canal Sky Real Lives o documentário “Right to Die: The Suicide Tourist” (Direito de morrer: o turista suicida), com a morte ao vivo de Craig Ewert, 59, numa “clínica” da associação Dignitas da Suíça.

Qual é o impacto destas imagens ou destes documentários nos doentes, terminais ou não? Nas pessoas deprimidas ou idosas? São as perguntas que a polêmica levanta. “Enfraquece os vulneráveis e o direito à vida das pessoas”, disse em 2008 Phyllis Bowman, da associação Right To Life [Direito de viver (The Daily Mail, 11 dezembro 2008)]. A mensagem inequívoca é que também existe uma vida não digna de ser vivida.

Segundo uma pesquisa do instituto de sondagens ComRes para a maior organização de pessoas com necessidades especiais da Inglaterra e de Gales, a Scope, mais de 70% de 500 portadores de deficiências que foram entrevistados teme, por exemplo, que uma eventual mudança na lei a favor do suicídio assistido possa pressionar os pacientes vulneráveis, empurrando-os a “dar fim à sua vida prematuramente” (The Telegraph, 9 de maio). Mais da metade (56%) dos entrevistados considera que a legalização da prática do suicídio assistido terá influência negativa na concepção que a sociedade tem das pessoas portadoras de deficiências graves.

Não há dúvidas de que na Grã-Bretanha faz-se notar uma crescente pressão a favor de uma despenalização da eutanásia. Demonstra isso o projeto de ativar no país um número de assistência telefônica gratuita – o ‘helpline’ – para pessoas que desejam uma “boa morte” (The Daily Mail, 4 de maio). Quem lançou essa iniciativa foi Compassion in Dying, um ramo da organização pró-eutanásia Dignity in Dying. Segundo seus promotores, o objetivo não seria dar informação sobre como cometer o suicídio assistido, mas informar dos “direitos existentes no fim da vida”. O discurso não convence os movimentos anti-eutanásia. De fato, como já observou o porta-voz de Care Not Killing, Alistair Thompson, toda essa informação “já é de fácil acesso”.