Responsabilidade dos médicos na promoção da cultura da vida (II)

Fala José María Simón Castellvi, da Federação Internacional de Médicos Católicos

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Por Inmaculada Álvarez

BARCELONA, domingo, 16 de março de 2008 (ZENIT.org).- A Federação Internacional de Médicos Católicos (FIAMC) prepara um documento internacional sobre o uso de métodos anticoncepcionais que será publicado antes do verão europeu, provavelmente em Roma, por ocasião do 40º aniversário da encíclica Humanae Vitae de Paulo VI. O atual presidente de FIAMC, o espanhol José María Simón Castellví, adiantou à Zenit alguns aspectos do conteúdo do documento, atualmente em fase de redação.

A Humanae Vitae foi muito criticada no momento de sua publicação, inclusive por alguns episcopados, ainda que praticamente todos a tenham aceitado logo. Quais foram os aspectos que mais rejeição provocou entre os próprios católicos?

–José María Simón: Quando se tem um problema (ou crê que o tem) e crê que não deve ter mais filhos, o pessoal da saúde nesse momento tem de dar uma resposta antropologicamente correta. Nesse momento, a pílula anticoncepcional parecia uma solução rápida, barata e direta, que não propunha os problemas éticos do aborto. Isto, unido à pressão da indústria farmacêutica, fez que se esquecessem outros meios.

A própria associação de médicos católicos dos Estados Unidos sofreu a esse respeito uma crise interna importante pelo apoio à pílula. Hoje, contudo, sua presidenta, Kathleen M. Raviele, é uma médica especialista em métodos naturais de regulação da fertilidade. As coisas foram mudando, mas agora, depois de quarenta anos, precisamos de um novo impulso.

Creio que neste tempo os médicos católicos não fizemos o que tínhamos de fazer. Muitas vezes não é só questão dos sacerdotes ou dar conselhos aos esposos em questões íntimas. Em nossas associações somos muitos os que vemos o problema, e queremos enfrentar nossa responsabilidade.

O que é que produziu essa mudança de postura com respeito à pílula?

–José María Simón: A volta ao respeito da natureza. Por exemplo, não sei se você recorda, quando eu era pequeno estava muito na moda a rejeição da lactação materna e a utilização massiva dos leites artificiais para alimentar os bebês. Isso se via como um avanço, ao contrário, agora é unânime o apoio à lactação materna. Esse industrialismo que parece que resolve tantas coisas, no fundo não é a solução.

Pois com a regulação da fertilidade acontece o mesmo: se a mulher tem dias férteis e outros inférteis, que permitem regular os nascimentos de forma natural, para que utilizar um método artificial que não respeita a natureza? Também a experiência mostra que os métodos naturais funcionam muito bem. Talvez existe o inconveniente de que deve-se aprendê-lo bem, etc. Mas a mulher que toma a pílula tem de fazer análises regulares, tem de fazer controles... tampouco é um método fácil.

Talvez estes métodos, que são apoiados nos ciclos da mulher e portanto são gratuitos, às vezes não são valorizados. Logo há mulheres com problemas, ciclos irregulares, patologias. Os métodos estão precisamente para isso, para orientar.

Crê que os métodos naturais deveriam ser ensinados nas Faculdades de Medicina, pelo menos naquelas que se dizem católicas?

–José María Smión: Sem dúvida. Também na Humanae Vitae, Paulo VI passava esta responsabilidade aos médicos. Talvez deveria figurar, não tanto como uma matéria em si, mas como um anexo importante da matéria de Obstetrícia.

Em todo caso, o nó do assunto, como propunha a Humanae Vitae, não é tanto o método anticoncepcional em si mas o valorizar a maternidade como um bem...

–José María Simón: Efetivamente, Paulo VI falava de «razões graves», que é preciso valorizar os esposos, que os filhos são um bem. Hoje, contudo, alguns esposos que querem ter os filhos que Deus lhes dê sofrem um preconceito grande, por parte muitas vezes dos próprios agentes de saúde. Há especialidades nas quais é melhor ir hoje ao profissional católico para evitar esse preconceito, por exemplo, no caso dos ginecologistas ou inclusive dos psicólogos e psiquiatras. E o problema aumenta porque não há muitas ginecologistas que sigam a doutrina da Igreja.

Nós estamos preparando atualmente um congresso de ginecologistas católicos que vai ser celebrado em Roma, e constatamos este problema. Muitas mulheres católicas não podem ir a ginecologistas que respeitem suas crenças: portanto, existe um mobbing para a maternidade, que muitas vezes não é direto mas existe: o gesto de uma parteira, a atitude de um médico... e não é a exceção, mas, infelizmente, a regra geral.

Por último, do conteúdo deste documento que a Fiamc prepara, o que poderá avançar como mais novo?

–José María Simón: Sem dúvidas, a assunção de suas responsabilidades por parte do médico católico. É uma responsabilidade da qual não podemos esquivar, nem sequer formalmente. Temos um problema, e nós somos uma peça chave nele, e portanto temos de enfrentá-lo.


[A primeira parte desta entrevista foi publicada em Zenit, 14 de março]