Roma longe de casa; uma obra-prima na Pensilvânia

Murais de igreja usados como magisterium; acontecimentos atuais como inspiração

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Por Elizabeth Lev 

PITTSBURGH, quarta-feira, 18 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – Encontrei nesta semana um pequeno tesouro romano a 7.500 quilômetros de casa, num lugar inesperado como Pittsburgh. Entre as muitas atividades de que desfrutei durante a minha visita à Universidade de Duquesne, para celebrar o décimo aniversário do nosso campus italiano, visitei a assombrosa igreja católica croata de São Nicolau em Millvale, Pensilvânia.

A igreja de São Nicolau foi construída num local cheio de fundições de ferro, fábricas, serrarias e destilarias. Foi a primeira igreja católica croata dos Estados Unidos. No fim do século XIX, 50.000 imigrantes croatas chegaram a Pittsburgh em busca de trabalho nas prósperas indústrias.

A primeira igreja de São Nicolau pegou fogo em 1921, mas foi reconstruída três anos depois. A estrutura foi completada, mas as paredes estavam nuas, o que dista das tradições decorativas da Europa. Em 1929, foi designado para a paróquia um novo padre franciscano esloveno, Albert Zagar, de uma ordem famosa por usar a arte para pregar e as paredes da igreja como púlpito. O padre Zagar pensou logo na decoração, mas não tinha os recursos nem um artista capaz da tarefa.

A providência decretou que o autor socialista Louis Adamic unisse o sacerdote e o pintor. Em 1935, o padre Zagar foi apresentado a Maxo Vanka, imigrante croata e artista que vivia em Nova Iorque. Vanka nasceu em Zagreb em 1889, mas se mudou para a Bélgica para estudar arte. Depois de servir na Cruz Vermelha como motorista de ambulância, durante a Primeira Guerra Mundial, foi morar na América em 1934 e se casou com Margaret Stettan em Nova Iorque.

Em 1937, Vanka aceitou decorar a igreja com pinturas murais em têmpera. São Nicolau seria o único mural pintado pelo artista, que produziu principalmente retratos e pinturas em madeira. Depois das primeiras oito semanas de trabalho, o artista tinha coberto as paredes de metade da igreja, e em 1941 voltou para completar a obra. Cada parede foi pintada apenas pelo seu pincel: uma espécie de Capela Sistina de Maxo Vanka.

Como Michelangelo, Vanka produziu diversos desenhos de si mesmo trabalhando nos andaimes, numa obra em que dispunha de poucos ajudantes. O programa foi o fruto das conversas entre o padre Zagar e Vanka, e de um profundo entendimento da cultura croata, do cristianismo e dos problemas da época.

O padre Zagar já estava pensando nos murais em 1934, três anos depois da encíclica Quadragesimo anno, do Papa Pio XI, que reiterava pontos da Rerum novarum, do Papa Leão XIII. Estas encíclicas são o fundamento da doutrina social católica, especialmente quanto ao trabalhador e à sociedade industrializada. Os ensinamentos papais parecem ter achado as suas ilustrações nos murais de Maxo Vanka. As pinturas são como a Bíblia, uma encíclica e um jornal, os três em um.

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Durante muitos anos ouvi falar de Malcolm Miller, que conhecia a catedral de Chartres com uma familiaridade nascida de anos de estudos diários. Sempre imaginei como seria conhecê-lo antes de ele se tornar uma lenda, passeando por uma igreja e encontrando alguém que conhecesse cada centímetro do seu espaço.

Em São Nicolau, encontrei uma pessoa assim: Mary Petrich, que, segundo suas próprias palavras, “esteve estudando esses murais durante 72 anos”.

Paroquiana de São Nicolau desde a infância, Petrich ama a arte da sua igreja como os franciscanos amam os murais de Giotto em Assis. Utilizando lâmpadas poderosas, como no cinema, ela começou focando o altar, onde, a doze metros de altura, Maria, Mãe da Croácia, flutua numa abside sob a invocação “Rogai por nós”.

Petrich incentiva o visitante a observar como os murais se relacionam e se complementam, conforme a grande tradição dos ciclos de afrescos europeus.

Ela aponta, na abside, um afresco com um tema baseado nas campinas croatas, vestes campestres, campos semeados e um singelo piquenique. Do outro lado vê-se a cidade de Millvale, ativa, com nuvens de fumaça industrial ondulantes, que refletem a promessa de prosperidade. Agricultores de um lado perante mineiros do outro, numa exaltação da virtude do trabalho. Dois homens que aparecem nos campos croatas reaparecem depois entre os mineiros, como tributo aos milhares de croatas imigrantes.

Mas ambos, a Croácia e a industrializada América, conheceram dificuldades. Os chamativos altares da Crucificação e a Pietà nos preparam para o sofrimento de Cristo e da sua Mãe, a Igreja. As mães são um tema importante na arte: nunca são frágeis; sempre poderosas, robustas e firmes.

Ao se contemplar esses altares, duas imagens impactam. A primeira é chamada “A Mãe Croata Cria o Filho para a Guerra”, que mostra um grupo de mulheres chorando sobre o corpo de um homem jovem, morto em batalha. A paisagem está cheia de túmulos com espaço para mais. Do outro lado, Vanka pintou “A Mãe Croata Cria o Filho para a Indústria”, rememorando a explosão de uma mina em que 72 mineiros ficaram presos. Vanka deu voz aos que não a tinham, protestando contra uma situação em que morreram 500.000 mineiros nos Estados Unidos entre 1930 e 1940, 64.000 em apenas um ano. A igreja sempre organiza visitas especiais em 1º de maio, por ocasião da festividade de São José Operário.

Na segunda série, pintada durante a Segunda Guerra Mundial, Vanka ilustrou o horror da guerra. No teto baixo da entrada da igreja, a imagem de Maria quase esmaga o visitante, situada de pé entre os soldados em guerra, e ao seu lado Cristo crucificado. Seu peito está cheio de tiros e um soldado está a ponto de enfiar uma baioneta em Seu coração ardente. Tanto os olhos de Maria como os de Jesus são extraordinariamente grandes, enfatizando a crueldade e a barbárie vistas no século passado.

Poderosas imagens de guerra e morte, injustiça e sofrimento, matizadas com suaves toques de natureza. Flores que crescem sobre um arame de puas, que brotam num campo de batalha, evocam a encíclica de Bento XVI do ano 2007, Spe salvi, “Somos salvos na esperança”.

Mary Petrich destacou detalhes adoráveis (um coelho que se assoma num canto), mas sempre com a permanência da grande mensagem central da arte, a interseção de Cristo, Maria, a Igreja e seu rebanho, lutando ao longo das várias épocas e desafios, e seguindo a mensagem de Cristo.

Petrich encerrou a visita com uma observação e uma pergunta: “Esses murais sempre me desafiam. Como diz o profeta Miqueias, em 6,8: 'O que Deus quer de ti? Nada além de praticar a justiça, amar a fidelidade e caminhar humildemente com teu Deus’”.

Esses assombrosos murais de São Nicolau provocam, inspiram e rememoram. São próprios de seu tempo e ao mesmo tempo atemporais. São a definição de obra-prima da arte cristã.

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* Elizabeth Lev leciona Arte e Arquitetura Cristãs no campus italiano da Duquesne University e no programa de Estudos Católicos da Universidade San Tommaso.