Santo Inácio de Loyola

Seduzido pela leitura de livros piedosos, o futuro fundador da Companhia de Jesus deixou armas e ideais cavalheirescos e realizou grandes façanhas para a maior glória de Deus

Madri, (Zenit.org) Isabel Orellana Vilches | 586 visitas

“Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, todo o meu ser e o meu possuir; vós o destes a mim: a vós, Senhor, eu o devolvo; tudo é vosso, de tudo disponde à vossa vontade; dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta”.

Esta profunda oração encerra os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, pequeno de altura física, grandioso no coração e na proverbial obediência, nascido no castelo de Loyola, em Guipúzcoa, na Espanha, em 1491, numa família da nobreza. Caçula de oito irmãos, foi educado na casa de Juan Velázquez, contador-mor dos Reis Católicos. Seu contato com a corte marcou e encerrou uma etapa em sua vida de dispersão e de afãs de glória.

Em 1517, depois da morte de Juan, entrou na carreira militar. Mas em 1521, possivelmente em 20 de maio, no transcurso de uma batalha contra os franceses em Pamplona, uma bala de canhão atingiu a sua perna direita, logo abaixo do joelho. Enquanto convalescia de uma das operações cirúrgicas que sofreu e que o deixou manco para o resto da vida, pediu livros de cavalaria para se distrair. Não havia. Ofereceram-lhe o relato da vida de Cristo e um santoral.

Eles modificaram a sua perspectiva existencial: “Eu imaginava que tinha de competir com um tal santo em jejuns, com outro tal na paciência, com aquele outro nas peregrinações”. As façanhas dos valorosos seguidores de Cristo, que em nada se assemelhavam às que conhecia o aguerrido soldado, o seduziram e ele se converteu. Arrependeu-se do seu passado e decidiu viver com a radicalidade evangélica à qual se sentiu chamado.

Em seu entorno, não passou despercebida a mudança do combativo militar, que, de repente, falava só de assuntos religiosos. E embora desconhecesse que passos tinha que dar, era claro, para Inácio, que seriam passos rumo à consagração. Ele se recluiu em Montserrat. Com o espírito de um cavalheiro, depositou suas armas aos pés de Maria, depois de ter velado toda a noite perante a sua imagem, com seus novos companheiros de caminho: as vestes do peregrino.

Sonhava já com Jerusalém. Queria se ver na terra de Jesus, a quem desejava “conhecer melhor, para imitá-lo e segui-lo”. Foi então para Manresa, fazer oração e penitência, e ali, fundamentados na sua experiência pessoal, redigiu os exercícios espirituais.

Uma noite, a Virgem Maria lhe apareceu com o Menino Jesus e ele sentiu-se invadido pela sua doçura. Quando abandonou o lugar, levou consigo um patrimônio espiritual que o deixou marcado para sempre.

Em 1523, viajou para a Terra Santa. Sua vontade era permanecer nos Santos Lugares, mas, diante dos muitos perigos que atocaiavam os peregrinos, foi dissuadido pelos franciscanos, que praticamente o obrigaram a retornar à Espanha. Sem saber ainda que caminho seguir, decidiu estudar quando chegou a Barcelona por volta de 1524, a fim de “ajudar as almas”. Completou os estudos em Alcalá de Henares e em Salamanca.

A difusão dos exercícios lhe acarretou muitos sofrimentos: processo, proibição de pregar, açoites, prisão. Atrás dele estava a Inquisição, mas Inácio aceitou todo o sofrimento com alegria, por amor a Cristo.

Em Paris, onde estudou Artes com um grupo de sete companheiros, entre os quais Francisco Xavier e Pedro Fabro, deu início à fundação da Companhia de Jesus com o lema “Ad maiorem Dei gloriam”. Compartilhou com eles a sua experiência em Manresa, o que aprendera da leitura de vidas dos santos e, principalmente, o evangelho. Concordaram todos em ir para a Palestina evangelizar. E colocaram-se todos à disposição do pontífice. Em 1534, emitiram seus votos na capela de Montmartre.

Conforme tinham combinado, encontraram-se depois em Veneza. Mas em 1535, novos problemas de saúde obrigaram Inácio a voltar para a Espanha. O sonho de todos continuava sendo estabelecer-se na Palestina, mas a guerra contra os turcos o tornou inviável. Em Veneza, em 1537, já com Inácio à frente, o grupo, que crescera em número, se transferiu para Roma e se pôs sob o amparo de Paulo III. O papa os acolheu e ordenou sacerdotes no mesmo ano aqueles que ainda não tinham recebido o sacramento da ordem. Na capela Storta, a alguns quilômetros de Roma, Cristo disse a Inácio, em uma visão trinitária: “Quero que tu nos sirvas”.

Com a aprovação do papa em 1540, a Companhia de Jesus se tornou uma realidade eclesial e canônica, embora a redação das constituições se prolongasse até 1551. Aos votos de castidade e de pobreza, acrescentaram o de obediência ao máximo superior, que estaria, por sua vez, submetido ao pontífice. Era um dos sinais do espírito militar que fazia parte da educação e da vida do seu fundador, e que ele quis transmitir à Companhia com novo sentido espiritual.

Com esta fundação, os jesuítas se dispuseram a lutar para conter o protestantismo e outras deficiências sociais, propagando a fé católica. Constatou-se logo o formidável trabalho desses religiosos. As vias de apostolado fundamentalmente eram o cuidado dos doentes e o ensino, que os primeiros integrantes realizavam estimulados pela fortaleza e pelo entusiasmo de Inácio.

Unanimemente, Inácio foi eleito superior geral da Companhia em 1541. A atração dos jovens pelo carisma crescia; foram chegando alguns de excepcionais qualidades. Limitado por graves problemas de saúde, o fundador permaneceu em Roma, dedicado ao retiro e à oração. Tinha encarnado o seu propósito: “Em tudo, amar e servir”. Manteve-se à frente da Companhia, que se estendeu pela Europa, América e Ásia. Enquanto isso, escrevia obras formativas e criava prestigiosos centros acadêmicos, tudo para a maior glória de Cristo e da sua Igreja.

Em 1551, quis renunciar como superior geral, mas não lhe permitiram. No início de julho de 1556, uma forte febre o atacou, mas seu ânimo apostólico permanecia invicto. No dia 31 daquele mês, morreu serena e inesperadamente. Paulo V o beatificou em 3 de dezembro de 1609. Gregório XV o canonizou em 12 de março de 1622.