Renúncia e aceitação: a Igreja propõe mudanças

Entrevista com o cardeal Georges Cottier, testemunha do Vaticano II (parte 1)

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José Antonio Varela Vidal

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 17 de julho de 2012 (ZENIT.org) – Vive num pequeno apartamento da Cidade do Vaticano um dos mais longevos teólogos da Igreja contemporânea. Ele é testemunha de muitos eventos, correntes teológicas, orientações e atos históricos de vários papas dos séculos XX e XXI, como a publicação do Novo Catecismo e o pedido de perdão feito por João Paulo II.

Conversamos com o cardeal suíço Georges Cottier, OP, catedrático universitário durante décadas, ex-secretário da Comissão Teológica Internacional e teólogo pontifício, e ainda muito próximo do pensamento do papa atual.

ZENIT inaugura com ele uma série de entrevistas emolduradas pelo aniversário iminente da abertura do Concílio Vaticano II. Oferecemos a seguir, aos nossos leitores, a primeira de três partes da nossa conversa com este célebre teólogo dominicano.

Aos seus 90 anos de idade, qual foi o momento mais importante da sua vida?

Cardeal Cottier: Eu acredito que, diante de Deus, as coisas mais importantes foram o meu batismo e a minha formação cristã, porque eu venho de uma família que me educou como cristão. Depois vem a minha vocação para a ordem dominicana, que foi o maior presente da minha vida. E neste contexto, o dom mais importante foi o conhecimento do pensamento de São Tomás de Aquino.

E como cardeal?

Cardeal Cottier: A minha nomeação foi uma cortesia de João Paulo II, que me escolheu no último consistório que ele convocou, em 2003. Ele morreu em 2005 e eu acho que ele me tornou cardeal por bondade.

O que significa ter sido um teólogo pontifício?

Cardeal Cottier: Primeiro, foi uma surpresa: eu me lembro que dava aula em Friburgo e já estava aposentadoem Genebra. Tinha 68 anos e achava que a minha vida estava concluída. Foi aí que eu recebi uma mensagem do núncio, falando da nomeação que o papa João Paulo II tinha feito. Eu não sabia de nada, só sabia que era uma posição reservada para a ordem dominicana. Cheguei a Roma poucos meses depois e tinha que aprender o que era aquilo... E aprendi (risos).

O que o senhor está fazendo atualmente? Tem escrito?

Cardeal Cottier: Sim, eu escrevo um pouco. Algumas coisas sobre a teologia da história. Depois, vamos ver.

50 anos da abertura do Concílio Vaticano II. O que o senhor considera que foi bem assimilado do concílio?

Cardeal Cottier: Bom, foram feitas muitas coisas. A primeira é que a mudança foi muito profunda, e é perceptível não só na liturgia, mas também, por exemplo, na estrutura das conferências episcopais e no funcionamento de algumas delas, nos dicastérios da Igreja que antes não existiam, na união dos cristãos, no diálogo com os não crentes. Tudo isso é novo, são coisas que funcionam e até funcionam muito bem. A referência à justiça e à paz, que não existia antes do concílio, e a preocupação em dialogar com o mundo, a própria idéia da nova evangelização, tudo isso nasce com o concílio. O sínodo dos bispos e a doutrina dos últimos papas também têm como programa principal a aplicação do concílio. Podemos dizer que o concílio ainda encontra resistências, mas não existe nenhuma igreja nacional que diga não a ele. Ele é aceito em toda parte.

Há setores da Igreja que resistem. Em que sentido?

Cardeal Cottier: Eu acho que deveríamos fazer um ato de fé na Igreja. A grande crise que surgiu depois do concílio envolveu muitos católicos que viam a Igreja não como um mistério de fé, como o Corpo de Cristo, como o povo de Deus, a esposa de Cristo, mas como um fato sociológico. Tudo isso acontece por causa de algumas ideias equivocadas. Então é preciso primeiro ter uma visão de fé sobre a Igreja e fazer um estudo sério sobre o concílio, porque os documentos não foram suficientemente estudados para serem aceitos. Eu digo isto porque na minha geração, mais do que nas gerações mais recentes, algumas pessoas têm saudades do que elas viviam. Mas nós temos que ser capazes de renunciar...

Em uma entrevista, o senhor declarou que ficou muito impressionado com a questão da liberdade religiosa. O senhor acha que ela preparou a Igreja para os tempos de hoje, em que falta liberdade religiosa?

Cardeal Cottier: Claro. Eu me pergunto se, caso este instrumento não existisse, poderia ter havido uma representação da Igreja e das principais organizações internacionais, como a ONU e as organizações especializadas em direitos humanos. E diante de todos os países, é um documento muito forte, que também está ligado aos direitos humanos, e a Igreja pode vivê-lo no respeito pelas minorias. História é história, as coisas seguem adiante. A Igreja sempre leu na história aquilo que o concílio chama de "sinais dos tempos". Não se fala mais do mundo cristão e do resto que está fora: falamos de uma mudança enorme, que nos leva de volta aos primeiros séculos da Igreja, permitindo que ela exercite a sua vocação própria, que é a vocação missionária. A nova evangelização também quer dizer isso.

A Parte 2 desta entrevista será publicada amanhã, quarta-feira (18).

(Trad.ZENIT)