Se os evangelizadores não forem santos fica difícil ajudar os outros (Parte 2)

Dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, explica de forma concreta o texto da mensagem final do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização

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Maria Emília Marega

ROMA, terça-feira, 06 de novembro de 2012(ZENIT.org) – Apresentamos a segunda parte da entrevista com Dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, que participou da comissão responsável por redigir o texto da mensagem final da XIII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã.

Novos métodos para uma Nova Evangelização...

Dom Sérgio: Quando se pensa em Nova Evangelização logo se pensa em métodos, isto é verdade, conforme a conhecida frase de João Paulo II. Mas precisamos ter atenção, pois esta diz: novo ardor e novos métodos, primeiro novo ardor e depois novos métodos. É impossível ter este ardor sem a experiência do Encontro e sem a vivencia da Palavra. A pessoa tem que acolher o Evangelho como vida nova para ela, e depois fazer isto com os irmãos.

O encontro pessoal na Igreja é fundamental, conforme cita o terceiro ponto da mensagem. Podemos dizer que o texto tem um primeiro olhar para Cristo, o encontro com Cristo; um segundo olhar para a Igreja e a experiência de vida comunitária, do amor fraterno, da caridade, e aqui se lê: comunidades acolhedoras, solidárias. 

Porque existe esta dificuldade de fazer as pessoas se sentirem acolhidas?

Dom Sérgio: Acho que entra a questão pastoral, o modo de se vivenciar uma paróquia, uma comunidade, mas entra muito a própria experiência de fé, de vida fraterna, de caridade na comunidade. Ninguém oferece aquilo que não tem, uma comunidade que vive a caridade entre si também vai se abrir para acolher quem chega. Uma comunidade que for apenas de gente que se encontra, mas não tem vida fraterna, não tem vida comunitária, fica difícil dispor para acolher os outros.

O primeiro desafio é formar comunidades que vivem da fé, que fazem a experiência do encontro com Cristo, mas que vivem a caridade. O Papa fala na Porta Fidei desta dupla dimensão para o Ano da Fé e também para a Nova Evangelização: a fé e a caridade. Você anuncia, mas a caridade é fundamental. Acho que o texto da mensagem cita inclusive Tertuliano: Vede como eles se amam.

O texto da mensagem tem a seguinte estrutura: um olhar para Cristo, o encontro com Cristo e a fé; um olhar para a Igreja, a vida de comunhão, a caridade; um olhar para o mundo, a missão.

Alguns dizem que a mensagem final do Sínodo tem uma visão muito otimista da realidade. É isso mesmo?

Dom Sérgio: A mensagem não tem um olhar pessimista, a Igreja se sente sim desafiada, mas não acuada; a Igreja tem uma proposta, tem algo a oferecer para esse mundo sofrido, algo novo. A Europa sobretudo que tem um quadro mais sofrido em termos de vida de Igreja, de cultura aberta à fé, muito marcado pela secularização, pela exclusão da Igreja dos espaços públicos, mas não é algo que não fica só na Europa. A secularização é um desafio que vai passando para outros países, mesmo assim, se olha para o mundo secularizado como ocasião para a evangelização, e a mensagem diz que isto é uma oportunidade.

Qual era o olhar dos Padres Sinodais para a juventude?

Dom Sérgio: Inicialmente este olhar era muito um olhar para o futuro, os jovens como futuro da Igreja, futuro da humanidade; em um segundo momento, e isto está no texto, isto foi equilibrado destacando a atuação dos jovens no presente. Na verdade, é possível observar que há sim muitos jovens na Igreja, sobretudo na América Latina e na África onde muitos ministérios e serviços da Igreja são exercidos por jovens. Por exemplo, a catequese, a liturgia, a crisma, e outras atividades da paróquia. Mas é também verdade que a grande parte dos jovens não estão na Igreja e nós temos sim que fazer muito.

E nós temos que evangelizar contando com os próprios jovens e a Jornada Mundial da Juventude aparece aqui como um dos grandes meios para evangelizar, que reúne jovens do mundo todo, como vai acontecer no Brasil em 2013.

Como o senhor resumiria a mensagem final do Sínodo sobre a Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã?

Dom Sérgio: Acho que a mensagem final poderia ser resumida em termos de atitude em três pontos: gratidão, atitude de esperança e responsabilidade do tempo presente.

Gratidão: em primeiro lugar á Deus, ação de graças a Deus, mas acompanhado de gratidão às pessoas que se lançam na evangelização, todo o clero, os religiosos e as religiosas, os consagrados, os leigos e os movimentos, as pastorais, as novas comunidades. Isto é a Nova Evangelização: a igreja toda evangelizando.

Atitude de esperança: uma visão que não é negativa, mas sim realista, tanto que em alguns momentos podemos ler alguns problemas enfrentados por muitas dioceses do mundo. Mas podemos também ver a realidade do Brasil com muita esperança; é possível ver uma grande atuação dos leigos, dos movimentos e pastorais. Nós não estamos em crise na maior parte das dioceses, é o contrário, nós não sabemos como acolher tanta gente. Precisamos olhar para a Igreja em seu conjunto, claro que cada diocese tem seus próprios desafios, mas não podemos olhar só para a realidade da Europa, ou da África, ou da América Latina. Eu vejo este Sínodo como uma grande partilha, uma grande comunhão.

Responsabilidade do momento presente: estamos em um momento em que não podemos assistir passivamente, nós somos chamados a abraçar a causa da Nova Evangelização pra valer e não pela metade. Cada paróquia, cada pastoral, cada movimento tem que fazer a sua parte para que Jesus, a fé em Cristo, a Palavra, o Evangelho chegue ao coração de toda a sociedade em suas várias expressões: famílias, jovens, (...).

A parte 1 desta entrevista foi publicada segunda-feira (05): http://www.zenit.org/article-31695?l=portuguese