Respostas de Bento XVI aos jornalistas no voo a Madri

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A BORDO DO VOO PAPAL, quinta-feira, 18 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, as respostas de Bento XVI às perguntas dos jornalistas no avião rumo a Madri, na manhã de hoje, em sua viagem para participar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

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Esta é a 26ª JMJ. No início do seu pontificado, nós nos perguntávamos se o senhor continuaria esse caminho do seu predecessor. Como o senhor vê o significado destes acontecimentos na estratégia pastoral da Igreja universal?

Bento XVI: Queridos amigos, bom dia. Estou muito contente por viajar com vocês à Espanha, por ocasião deste grande acontecimento. Depois de duas JMJ vividas pessoalmente, posso dizer que esta é verdadeiramente uma inspiração que foi doada pelo Papa João Paulo II, quando criou esta realidade: um grande encontro dos jovens do mundo com o Senhor. Eu diria que estas JMJ são um sinal, uma cascata de luz, dão visibilidade à fé, visibilidade à presença de Deus no mundo e, assim, dão a coragem para ser crentes. Com frequência, os crentes se sentem isolados neste mundo, quase perdidos. Aqui, veem que não estão sozinhos, que existe uma grande rede de fé, uma grande comunidade de crentes no mundo, que é belíssimo viver nesta amizade universal e, dessa maneira, nascem amizades que superam as fronteiras das diferentes culturas, dos diversos países. O nascimento de uma rede universal de amizade que une o mundo com Deus é uma importante realidade para o futuro da humanidade, para a vida da humanidade de hoje. Naturalmente, a JMJ não pode ser um acontecimento isolado, ela faz parte de um caminho maior. Deve ser preparado este caminho da cruz que viaja por diversos países e envolve os jovens com o sinal da cruz e o sinal da imagem de Nossa Senhora. Dessa forma, a preparação da JMJ, muito mais que uma preparação técnica – e é um acontecimento com muitos problemas técnicos –, é uma preparação interior, um colocar-se em caminho em direção aos outros e, juntos, em direção a Deus. E assim se criam grupos de amizade. Este contato universal abre as fronteiras das culturas e dos contrastes humanos e religiosos e, dessa maneira, torna-se um caminho contínuo, que depois leva a um novo cume, uma nova JMJ. Penso que a JMJ deve ser concebida neste sentido, como um sinal, como parte de um grande caminho, algo que cria amizades, abre fronteiras, torna visível que é belo estar com Deus, que Deus está conosco. Neste sentido, queremos continuar com esta grande ideia do Beato João Paulo II.

A Europa e o mundo ocidental vivem uma crise econômica profunda, que manifesta também sinais de uma grande crise social e moral, de grande incertezas para o futuro, particularmente dolorosa para os jovens. Que mensagem a Igreja pode oferecer para dar esperança e incentivo aos jovens do mundo inteiro?

Bento XVI: Confirma-se, na atual crise econômica, o que já se viu na grande crise precedente: a dimensão ética não é algo alheio aos problemas econômicos, mas uma dimensão interior e fundamental. A economia não funciona somente com uma autorregulamentação mercantil, mas tem necessidade de uma razão ética para funcionar para o homem. Pode constatar-se o que João Paulo II já havia dito em sua primeira encíclica social: que o homem deve se colocar no centro da economia e que a economia não deve ser medida segundo o maior lucro possível, mas segundo o bem de todos, e inclui a responsabilidade pelo outro. E funciona bem somente se funcionar de maneira humana, no respeito pelo outro, em suas diversas dimensões: responsabilidade com a própria nação, e não somente consigo mesmo, responsabilidade com o mundo. A nação não está isolada, nem sequer a Europa está isolada, mas é responsável por toda a humanidade e deve pensar sempre em enfrentar os problemas econômicos a partir dessa ótica de responsabilidade, em particular com as demais partes do mundo, com as que sofrem, têm sede e fome e não têm futuro. Portanto, a terceira dimensão desta responsabilidade é a responsabilidade com o futuro: sabemos que temos de proteger o nosso planeta, mas temos de proteger o funcionamento do serviço do trabalho econômico para todos e pensar que o amanhã é também o hoje. Se os jovens de hoje não encontram perspectivas em sua vida, também o nosso hoje está equivocado, está mal. Portanto, a Igreja, com sua doutrina social, com sua doutrina sobre a responsabilidade diante de Deus, abre a capacidade de renunciar ao máximo lucro e a ver nas realidades a dimensão humanística e religiosa, isto é, estamos feitos um para o outro e, dessa maneira, é possível também abrir caminhos, como acontece com o grande número de voluntários que trabalham em diferentes partes do mundo, não para si mesmos, mas para os outros, e encontram assim o sentido da própria vida. Isso pode ser alcançado com uma educação nos grandes objetivos, como a Igreja tenta fazer. Isso é fundamental para o nosso futuro.

Eu gostaria de lhe perguntar qual é a relação entre verdade e multiculturalidade. A insistência na única Verdade, que é Cristo, pode ser um problema para os jovens de hoje?

Bento XVI: A relação entre verdade e intolerância, monoteísmo e incapacidade de diálogo com os outros, é um tema que com frequência volta ao debate sobre o cristianismo de hoje. Naturalmente, é verdade que, na história, também houve abusos, tanto do conceito de verdade como do conceito de monoteísmo. Houve abusos, mas a realidade é totalmente diferente, pois a verdade só é acessível na liberdade. É possível impor, com a violência, os comportamentos, observâncias, atividades, mas não a verdade. A verdade se abre somente ao consentimento livre e, por este motivo, liberdade e verdade estão intimamente unidas, uma é condição da outra. No demais, buscamos a verdade, os valores autênticos, que dão vida ao futuro. Sem dúvida alguma, não queremos a mentira, não queremos o positivismo de normas impostas com certa força. Só os autênticos valores levam ao futuro e é necessário, portanto, buscar os valores autênticos e não deixá-los ao arbítrio de alguns, não deixar que se imponha uma razão positivista que nos diz que não existe uma verdade racional sobre os problemas éticos e os grandes problemas do homem. Isso significa expor o homem ao arbítrio dos que detêm o poder. Temos que nos colocar sempre em busca da verdade, dos valores, temos direitos humanos fundamentais. Os direitos fundamentais são conhecidos e reconhecidos e precisamente por isso nos colocam em diálogo uns com os outros. A verdade como tal é dialogante, pois busca conhecer melhor, compreender melhor, e o faz em diálogo com os outros. Dessa maneira, buscar a verdade e a dignidade do homem é a melhor defesa da liberdade.

O que é preciso fazer para que a experiência positiva da JMJ continue na vida de cada dia?

Bento XVI: A semeadura de Deus sempre é silenciosa, não aparece imediatamente nas estatísticas, e essa semente que o Senhor semeia com a JMJ é como a semente da qual o Evangelho fala: uma parte cai no caminho e se perde; uma parte cai na pedra e se perde; uma parte cai nos espinhos e se perde; mas uma parte cai em terra boa e dá muito fruto. Isso é precisamente o que acontece com a semeadura da JMJ: muito se perde e isso é humano. Com outras palavras do Senhor, a semente de mostarda é pequena, mas cresce e se converte em uma grande árvore. Certamente se perde muito, não podemos dizer que, a partir de amanhã, recomeça um grande crescimento da Igreja. Deus não age assim. Cresce em silêncio. Sei que outras JMJ suscitaram muitas amizades para a vida, muitas novas experiências de que Deus existe. E nós confiamos neste crescimento silencioso e estamos certos de que, ainda que as estatísticas não falem muito disso, a semente do Senhor realmente cresce. Para muitas pessoas, será o começo de uma amizade com Deus e com os outros, de uma universalidade de pensamento, de uma responsabilidade comum que realmente mostra que estes dias dão fruto.

[Tradução a partir de uma transcrição jornalística realizada por Jesús Colina]