Religiões para uma pedagogia da paz

Cardeal Jean-Louis Tauran interveio no Meeting de Rímini

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Por Mirko Testa

RÍMINI, domingo, 31 de agosto de 2008 (ZENIT.org).- Enquanto da Índia chegavam notícias sobre a nova onda de violência anti-cristã perpetrada por extremistas hindus, no Meeting de Rímini, que é organizado por Comunhão e Libertação, no dia 25 de agosto, aconteceu um colóquio sobre a paz e as religiões.

No debate intervieram Franco Frattini, ministro de Exterior da Itália; Amre Moussa, secretário-geral da Liga de Estados Árabes; e o cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso.

«A paz nos chama --disse ao início do debate o moderador Mario Mauro, vice-presidente do Parlamento Europeu--; é o anseio do coração da pessoa humana».

Em sua intevenção, Frattini sublinhou a necessidade de uma nova elaboração do conceito de paz, já não entendido como «ausência de guerra», mas como garantia de acesso de todos à vivência dos direitos fundamentais da pessoa».

Por esse motivo --afirmou-- se faz fundamental um diálogo respeitoso, sem por isso abandonar os próprios valores: «Deve prevalecer a inviolabilidade de cada pessoa como imprescindível para o diálogo, que não pode levar a ceder quando se trata dos valores absolutos».

«Hoje, ao contrário, corremos o risco do pensamento frágil que atenua o remeter-se às próprias raízes --advertiu. Mas a renúncia dos valores é só um gesto de falta de sinceridade».

Ao tomar a palavra, Amre Moussa recordou o dever de todos de «não cair prisioneiros das faixas extremistas e do choque de civilizações»: «corresponde-nos opor a todos os comportamentos destrutivos, a todas as realizações violentas».

Moussa falou da importância de uma ética do desenvolvimento em nome da igual dignidade da pessoa, porque ajudar o Terceiro Mundo a voltar a surgir quer dizer também rejeitar as disparidades e as injustiças que dividem os diversos povos.

O secretário-geral da Liga de Estados Árabes, que reúne 22 países em representação de 300 milhões de pessoas, tocou na questão palestina, em sua opinião um assunto imprescindível para a obtenção da paz.

Por isso, sublinhou a importância de criar um Estado palestino, ao menos antes do final deste ano, e de estabelecer «normais relações com Israel no contexto de um acordo geral de paz que restabeleça as fronteiras».

«A cidade de Jerusalém deve ser a cidade da paz, a cidade de todos e para todas as religiões --afirmou. E o objetivo é ter em Jerusalém a capital de ambos estados».

Em sua intervenção, o cardeal Tauran afirmou que «as religiões são fatores de paz», entendidas como «reflexo da harmonia divina», ainda que o paradoxo que se vive hoje é que «as religiões dão medo pelas ações de alguns crentes que traíram a própria fé».

«As injustiças, as enfermidades, as guerras de todo tipo --disse o purpurado-- não são uma fatalidade, mas a consequência de todos os nossos egoísmos (pessoais e coletivos», de nossa ignorância, de nossos erros não reconhecidos, de nossa incapacidade de extrair ensinamento das experiências --positivas e negativas-- do passado».

No caminho para a reconciliação entre os povos, disse, «a solidariedade é uma prioridade! Não há paz sem justiça! Todas as religiões convidam seus seguidores à compaixão: um crente não pode ser indiferente perante o homem que sofre ou que é vítima de quem é mais forte que ele».

Neste contexto, acrescentou, «a educação para a paz, que começa na família e na escola, é a melhor das estratégias para segurar a tranquilidade e a harmonia de amanhã».

«Portanto, os responsáveis religiosos têm o dever de indicar a via a empreender para dar a cada um a possibilidade de eleger, com liberdade e responsabilidade, a via justa».

Em seguida, observou que com freqüência se desvaloriza o patrimônio espiritual da oração que une os fiéis das diversas religiões.

«Eis aí por que sou do parecer --disse-- de que os crentes têm a missão de ser protagonistas de uma verdadeira e concreta “pedagogia da paz”, ou seja: primado da pessoa humana sobre o Estado e sobre a organização econômica da sociedade; especial atenção à justiça; rejeição da guerra como medo para resolver as controvérsias entre estados; primado do direito sobre a violência».

É vital, observou, o diálogo inter-religioso sobre as recíprocas identidades e especificidades, e o compromisso comum de todos os fiéis de «mobilizarem as consciências para que os homens compreendam que não podemos ser felizes uns sem os outros e, certamente, nunca uns contra os outros!».

«É uma mensagem que a humanidade precisa, especialmente os jovens, aqui tão numerosos --concluiu. A estes jovens, com freqüência herdeiros sem herança e construtores sem modelos, devemos dar ou devolver a alegria de viver e de viver juntos».