São Francisco de Assis "nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja", disse o pregador da casa Pontifícia

Na primeira pregação do Advento, Pe. Raniero Cantalamessa explicou de que forma o patrono da Itália contribuiu para a reforma da Igreja

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 798 visitas

“O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis”, disse Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na sua primeira pregação de Advento dirigida ao Santo Padre e aos prelados da Cúria na manhã desta sexta-feira.

Seguindo o Poverello de Assis Pe. Raniero se aventurou em compreender qual o caminho de santidade de São Francisco, caminho este que foi causa de reforma para a Igreja, e, portanto, saber como nós, hoje, poderíamos fazer o mesmo.

Em primeiro lugar o pregador da casa pontifícia destacou que a conversão de Giovanni de Pietro de Bernardone não foi propriamente uma obra pessoal, uma obra fruto do esforço pessoal, mas de Deus. “Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres!” Porém, a escolha verdadeira não se tratou de “escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres”, mas “de escolher entre si mesmo e Deus”. Em definitiva, Francisco não “apaixona-se por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa”, Cristo. E no fundo no fundo, não foi ele que o procurou, mas foi o próprio Cristo que "tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento certo, respondesse à graça".

Na época do santo de Assis - destaca Pe. Raniero - “Todos brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o papado”.

Francisco, porém, nunca teve a intenção de reformar a Igreja, disse Pe. Raniero. “Ele nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja”. E relembrando as famosas palavras do crucifixo da Igreja de São Damião “vai, Francisco, e repara a minha Igreja”, o pregador da casa pontifícia exortou a não tirar conclusões erradas e precipitadas de tais palavras. Porque Francisco mesmo “compreendeu aquelas palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de São Damião”.

Portanto, perguntou-se Pe. Raniero, “Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco?”. E respondeu dizendo: “Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres.”

“Francisco não exortava a fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente outra coisa.” Portanto, reaproximar a Igreja do povo, sem necessariamente distanciar-se da cultura. “Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo.” Também “Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência.”

A verdadeira reforma da Igreja, destacou o Pe. Raniero citando Yves Congar, é a “que permanece tal e não se transforma em cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer solidário com o todo que é a Igreja”.

Imitar Francisco hoje, trazer a sua experiência para nossa época, implica começar como o próprio santo começou, convertendo-se, negando-se, porém não esquecendo-se que “a coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me;” Ou seja, “É o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o fim”.

O pregador da casa pontifícia terminou a sua primeira meditação de advento reconhecendo que tudo isso é “Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça.”

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