Savar: uma tragédia anunciada

A instrumentalização antiocidental da tragédia na fábrica de Bangladesh

Roma, (Zenit.org) Carmine Tabarro | 548 visitas

O que aconteceu em Savar, Bangladesh, é uma história já vista, que se repete periodicamente sem nenhuma perspectiva de mudança. A penúltima desgraça tinha acontecido em 16 de novembro de 2012, na Tazreen Fashion, uma fábrica destruída pelo fogo: nove andares, uma única saída de emergência (bloqueada), fuga impossível dos trabalhadores, saldo de 112 trabalhadores mortos.

Agora, em Savar, a trinta quilômetros de Daca, a capital de Bangladesh, um prédio de oito andares declarado impróprio para uso estava sendo usado, apesar de tudo, como cenário para que centenas de homens e mulheres fossem obrigados pelos seus empregadores a trabalhar por menos de um dólar ao dia.

Em 24 de abril, os oito andares do Rana Plaza colapsaram sobre si próprios.

Até o momento, 2.348 pessoas foram retiradas da montanha de entulho: pelo menos 304 morreram e 2.044 ficaram feridas, mas ainda há 372 desaparecidos. Entre os trabalhadores ainda ausentes há três meninas cristãs, que tinham estudado na Novara Technical School, uma escola técnica fundada em Dinaipur pelos missionários do Pontifício Instituto para as Missões Exteriores (PIME). Missionários e voluntários cristãos chegaram ao local para ajudar nas operações de resgate. Eles continuam a procurá-las entre os escombros e nos hospitais que receberam os feridos.

O Rana Plaza alojava cinco fábricas têxteis com cerca de 3 mil funcionários; em sua grande maioria, moças. Nas fábricas, eram produzidas peças de roupa para grandes marcas internacionais, como a inglesa Primark, a espanhola Mango, a alemã KIK e a gigante norte-americana Wal-Mart.

A italiana Benetton também foi acusada de produzir roupas naquele moedor humano, mas emitiu um comunicado oficial negando envolvimento.

Em 23 de abril, um dia antes do desabamento, inspetores tinham declarado a construção insegura e imprópria para uso, por causa de rachaduras profundas que eram visíveis em todas as paredes. A grande estrutura tinha sido construída sobre um lago submerso, de forma ilegal, por um jovem empreendedor. Apesar da declaração de inabitabilidade, os donos das fábricas forçaram seus funcionários a continuar trabalhando, mediante frases ameaçadoras como "Se você não vier, não pago os atrasados" ou "Se você perder um dia, perde três do pagamento".

Além da tragédia humana e da loucura da ganância humana, o desabamento do edifício significa mais um fósforo aceso em um barril de pólvora pronto para explodir: o clima de tensão política e social que existe no país.

Os partidos da oposição e os partidos islâmicos aproveitaram a oportunidade para instrumentalizar a tragédia contra o Ocidente, imputando a responsabilidade ao governo do partido Liga Awami, do qual exigem a renúncia. O proprietário do edifício, de fato, é um homem que tem ligações com o partido. A frente de oposição ao governo inclui o tradicional Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP), mas também muitos partidos fundamentalistas islâmicos, como o antigo Jamaat-Islam e novas formações e movimentos como o Hefajat-Islam (“Protetor do Islã”) e o Ahle Sunnah Wal Jamaat, que pregam a islamização do país.