Renunciar para distribuir: regra do nosso jejum, diz cardeal

Dom José Policarpo presidiu à Missa de Quarta-feira de Cinzas na Sé Patriarcal

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LISBOA, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009 (ZENIT.org).- O cardeal-patriarca de Lisboa, Dom José Policarpo, indica aos fiéis que a regra do jejum nesta Quaresma seja «renunciar para distribuir».

Na homilia na Missa de Quarta-feira de Cinzas, na Sé Patriarcal, Dom José Policarpo explicou que a Quaresma é tempo de «conversão, atitude de quem não recusa o dom de Deus e aceita o confronto com a Sua Palavra criadora, e a transformação do coração».

A conversão é –disse o cardeal– saber que a mudança de vida que se deseja «não é o fruto da sua vontade e decisão humanas, mas da ação de Deus na sua vida».

«Supõe a sabedoria humilde de não desperdiçar os dons da graça, aqueles momentos e meios através dos quais Deus transforma o nosso coração», como, por exemplo, a Palavra de Deus, os sacramentos, a oração, a esmola.

Para alimentar o desejo e a esperança da conversão –explicou o patriarca de Lisboa–, Bento XVI propôs à Igreja, neste ano, «a redescoberta do sentido do jejum, lembrando-nos, no entanto, que ele é indesligável da oração e da esmola».

«As concretizações do jejum, como prática penitencial, que estão presentes na nossa memória são aquelas que herdámos de uma longa tradição: experimentar a fome do corpo para poder sentir a fome do espírito; renunciar a luxos e a prazeres físicos, tantas vezes ligados à comida, para nos abrirmos aos valores do espírito.»

«Sem negar nenhum destes aspectos, que mantêm grande atualidade, temos de enriquecer a prática do jejum no contexto das atuais exigências da caridade: privar-se e renunciar, para distribuir; experimentar a modéstia, para dominar a nossa vaidade; ser pobre para poder perceber e acolher muitos dos nossos irmãos», afirma.

Segundo Dom José Policarpo, hoje aumentam as exigências da partilha. «Renunciar para distribuir tem de ser a regra do nosso jejum, nunca esquecendo o conselho do Senhor: que a tua mão esquerda não saiba o que faz a mão direita».

«Temos assistido à exuberância do anúncio das medidas financeiras, económicas, sociais, para responder à crise. É compreensível porque o anúncio de medidas corretas pode suscitar a esperança.»

«Já me foi perguntado se a Igreja, com uma longa experiência de ajuda fraterna e social, não vai anunciar a sua estratégia, a sua maneira de responder à crise», afirma.

«“Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita!”. Para além das respostas estruturadas, públicas por natureza, este momento exige a ajuda silenciosa, discreta, de pessoa para pessoa, de vizinho para vizinho, na intimidade das comunidades», considera. 

Segundo o cardeal, «não está ao nosso alcance resolver os grandes problemas. Mas devemos acolher com amor, ajudar em tudo o que pudermos, porventura orientando as pessoas para outra fonte de solução. E aí, renunciar para partilhar pode ser manifestação da nossa esperança de conversão.»