Santa Sé: crise alimentar, primeiro desafio do mundo atual

Intervenção do observador permanente vaticano na ONU

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Por Roberta Sciamplicotti

NOVA YORK, segunda-feira, 19 de maio de 2008 (ZENIT.org).- A cada vez mais extensa crise alimentar é a emergência e o maior desafio que o mundo atual tem de enfrentar, denunciou o arcebispo Celestino Migliore, núncio apostólico e observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas.

Intervindo em 16 de maio passado na 16ª sessão da Comissão sobre Desenvolvimento Sustentável, do Conselho Econômico e Social, durante o debate de alto nível, titulado «The way forward», o prelado expressou em primeiro lugar a dor e a solidariedade da Igreja pelas vítimas do ciclone em Mianmar e do terremoto na China.

«Estes desastres e seu impacto sobre a vida humana e sobre o desenvolvimento sustentável nos recordam nossa importante responsabilidade, como líderes governamentais, de indicar a via a seguir para enfrentar as muitas questões relativas ao desenvolvimento e para encontrar meios para construir um futuro melhor», observou.

O mundo, sublinhou o observador permanente, «está atualmente diante do desafio de enfrentar este objetivo sob forma de uma crise alimentar global».

Segundo o arcebispo, esta crise «revela a natureza delicada e interconectada da agricultura, do desenvolvimento rural, da reforma agrícola, da seca e da desertização, e apresenta uma tarefa desalentadora, mas ao mesmo tempo importante e urgente aos políticos e à sociedade civil».

Muitos, observou, se perguntam sobre as verdadeiras causas e sobre as conseqüências a médio e longo prazo da crise alimentar e de suas tendências fundamentais.

Neste sentido, as Nações Unidas «têm uma precisa responsabilidade e também um interesse de credibilidade em proporcionar respostas apropriadas, visando a soluções eficazes, porque está em jogo a capacidade da humanidade de proporcionar comida».

Segundo o arcebispo Migliore, «a crise alimentar não deveria ser medida só pelo aumento dos custos nos mercados internacionais, mas também pelo custo físico, mental e espiritual de todos que são incapazes de prover a si mesmos e a suas famílias».

Investir em programas agrícolas a longo prazo e sustentáveis no âmbito local e internacional, reconheceu, «continua sendo central para as perspectivas de desenvolvimento de muitas pessoas».

Estes investimentos devem ser realizados de forma que enfrentem os preços dos produtos alimentares, assim como a distribuição e a produção de alimentos no mundo, sobretudo na África».

Em vista disso, deve-se ajudar sustentando os programas que permitam aos camponeses produzir bens alimentícios no âmbito local, assim como se devem realizar maiores esforços para aliviar «os aspectos negativos das mutáveis realidades ambientais e financeiras».

«As políticas agrícolas devem redescobrir a via da razão e da realidade para equilibrar a necessidade de produção de alimentos com a necessidade de ser bons administradores da terra – constatou. Deve-se ter cuidado para enfrentar as necessidades fundamentais das pessoas e evitar a redução do diálogo a extremos econômicos e meio ambientais interessados e guiados por motivações ideológicas.»

Cerca de 70% dos pobres do mundo, recordou Migliore, vive em zonas rurais, nas quais continua existindo a desnutrição crônica.

Este dado ilustra claramente que, ao enfrentar o desenvolvimento sustentável, deve-se continuar concentrando-se «não só em quem consome os bens alimentícios, mas também em quem os produz».

Desde este ponto de vista, são desejáveis maiores investimentos a favor dos pequenos agricultores, que lhes permitam aumentar a produção de modo sustentável e representem «um importante elemento para enfrentar à presença contínua da fome e da desnutrição crônicas em certas regiões».

Se a atual crise alimentar é uma ameaça imediata ao desenvolvimento, a sociedade deve continuar enfrentando também outros «desafios persistentes e iminentes», como a mudança climática, os subsídios agrícolas daninhos, o comércio eqüitativo, a degradação meio ambiental e a reforma agrária.

«Através de uma maior solidariedade internacional e da preocupação pelos mais vulneráveis em nossas sociedades, poderemos enfrentar os desafios imediatos trabalhando ao mesmo tempo para assegurar que o progresso de hoje seja a pedra angular de um amanhã mais justo e seguro», concluiu.