«Responsabilidade para com o próximo» frente à crise alimentar

Afirma o observador vaticano na ONU

| 993 visitas

Por Roberta Sciamplicotti

NOVA YORK, sexta-feira, 4 de julho de 200 (ZENIT.org).- Diante da crise alimentar que está atingindo todo o planeta, é necessário «assumir a responsabilidade para com o próximo», afirmou o arcebispo Celestino Migliore, núncio apostólico e observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas.

O prelado interveio na quarta-feira em Nova York, durante a Sessão 2008 do Conselho Econômico e Social (Ecosoc), no Debate para o Seguimento de Alto Nível, no qual se pede aos líderes mundiais que reflitam sobre os progressos alcançados em respeitar a agenda de desenvolvimento das Nações Unidas e sobre a urgência de enfrentar as necessidades de desenvolvimento das comunidades rurais.

A importância do tema, observou, vem sublinhada pela atual crise alimentar e pela involução econômica em alguns países desenvolvidos.

A crise alimentar «teve um impacto sobre todas as sociedades», manifestando-se, «em alguns lugares, sob a forma de escassez de alimentos, seguida de desnutrição e fome; em outros, em preços mais altos para as famílias que procuram enfrentar suas necessidades fundamentais».

Apesar das diversas manifestações, segundo o arcebispo o fenômeno deriva de «uma série de causas concomitantes», entre as quais se encontram as «políticas econômicas, agrícolas e energéticas míopes, que provocam um choque entre a crescente demanda de alimentos e sua produção insuficiente, o aumento das especulações financeiras sobre os bens, o incontrolável aumento do preço do petróleo e as condições climáticas adversas».

Para evitar que o debate seja «um mero exercício retórico e um evitar as responsabilidades», o prelado exortou a «trabalhar duramente para assegurar que este debate esteja acompanho de uma ação imediata e eficaz».

A crise alimentar mundial, denunciou, «ameaça a conquista do objetivo primário para cada pessoa, de ser livre da fome».

A essa luz, a Resolução sobre o Direito ao Alimento, adotada recentemente pelo Conselho para os Direitos Humanos, «sublinha justamente o dever dos estados, com a assistência da comunidade internacional, de realizar todos os esforços para enfrentar as necessidades alimentares de suas populações com medidas que respeitem os direitos humanos e a regra da lei».

No começo, sublinhou, «é preciso atuar para assistir todos os que sofrem desnutrição e fome», porque «é difícil pensar que, em um mundo que gasta mais de 1,3 bilhão de dólares por ano em armamento, os fundos ‘salva-vidas’ para ajudar os necessitados não estejam disponíveis».

Por este motivo, o prelado sublinha que «uma sincera vontade de enfrentar a questão deve ser acompanhada pela ação necessária, não só por palavras e intenções».

Do mesmo modo, a ajuda econômica de emergência inicial deve ser acompanhada por «um esforço concertado por parte de todos para investir em programas agrícolas sustentáveis e a longo prazo, no âmbito local e internacional».

O arcebispo Migliore recordou que, nos últimos 25 anos, verificou-se um notável progresso para reduzir o número de pessoas que vivem em extrema pobreza.

«Se não se investe novamente na agricultura, contudo, o progresso alcançado com duro trabalho e dedicação corre o risco de perder-se» observou, propondo portanto «reformas agrárias nos países em vias de desenvolvimento» que possam «dar aos pequenos agricultores os instrumentos para aumentar a produção de modo sustentável, assim como o acesso aos mercados locais e globais».

As políticas agrícolas e ambientais devem seguir «a via da razão e do realismo para equilibrar a necessidade de produzir alimentos com a de ser bons administradores da terra», acrescentou.

A atual escassez de alimentos, para o observador permanente, «volta a sublinhar a urgência de explorar novas fontes energéticas que não oponham o direito à alimentação a outros direitos».

Para resolver a emergência atual, de qualquer forma, é imprescindível uma eficaz colaboração internacional.

«O século XX sofreu tragicamente pelos efeitos de povos e governos que velavam só pelo território nacional e pela falta de consulta e de cooperação multilateral – conclui o arcebispo. A crise atual é uma oportunidade para a comunidade global de reunir-se e assumir a responsabilidade para com o próximo.»