"Se um vendedor de seguros pode ser santo, qualquer um o pode..."

Entrevista com Francisco Manicardi, neto de Odoardo Focherini, que será beatificado no dia 15 de Junho

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 616 visitas

Jornalista, vendedor de seguros, pai de sete filhos, recebeu o título de Justo entre as Nações do Estado de Israel, ajudou a criar o Jornal Avvenire da Itália, a Ação Católica, a San Vincenzo e a Unitalsi, mártir da violência nazista...e futuro beato. Esse é o perfil de Odoardo Focherini que será beatificado no próximo dia 15 de Junho pelo Papa Francisco.

Semana passada Luca Marcolivio, jornalista da edição italiana de ZENIT, encontrou-se com Francisco Manicardi,  neto de Odoardo Focherini, que deu algumas chaves de interpretação do seu avô, que como Jesus, “deu a vida pelos seus amigos”.

Francisco conheceu o avô Odoardo por meio das fotografias da tia mais velha, Olga, e pelas histórias da sua avó,  Maria, “uma mulher pequena mas forte, vestida de preto, que levou o luto por 45 anos, que compartilhou a sua existência entre a casa, onde acolheu os filhos e os netos, e a igreja, onde recebia a eucaristia diária”, disse Manicardi.

Aberto a todos

Um avô aberto a todos, “não só aos amigos”, mas também às “pessoas com mais necessidades”. “Odoardo e Maria Focherini – disse Francisco – têm uma paternidade e maternidade alargada também aos filhos dos outros” e possivelmente, por essa razão, acolheram “também os perseguidos, vendo neles seus irmãos (como no caso dos hebreus), como também filhos”. E acrescentou dizendo que “a Avó Maria lhe dizia: ‘Os nossos filhos estão seguros, têm uma casa, eles não a têm: vai e ajuda-lhes”.

Justo entre as nações

“Odoardo foi reconhecido a nível civil, a nível de Igreja universal, a nível de estado de Israel”. Como não hebreu, Odoardo recebeu, em 1969, o título de Justo entre as Nações, concedido pelo Estado de Israel e no 2007, na Itália, Napolitano lhe concedeu a medalha de ouro à memória por mérito civil. “Portanto, acho que possa ser realmente um exemplo de diálogo inter-religioso, mas principalmente de acolhida do outro que significa o pobre, o pequeno que tem necessidade de educação, mas também do estrangeiro, daquele que era percebido como estrangeiro para nós: então o hebreu, talvez hoje o extra-comunitário”, disse à ZENIT o neto de Odoardo.

Jornalista

Como Jornalista, “correspondente local do Avvenire da Itália e do L’Osservatore Romano”, sempre colocava um “toque de humanidade característica” nos seus artigos. “Não fala só de temas importantes como a religião e a fé, mas sublinha a humanidade das pessoas com quem fala” disse Francisco. Também como administrador do jornal “se opõe às vontades do regime, chegando, depois do 8 de setembro, a interromper a publicação do jornal, com tal de não comungar com este novo curso nazista”.

Vendedor de seguros

E como vendedor de seguros? Relatou Francisco a ZENIT que sempre que leva o testemunho do avô nas escolas começa assim: “Se um vendedor de seguros pode ser santo, qualquer um o pode...”. Seu neto revelou que Odoardo escreveu um livrinho de ética destinado aos seus agentes e subordinados no qual se dizia: “vocês devem ter o máximo respeito pelas outras companhias e pelos vossos concorrentes. Porém, devem conhecê-los bem, ter uma pitada de ambição, ser corretos e, ao final, interpretar o vosso papel profissional como uma missão, porque a fim de contas vocês trazem economia para as vossas famílias, com as apólices de vida e, com os seguros, o pensamento pelo amanhã”.

Testamento

Francisco, revelando um particular que poucos sabem, disse que pelo ano de “1936 ele redigiu um testamento no qual antes de mais nada pede perdão a todos, subordinados e superiores, pelos erros eventualmente cometidos, professa a sua fé incondicionada na Igreja e depois faz um elenco de pessoas e de realidades que trazia no coração: entre estes os pobres das cidades do Trentino, de onde provinha ele e a mulher, o Avvenire da Itália, a Ação Católica, a San Vincenzo e l’Unitalsi, todas realidades que ajudou a criar”.