Santa Sé pede fim do preconceito contra África

Intervenção do arcebispo Celestino Migliore na ONU

| 1824 visitas

Por Roberta Sciamplicotti

NOVA YORK, quinta-feira, 22 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Certos preconceitos contra a África “devem ser eliminados de uma vez por todas”, declarou o arcebispo Celestino Migliore, núncio apostólico e observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas.

O prelado interveio nesta quarta-feira em Nova York, na 64ª Sessão da Assembleia Geral do organismo sobre “Novas colaborações econômicas para o desenvolvimento da África: progresso na implantação e apoio internacional”. 

“Quando se fala da África, seja no âmbito jornalístico, acadêmico ou político, fala-se também de extrema pobreza, golpes de Estado, corrupção e conflitos regionais”, constatou, e quando se fala positivamente do continente, “é sempre de seu futuro, como se atualmente não tivesse nada a oferecer”.

A realidade, assinalou Dom Migliore, é que a África, “também em seus momentos mais difíceis”, soube “proporcionar à comunidade internacional exemplos e valores dignos de admiração, e hoje pode oferecer também sinais da realização de muitas de suas esperanças”.

Sinais de êxito 

Neste sentido, o prelado citou vários casos nos quais o continente demonstrou “sua grande capacidade para administrar os processos de transição à independência ou de reconstrução posterior a situações de conflito”. 

Também convidou a considerar “a presença de tantos funcionários válidos das Nações Unidas e das agências da ONU através dos quais a África mostra ao mundo a capacidade e os talentos de sua população na gestão do setor multilateral”, assim como “a crescente contribuição dos filhos e filhas da África à vida científica, acadêmica e intelectual dos países desenvolvidos”.

Alguns países africanos conseguiram também grandes progressos no setor agrícola, obtendo resultados “considerados até este momento impossíveis”.

E ainda mais importante, acrescentou, é o fato de que muitos Estados tenham conseguido dar “passos destacados no setor da educação elementar e da melhora da situação da mulher”.

Objetivos para o futuro

O observador permanente reconheceu também que, apesar destes êxitos, a maior parte da população do continente vive em condições de “extrema pobreza”, e que o objetivo de reduzir a indigência à metade em 2015 está “além do alcance da maioria dos países africanos”.

Por isso, destacou, a África precisa “de uma solidariedade efetiva” para erradicar o inaceitável flagelo da pobreza e colocar à disposição dos demais países o verdadeiro potencial africano”.

Junto a isso, é útil “um forte reforço de seu apoio econômico de base, consistente na ajuda ao desenvolvimento e nas subvenções oficiais”.

Do ponto de vista financeiro, são necessários programas de financiamento no longo prazo para “superar a dívida externa dos países pobres, muito endividados”, sem esquecer que as condições comerciais internacionais devem “adaptar-se às necessidades e aos desafios econômicos”.

Apoio à agricultura

Recordando que, no contexto da crise atual, os países desenvolvidos “não devem reduzir as ajudas ao desenvolvimento”, mas “aumentar seu investimento”, o prelado destacou que a África precisa também de apoio a seus programas agrícolas.

Ao enfrentar o drama da insegurança alimentar, de fato, devem-se considerar “os sistemas estruturais” e, por exemplo, facilitar as exportações que permitam aos agricultores africanos sobreviver.

O longo declive dos investimentos para que se alimentem a si mesmos e seus vizinhos só provocará uma contínua e inútil perda de vidas humanas por uma inadequada segurança alimentar, e crescentes conflitos pelos recursos naturais”. 

Diversificação econômica e integração política

Para ajudar o continente africano a melhorar sua própria situação, o arcebispo também propôs um apoio à diversificação da economia. 

Com este objetivo, referiu-se à recente institucionalização do G20 como a “um forte ponto de referência para administrar a economia mundial”.

A participação dos países emergentes ou em vias de desenvolvimento “permite agora administrar melhor a crise”, e “as economias que conseguem com êxito, em maior ou menor medida, diversificar as próprias estruturas industriais e agrícolas emergentes, são as que influirão na política e na economia mundial”, disse. 

Dom Migliore concluiu sua intervenção destacando a importância das iniciativas regionais e subregionais de cooperação econômica, comercial e cultural, de gestão de conflitos, de manutenção da paz e de reconstrução, que devem ser “promovidas e reforçadas”.

A economia integrada do momento atual não faz supérflua a função dos Estados – disse. Compromete, ao contrário, os governos a uma maior colaboração mútua”.

E concluiu: “a articulação da autoridade política no âmbito local, nacional e internacional é uma das melhores maneiras para dar uma direção ao processo de globalização econômica”.