Relação entre bispos e movimentos

Entrevista com o Pe. Álvaro Corcuera, diretor do movimento «Regnum Christi»

| 1055 visitas

Por Jesús Colina

ROMA, terça-feira, 15 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Ainda que a relação entre os movimentos e os bispos em algumas ocasiões possa encontrar dificuldades, com a colaboração de ambos, a Igreja conseguirá uma unidade e um novo impulso apostólico, considera o Pe. Álvaro Corcuera, L.C.

O sacerdote é diretor geral do movimento Regnum Christirealidade eclesial reconhecida pela Santa Sé que conta com cerca de 70 mil membros, jovens e adultos, diáconos e sacerdotes, em mais de 30 países. Pe. Álvaro Corcuera é também diretor geral da congregação religiosa dos Legionários de Cristo.

-Recentemente, o Papa exortou os bispos a acolherem «com muito amor» os diversos movimentos eclesiais que surgiram no seio da Igreja nas últimas décadas (cf. Discurso a bispos participantes em um encontro organizado pelo Conselho Pontifício para os Leigos). Como o senhor acha que os movimentos devem interpretar estas palavras?

-Pe. Corcuera: É preciso agradecer o Papa Bento XVI por estas palavras. Elas reafirmam a convicção de que os movimentos eclesiais, que o Espírito Santo fez surgir no seio da Igreja, não são um problema, mas um dom. E, por isso mesmo, todos devemos acolhê-los com gratidão e caridade pastoral, de maneira que, com seu estilo de vida e seu característico impulso apostólico, os novos movimentos eclesiais contribuam eficaz e ordenadamente para a tarefa comum de pregar o Evangelho ao homem de hoje. Acolher os movimentos com amor significa ajudá-los a ser fiéis à Igreja, acompanhar o passo da Igreja, nem à frente nem atrás. Encontrar um coração aberto nos pastores que Cristo pôs à frente de sua Igreja ajudará os membros dos movimentos eclesiais a se inserirem serenamente no tecido das igrejas particulares com o próprio carisma.

-Como se pode entender que a existência de movimentos eclesiais e a unidade da Igreja sejam compatíveis?

-Pe. Corcuera: O fato de que haja diversidade de dons espirituais é mais um sinal da riqueza e variedade com que o Espírito Santo quer embelezar a única Igreja de Cristo. A unidade não é incompatível com a variedade de carismas; antes, porém, manifesta que no Corpo Místico de Cristo cada membro tem uma função específica, e com ela contribui para o bem de todo o corpo.

Também a Igreja é a grande família que Deus Pai formou com todos os que crêem em Cristo e receberam seu Espírito. E como em toda família, os diversos membros que a compõem têm diversas missões, diversas sensibilidades, diversas qualidades. Mas ninguém é melhor ou pior. Simplesmente todos formam a família de Deus. Na Igreja, o Espírito Santo atua com sabedoria e amor e, dado que cada homem e mulher são únicos, Ele conduz cada um por um caminho espiritual diferente, para sua plenitude em Cristo. Os movimentos têm, certamente, seu próprio estilo espiritual e atraem pessoas de diversas formas de ser. Mas essa diversidade faz que a Esposa de Cristo possa pregar o Evangelho aos homens de todas as culturas e formas de ser.

-Se o Papa propôs as questões da unidade e da acolhida é porque às vezes se dão incompreensões e desajustes na relação desses movimentos com as Igrejas locais. Como crê que se deva responder nestas situações?

-Pe. Corcuera: A primeira coisa que me vem à mente é que as incompreensões e desajustes que acontecem entre os movimentos e as Igrejas locais não devem nos desanimar. Na verdade, são a oportunidade para refletir e exercer as virtudes que são necessárias para alcançar a complementaridade em harmonia e trabalho conjunto.

Aprofundando um pouco mais, vejo que a história da Igreja mostra a maravilhosa presença da Providência. Ao estudar a história, descobrimos, maravilhados, como Deus leva sua Igreja pela mão para conduzi-la à plenitude, e como não deixou de suscitar os carismas que considerou necessários em cada momento para ir ao encontro de seus filhos e para que o anúncio da boa notícia do Evangelho seja a comunicação «performativa», «que comporta fatos e muda a vida», como diz Bento XVI em sua encíclica sobre a Esperança. O Evangelho nos compromete a exercer atitudes e condutas que constroem a unidade necessária. «Porque o pão é um – recorda São Paulo –, somos um só corpo, ainda sendo muitos, pois todos nós participamos desse único pão» (1 Co 10, 17). O fruto dessa verdade do corpo místico de Cristo é a comunhão no amor, que é nossa vocação definitiva. E o amor nos leva a aceitar o que cada um recebeu, para juntos cumprirmos a missão de anunciar o Evangelho a todas as pessoas e nações.

Como recordou o Papa João Paulo II em sua mensagem ao Congresso Mundial dos Movimentos Eclesiais de 1998, «os movimentos foram suscitados pelo Espírito de Cristo para dar um novo impulso apostólico a toda a comunidade eclesial». Isso é assumido pelos movimentos com senso de responsabilidade, buscando crescer para poder servir mais e melhor. Mas crescer não por crescer, e sim como resposta de amor à Pessoa Amada.

-Como vê a experiência dos movimentos eclesiais em sua relação com os bispos e as dioceses ao longo dos últimos anos?

-Pe. Corcuera: Em geral, especialmente depois do grande encontro dos movimentos com o Papa João Paulo II em 1998, pode-se falar de uma experiência positiva. Conseguiu-se uma boa integração dos movimentos eclesiais em numerosas dioceses. Em alguns casos, ainda há dificuldades e incompreensões humanas que, contudo, podem ser superadas com paciência, muito diálogo e, sobretudo, amor à Igreja e à sua missão. Também o intercâmbio e a colaboração entre os diversos movimentos eclesiais aumentaram notavelmente e este fato é de grande importância para poder prestar um serviço eficaz às Igrejas locais e a seus pastores.

Quase um ano depois, recordo a mensagem que o prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, o cardeal Franc Rode, C.M, nos ofereceu. Foi em julho do ano passado, no contexto de um 'Encontro Juventude e Família', promovido pelo Regnum Christi, em Atlanta (Estados Unidos). Ele nos disse que onde há um membro do Regnum Christi – e o mesmo deve valer para os membros de qualquer movimento eclesial –, há profunda comunhão com o Vigário de Cristo e com os demais pastores; que a comunhão com o Papa e com a Igreja é nossa garantia de fecundidade apostólica. Ele nos animou a continuar assim, trabalhando muito nas Igrejas locais, cooperando com os bispos, com os párocos e com os religiosos. Recordou-nos que a Igreja é nossa casa e nosso lar e nos convidou a que ela continue sendo sempre o ambiente de nosso trabalho, de nossa entrega.

Não acho que eu possa explicar melhor que o cardeal o que pretendemos que seja nosso amor à Igreja e nossa obediência aos bispos e aos pastores. Estamos comprometidos em transformar este chamado em vida, pondo todo nosso coração e forças nisso. Para isso, sabemos que o melhor meio é ajudá-los a formar-se em um profundo espírito de oração, na recepção viva, gozosa e transformadora dos sacramentos, em uma vivência sólida das virtudes teologais, o que pressupõe formar um coração manso e humilde como Cristo.

-O que o Regnum Christi está fazendo para fomentar a unidade e aprofundar o trabalho no seio da Igreja local?

-Pe. Corcuera: Primeiramente, continuamos fomentando, como desde os dias de nossa fundação, que os Legionários de Cristo e os membros do Regnum Christi tenham uma verdadeira experiência de amor a Cristo, à Igreja, ao Papa e aos bispos; que seja um amor apaixonado e fiel, obediente e motivado, pronto e alegre. Que esse seja o verdadeiro motor e sentido de qualquer ação.

E, portanto, buscamos que os membros do Regnum Christi se insiram plenamente em sua Igreja local. Fazer parte do movimento Regnum Christi comporta um compromisso de autenticidade na vida cristã em todos os ambientes – família, trabalho, amigos –, e não menos no ambiente paroquial e diocesano. Longe de distanciar os membros da vida diocesana e paroquial, sua pertença ao Regnum Christi os compromete a uma participação mais ativa, pondo ao serviço dos pastores seus talentos pessoais, assim como a riqueza do próprio carisma do Movimento. E os compromete a ser fiéis ativos em suas paróquias, apóstolos que conhecem seus pastores, oram por eles, acolhem seus ensinamentos, conhecem suas necessidades e apóiam seus planos pastorais.

Como movimento, buscam cooperar nos planos pastorais das dioceses e paróquias, oferecendo nossa espiritualidade e estilo apostólico. Buscamos, dessa maneira, informar regularmente os bispos da atividade que desejamos realizar em suas dioceses e, de maneira especial, buscamos obedecê-los sempre com atitude de serviço.

Não podemos esquecer tampouco que a primeira forma de servir a Igreja é a fidelidade ao próprio carisma, porque é dom e é responsabilidade. Nesse sentido, viver a caridade e atender especialmente as prioridades e urgências da Igreja é uma forma específica que o Regnum Christi tem de servir a Igreja local.