Representante vaticano fala da imigração nos EUA

“É necessário deixar que os pobres questionem o mundo rico”

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WASHINGTON, terça-feira, 8 de junho de 2010 (ZENIT.org).- “O mais importante é a coragem de encarar os pobres face a face, para permitir que eles nos toquem o coração e questionem nosso mundo”, porque estas pessoas “têm uma face”, dignidade, entes queridos, família, “assim como nós”.

Foi o que afirmou o presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, Dom Antonio Maria Vegliò, em uma intervenção à qual teve acesso ZENIT, apresentada na Consulta Regional de Conferências Episcopais sobre Imigração, que se realizou em Washington, de 2 a 4 de junho.

Com relação aos Estados Unidos, ele lembra que a imigração mudou exteriormente a sociedade americana. “Porém, parece que estas mudanças não refletem uma aceitação maior da 'alteridade' e da boa disposição para uma mudança mútua e recíproca”.

O crescente “sentimento anti-imigrante” exige “uma reflexão séria sobre o que está acontecendo na sociedade”.

Neste sentido, ele elogiou o trabalho realizado pela Igreja nos Estados Unidos, pelo apoio à lei DREAM (desenvolvimento, ajuda e educação para os menores estrangeiros), a defesa dos estrangeiros ilegais e sua luta pela reforma da política de migração.

Outro setor preocupante é a integração dos refugiados, procedentes de países em conflito ou mesmo diretamente de campos de refugiados. Apesar dos programas de integração estatais, muitos deles continuam precisando de ajuda.

Nova escravidão

Dom Antonio Maria Vegliò também tocou na questão da exploração, não só pela indústria do sexo, mas também de outras formas de servidão e, particularmente, à exploração laboral.

“Devemos nos assegurar de que as vítimas tenham acesso à justiça, à assistência social e jurídica e à indenização por danos sofridos”, sublinha. Neste sentido, apela aos governos, aos sindicatos e, também, aos consumidores.

Mudança climática

“Esta nova forma de deslocamento terá consequências enormes nas próximas décadas. As estimativas frequentemente mencionadas e aceitas de 200 milhões de pessoas deslocadas no ano 2050, por efeito da mudança climática, indicam a dimensão gigantesca do problema. Sem dúvida, a migração humana será um das consequências mais significantes na mudança climática.”

Hospitalidade

“O acolhimento, a compaixão e a igualdade de tratamento fazem parte de uma resposta cristã apropriada, que rompe as barreiras sociais. É uma resposta às necessidades das pessoas, mas também um reconhecimento do seu valor e da humanidade compartilhada.”

O presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes conclui destacando um dos desafios atuais: estabelecer “políticas coerentes”, nas quais a imigração esteja em relação com outras políticas “como as de comércio e finanças, de segurança, de relações externas e de agricultura”.

Entre estas políticas necessárias, realça, mencionando uma carta de 2007 do Papa Bento XVI para a Chanceler Angela Merkel, “condições comerciais para os países pobres”, o “cancelamento completo e incondicional da dívida externa dos países pobres fortemente endividados e dos países menos desenvolvidos” e manter os compromissos “com respeito às ajudas ao desenvolvimento e cumpri-los”.

“O mais importante é a coragem de encarar os pobres face a face, para permitir que eles nos toquem o coração e questionem nosso mundo. Permitir-lhes compartilhar conosco o medo e o sofrimento que seus filhos experimentam pelos atos de violência, ou que sentem ao viver durante anos em um campo de refugiados saturado, debaixo de uma tenda de plástico, sem qualquer esperança de uma vida digna, e quanto se sofre por esta desumanização e por não ser considerado um ser humano, a não ser um número ou um ser vulnerável”, concluiu.