Santa Sé pede que pobres sejam ouvidos nas decisões econômicas

Intervenção do observador permanente da Santa Sé na ONU

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Por Roberta Sciamplicotti

 

NOVA YORK, segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008 (ZENIT.org).- A Santa Sé pede uma maior participação dos pobres nos processos de decisão no campo econômico e recorda que o valor de uma sociedade depende do trato e da atenção que reserva a seus membros mais frágeis.

É esta a mensagem expressa em 7 de fevereiro passado em Nova York pelo arcebispo Celestino Migliore, núncio apostólico e observador permanente ante as Nações Unidas, ao intervir na 46ª sessão da Comissão para o Desenvolvimento Social.

A Santa Sé, disse o arcebispo, sublinha que as necessidades dos que têm menos recursos devem ser prioritárias nas decisões dos líderes do setor financeiro e que «cabe ao nível internacional prover uma plataforma para os pobres porque, com mais freqüência, são deixados sem voz na busca por soluções para os problemas que também lhes importam profundamente».

A proposta do observador permanente é a de criar «um ambiente e estruturas que possibilitem as pessoas de desempenhar uma parte ativa na tomada de decisões».

Se a globalização abriu as portas à prosperidade econômica para muita gente, denunciou, «suas crises continuam afetando desproporcionalmente os membros mais fracos da nossa sociedade».

Por isso, «a resposta do governo a estes desafios deve ser guiada pelo princípio moral de que uma boa sociedade é medida pela extensão com que aqueles com responsabilidade atendem às necessidades dos membros mais fracos, especialmente aqueles com maior necessidade».

Uma sociedade válida é aquela em que «todos se beneficiam do bem comum e ninguém é deixado de fora do interesse comum. Políticas econômicas que ajudam as pessoas trabalhadoras de baixa renda a viver dignamente, ter vidas decentes, deveria ser uma prioridade de qualquer boa sociedade digna do nome».

Para o bom andamento da sociedade, acrescentou o arcebispo, é prioritária a promoção do pleno empenho e do trabalho digno para todos.

A delegação vaticana, explicou, sublinha em especial dois aspectos da questão trabalhista: o fato de que «a falta de emprego e trabalho digno e a pobreza associada a estes, além da desintegração social, ofendem a dignidade humana; e em segundo lugar, que nós apenas podemos afirmar a verdade das pessoas se as ouvirmos e levarmos concretamente suas necessidades em consideração».

«A aceleração constante dos ciclos de crescimento e criação de trabalho por um lado, e de recessão e perdas de emprego por outro, causam distúrbio às relações financeiras e de comércio, bem como a seus mecanismos», observou.

«O mundo se preocupa para onde as consternações financeiras, provocadas pela crise no setor imobiliário em algumas das economias mais desenvolvidas, nos levarão.»

Em um contexto econômico deste tipo, a Comissão para o Desenvolvimento Social da ONU «é desafiada a apresentar as necessidades para formas efetivas de proteger as famílias de baixa renda e trabalhadores do colapso financeiro».

Assisti-las, constatou o arcebispo Migliore, «é uma questão de justiça e solidariedade, mas é também uma medida financeira para estimular as economias nacionais e o mercado internacional».

«Tal assistência apenas será efetiva se as medidas tomadas pelas economias mais fortes não exacerbam a situação nas economias em desenvolvimento. Desde que este risco cresce altamente na economia independente, a comunidade internacional deve ser vigilante para evitar esta prática de acontecer.»

A delegação vaticana sublinhou por último que a persistência da pobreza, o desemprego e a desagregação social são uma conseqüência da desconfiança e da ausência de relações justas entre diversos componentes dos mecanismos econômicos e sociais.

«A falta de confiança mútua entre as partes também significa uma falta de confiança no futuro que, por outro lado, significa a falta de segurança de emprego.»

As pessoas, e sobretudo os jovens em busca do primeiro emprego, «descobrem significado e confiança no futuro quando encontram um emprego de longo prazo com a oportunidade para uma promoção merecida».

Por isso, observou o arcebispo, é mais urgente que nunca responder às necessidades daqueles que «buscam um emprego digno e oportunidades para se moverem para fora da pobreza e evitarem a marginalização, a exploração e a desintegração social».

«Aqueles que buscam melhorar suas vidas nos procuram para agir – concluiu o prelado. Minha delegação espera que nossas palavras aqui rapidamente se convertam em ações.»